29 de novembro de 2021

Dilema de segurança e equilíbrio de poder: as instabilidades do sistema interestatal capitalista e seu funcionamento

Volume 8 | Número 87 | Nov. 2021


                                       


Por João Miguel Villas Boas Barcellos


“A soberania se afirma pela força, não sendo subordinada, no essencial, a nenhuma lei” (MARTIN, 2018, p. 52).


O sistema interestatal capitalista[1] se desenvolve a partir de um processo histórico que se inicia ainda na Idade Média - com a formação dos Estados nacionais – e evolui pelas “pressões competitivas” entre as potências europeias e suas guerras. Tais guerras, como a dos trinta anos (1618-1648) ou a dos sete anos (1756-1763) e as napoleônicas (1803-1815) ampliam o sistema e o tornam global, na medida em que as potências europeias difundem seu poder político e econômico às nações e povos periféricos (FIORI, 2015). 

Nesse mesmo sentido alguns autores advogam que a ideia de sistema internacional, ou ordem internacional (KISSINGER, 2015), tem seu embrião apenas a partir da Paz de Westphalia, em 1648, quando os Estados Nacionais europeus “conquistam” autonomia frente ao poder papal encerrando um período de guerras incessantes, como a dos oitenta (1568-1648) e dos trinta anos (1618-1648) (WATSON, 2004).

Um fato que chama atenção para o surgimento do sistema interestatal capitalista é o impressionante progresso técnico na Europa a partir desse período. Nessa perspectiva, Kennedy argumenta que:

A falta de qualquer autoridade suprema desse tipo na Europa e as rivalidades marciais entre seus vários reinos e cidades-estados estimularam uma constante busca de progresso militar, que interagiu proveitosamente com o progresso tecnológico e comercial também registrado nesse ambiente competitivo empresarial. Com menos obstáculos à mudança, as sociedades europeias entraram numa espiral ascendente de crescimento econômico e melhoraram sua eficiência militar que, com o tempo, as colocaria à frente de todas as outras regiões do globo (KENNEDY, 1989, p. 02)

Ao se constatar a ascensão do poder europeu em escala global e sua influência na formatação do sistema internacional, pode-se constatar, igualmente, a dificuldade para os demais Estados acumularem poder e riqueza. Tal afirmação coloca uma questão fundamental para a compreensão da dinâmica das relações internacionais: o conflito e a constante preparação – em todos os níveis, do econômico ao militar, passando pelo cultural e político – para ele. Esta constatação deveria instituir aos Estados uma constante vigilância acerca da necessidade de se construir meios para a mudança de patamar estrutural entre eles. Isso nos remete à discussão a respeito da relação de poder entre o centro e a periferia do sistema interestatal capitalista. Ou seja, se há uma relação de hierarquia que condiciona o funcionamento da ordem mundial em suas variadas áreas, como economia e segurança, pode-se concluir que ou os Estados periféricos aceitam a relação de dominação ou rompem com esta estrutura. O único caminho possível é o que Gullo chama de “insubordinação fundadora” (GULLO, 2014). As nações que ousaram (AMSDEM, 2009) e se prepararam para as represálias do centro lograram, não todas, romper a lógica de subordinação. Isso é o que nos mostra Kennedy (1989), Gullo (2014), Mearsheimer (2001) e tantos outros autores. A experiência de países que tiveram êxito, como Japão, Alemanha, Rússia, China, Índia, em menor escala Brasil, serve de inspiração para outras nações.

Sobre a magnitude do poder no sistema internacional, assim se manifesta Spykman:

Na sociedade internacional são permitidas todas as formas de coerção, inclusive as guerras de destruição. Isso significa que a luta pelo poder se identifica com a luta pela sobrevivência; assim sendo a melhoria das posições relativas de poder converte-se no desígnio primordial da política interior e exterior dos Estados. Tudo o mais é secundário porque, em última instância, somente o poder permite realizar os objetivos da política exterior. Poder significa sobrevivência, aptidão para impor a própria vontade aos demais, capacidade de ditar a lei aos que carecem de força e possibilidade de arrancar concessões dos mais débeis. Quando a última forma de conflito é a guerra, a luta pelo poder se converte em rivalidade pelo poderio militar, em preparação para a guerra. (SPYKMAN, 1944, pp. 25-26)

O poder sempre foi a mola mestra do sistema internacional. Nesse sentido, “dilema de segurança” e “equilíbrio de poder” são conceitos fundamentais para entendermos o funcionamento do SI, pois são elementos geopolíticos e mesmo geoeconômicos (KENNEDY, 1989) que fazem as grandes potências, mas também as médias, disputarem espaços de poder e riqueza nele. Quem primeiro teorizou a respeito do conceito de “equilíbrio de poder” foi o filósofo escocês David Hume, em seu ensaio “Of the balance of power”(1742). Como adverte Gonçalves e Silva: 
Equilíbrio de poder é o mais antigo e conhecido conceito das relações internacionais. Tanto os estudiosos como os operadores políticos costumam usá-lo para descrever e analisar as mais diversas situações de política internacional, no passado e na atualidade. Em vista do uso tão generalizado, com o passar do tempo o conceito sofreu uma inevitável multiplicação de sentido. (GONÇALVES; SILVA, 2005, p. 69)
O termo é caro à escola Realista de Relações Internacionais[2]. Diversos autores abordaram o conceito em suas pesquisas. De Adam Watson (2004) a Kenneth Waltz (1979), passando por Jean Baptiste Duroselle (2000) e Raymond Aron (2002) o equilíbrio de poder é um dos conceitos-chave para entender o SI. 

O termo “dilema de segurança” foi formalmente cunhado em 1950 pelo autor da escola Realista de Relações Internacionais, John Herz. Naturalmente, o autor não criou o termo em si, mas o conceitualizou, pois, sabe-se que desde Tucídides (460-400 a. C) o termo é usado para expressar a preocupação de uma autoridade político-territorial com o crescimento do poder político e militar de uma unidade rival. Tal preocupação só existe porque entre as unidades políticas – hodiernamente, Estados Nacionais – vivem em uma contínua anarquia, ou seja, ausência de autoridade política supranacional, ou internacional. O autor teuto-estadunidense empregou o termo para se referir à corrida armamentista durante a Guerra Fria entre as superpotências, Estados Unidos e União Soviética (HERZ, 1950).

No artigo em que o autor desenvolve o termo – “Idealist Internationalism and the Security Dilemma – várias questões de fundo são analisadas, como a natureza humana e a inevitável preparação para o conflito entre unidades políticas. Herz entende que há duas abordagens acerca da natureza dos problemas internacionais, uma “realista” – Realismo Político – e a outra “idealista” – Idealismo Político. O primeiro leva em consideração a questão da segurança e a competição pelo poder, já o segundo, entende que o poder pode ser esvaziado à medida que o bem comum, os direitos e a ética são difundidos (HERZ, 1950, p. 158).

Uma questão de fundamental relevância é tratada pelo autor, qual seja a da ilusória igualdade soberana das nações. Esta é chamada por Herz de “nacionalismo idealista” e será contrabalançada pelo “nacionalismo integral”, termo que o autor se refere para expressar a realidade competitiva, agressiva e expansionista que impera no sistema internacional. 

Não é nosso objetivo, contudo, se prender aos conceitos mais restritos das teorias de Relações Internacionais, mas sim analisá-los à luz das relações de poder e competição entre os Estados, bem como pela perspectiva geopolítica. Por isso, nossa pesquisa busca lançar mãos dos conceitos considerados importantes para se entender a complexa relação de poder e riqueza entre as nações.

Sobre o “equilíbrio de poder”, Spykman fala da necessidade de se manter o equilíbrio de forças para a manutenção e alcance da paz. Desse modo: 

(...) the policy which aims to restrain growing states and is known as the balance of power policy has been part and parcel of the diplomacy of all successfull states. Experience has shown that there is more safety in balenced power than in a declaration of good intention. To preserve the balance requires action not only against neighbour that becomes too powerfull but also against distant states. (...) It is obvious that a balance of power policy is in the first place a policy for the Great Powers. (SPYKMAN, 1942, p. 20)[3]

As grandes potências nunca estão satisfeitas com a distribuição do poder, mas procuram sempre pender a balança para seu lado. Elas tendem a ser revisionistas e usam a força para alterar o equilíbrio de poder. Como o último estágio do poder é a hegemonia, porém, como nenhum Estado conseguiu alcança-la, “o mundo está condenado a perpétua competição entre as grandes potências (MEARSHEIMER, 2001, p. 02, tradução nossa). Assim prossegue o autor sobre a questão:

“The overrinding goal of each state is to maximize its share of world power, which means gaining power at the expense of other states. (...) Their ultimate aim is to be the hegemon – that is, the only great power in the system (MEARSHEIMER, 2001, p. 02).[4]


Existiriam três características no sistema internacional que faz que os Estados sintam insegurança, quais sejam a ausência de uma autoridade central protetora; o fato de que os Estados têm permanentemente uma capacidade militar ofensiva e a imprevisibilidade com relação às intenções dos Estados. Portanto, tais características conformam a principal meta dos Estados: sobreviver (MEARSHEIMER, 2001).


Conclusão

A despeito de concordarmos que exista uma ampla discussão teórica a respeito do objeto de análise, preferimos fazer uma avaliação da realidade internacional a partir dos conceitos consagrados do Realismo (RI), do Mercantilismo (EPI) e do Poder Global.

Buscamos nesse breve artigo discutir os fundamentos do sistema internacional de poder, bem como jogar luz sobre a discussão acerca das instabilidades sistêmicas que afetam as elações entre os Estados nacionais. Desse modo, considerando a análise exposta é de fundamental importância a compreensão de que os Estados que buscam se afirmar no sistema internacional capitalista com autonomia devem agir de maneira a sopesar os elementos sistêmicos de poder e riqueza. A história revela-nos que não há precedente de Estados que tenham alcançado autonomia estratégica prescindindo do desenvolvimento de robustas forças militares, avançado sistema de inovação e sofisticado sistema produtivo.


Referências

AMSDEN, Alice Hoffenberg. A ascensão do" resto": os desafios ao ocidente de economias com industrialização tardia. Unesp, 2009.

CARR, Edward Hallett. Vinte Anos de Crise: 1919-1939: uma introdução ao estudo das relações internacionais. Brasília: Editora UnB, 2001.

FIORI, José Luís. História, estratégia e desenvolvimento: para uma geopolítica do capitalismo. Boitempo Editorial, 2015.

GULLO, Marcelo. A insubordinação fundadora: breve história da construção do poder pelas nações. Florianópolis: Insular, 2014.

HERZ, John H. Idealist internationalism and the security dilemma. World politics, v. 2, n. 2, p. 157-180, 1950.

KENNEDY, Paul. Ascensão e queda das grandes potencias transformação econômica e conflito militar de 1500 a 2000. Rio de Janeiro: Campus, 1989.

KISSINGER, Henry. Ordem mundial. Objetiva, 2015.

MARTIN, André Roberto. Brasil, Geopolitica e Poder Mundial: o anti-golbery. Hucitec, 2018.

MEARSHEIMER, John J. et al. The tragedy of great power politics. WW Norton & Company, 2001.

SILVA, Guilherme A.; DA SILVA GONÇALVES, Williams. Dicionário de relações internacionais. Manole, 2005.

SPYKMAN, Nicholas. Geography of the Peace. 1944.

WALTZ. Kenneth. Theory of international politics. New York: McGraham Hill, 1979.

WATSON, Adam. A evolução da sociedade internacional: uma análise histórica comparativa. Brasília: Editora UnB, 2004.


[1] Preferimos o conceito pelo fato dele abranger os elementos econômicos como relevantes para o cálculo político dos Estados. Nas palavras de Fiori: o sistema interestatal capitalista “sublinha a importância permanente e insuperável dos Estados nacionais, com seus capitais e suas moedas específicas, para o desenvolvimento do capitalismo, que é desigual e hierárquico” (FIORI, 2015, p. 17). Há partes do texto em que usaremos o conceito clássico das Relações Internacionais: sistema internacional, pois é assim que autores citados na área se referem.

[2] Para mais informações acerca do realismo nas Relações Internacionais ver as obras: CARR, 2001; MORGENTHAU, 2003; WALTZ, 1979; MEARSHEIMER, 2001. 

[3] “A política que visa conter os estados em crescimento e é conhecida como política de equilíbrio de poder tem sido parte integrante da diplomacia de todos os estados bem sucedidos. A experiência tem mostrado que há mais segurança no equilíbrio de poder do que em uma declaração de boas intenções. Para preservar o equilíbrio é necessário agir não apenas contra o vizinho que se torna muito poderoso, mas também contra estados distantes. (...) É óbvio que uma política de equilíbrio de poder é, em primeiro lugar, uma política para as Grandes Potências.” (Tradução nossa).

[4] “O objetivo primordial de cada estado é maximizar sua participação no poder mundial, o que significa ganhar poder em detrimento de outros estados. (...) Seu objetivo final é ser o hegemon - ou seja, o único grande poder do sistema.” (Tradução nossa).


João Miguel Villas Boas Barcellos é Doutor em Economia Política Internacional no PEPI-UFRJ e mestre na mesma área e mesma instituição. Fez graduação em Relações Internacionais na PUC -GO (2007) e especialização na mesma área na UCAM (2011). Pesquisador integrante do Núcleo de Avaliação da Conjuntura do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Escola de Guerra Naval. É, igualmente, pesquisador do Grupo de pesquisa: "Direitos sociais, direitos fundamentais e políticas públicas", concentrando sua investigação nas questões econômicas e sociais. Tem interesse acadêmico em: Economia Política Internacional, a relação entre o processo de desenvolvimento e a geopolítica, desenvolvimento econômico e social, pensamento estratégico brasileiro e indiano,Política Externa Brasileira e Indiana, complexo industrial-militar e política industrial voltada à defesa nacional.


11 de outubro de 2021

Uma análise de Ruanda pós-genocídio através da liderança feminina com base no panorama da socióloga Spivak

Volume 8 | Número 86 | Out. 2021



Por Beatriz Raponi Vence Rey


Ruanda, um país localizado na região dos Grandes Lagos na África, presenciou, entre os meses de abril e junho de 1994, um dos maiores massacres do século XX: em apenas 100 dias de violência, cerca de 800 mil pessoas foram mortas durante a guerra entre os grupos étnicos: Hutus e Tutsis[1]. Em relação aos motivos do conflito, é algo que ainda traz incertezas e deixa muitas lacunas abertas, visto que alguns estudos consideram que foi por questões políticas; outros por questões étnicas ancestrais e, também análises que abordam às fortes colonizações[2] como estopim ao incentivo das indiferenças entre as duas etnias (questões identitárias e físicas) (SANTOS, 2019). 

Em consequência ao terrível genocídio, o país foi posto à prova de diversos desafios, como a reestruturação de suas áreas políticas e econômicas, criação de espaços para conciliações dos grupos étnicos e reconstrução do país como um todo. Porém, a grande maioria dos homens foram mortos ou exilados durante o confronto, e de maneira muito rápida as mulheres e meninas representavam 70% da população ruandesa (WOMEN’S ENEWS, 2003). Por este motivo, em prol da igualdade de gênero, houveram mudanças nas estruturas políticas de poder ruandês, que foram utilizadas a favor dos direitos e representações das mulheres em lugares antes nunca ocupados, como na política, economia, no âmbito acadêmico e em posses de terras (BATISTA, 2015). 

Nesse sentido, o foco deste trabalho é analisar o caso da “ausência/presença” do gênero feminino pré e pós-guerravis-à-vis ao estudo pós-colonialista de Gayatri Spivak[3], mais concretamente com os aspectos de representações existentes e o essencialismo. É relevante abrir uma reflexão para o seguinte questionamento: houve de fato mudanças em Ruanda? 


Papel feminino em Ruanda X Spivak. 

É possível realizar uma relação dos estudos da socióloga, com o contexto de Ruanda antes do genocídio, como propriamente uma sociedade profundamente patriarcal e afetada pelo pós-colonialismo[4]. O lugar das mulheres era como donas de casas e submissas aos chefes de suas famílias, a educação lhes era restrita - assim como seus direitos - não possuíam terras, tudo que “tinham” como delas eram de posse de seus maridos e, se não eram casadas, seus pertences eram de seus pais ou irmãos (BATISTA, 2015). Durante o período da guerra, a violência de gênero foi transformada como utensilio para ferir o inimigo, as mulheres eram constantemente estupradas e abusadas sexualmente, e se engravidassem, seriam usadas como forma de controle étnico, pelo fato de que os frutos dos estupros causariam – a longo prazo - uma “limpeza étnica” do outro. Ademais este tipo de violência sexual é uma das formas de propagar humilhação e medo sobre as comunidades envolvidas (adicionalmente, os altos casos de HIV-AIDS no país que foram aumentados devido aos fatos trazidos) (BALISTIERI, 2018).

A fim de um melhor entendimento, do porquê ferir a mulher do inimigo é algo comum neste caso, Balistieri[5]cita Crenshaw: “as mulheres são alvos especiais desse tipo de abuso por serem frequentemente percebidas como representantes da honra simbólica da cultura e como guardiãs genéticas da comunidade” (CRENSHAW, 2002, p. 176).

Estas problematizações, têm como razões primordiais o resultado das consequências históricas dos pilares do imperialismo e colonialismo globais, que de forma sistematizada e hierarquizada, estruturou gêneros, classes e raças em divisões de quem seria o dominante e quem seria o dominado, no caso estudado, definindo papéis sociais através do gênero. Considerando o caso do país africano, que já é - se for possível dizer desta forma - subalterno na ordem internacional, em seu interior cria-se um reflexo desta relação de subordinação entre os gêneros masculinos e femininos ainda mais profundos, já que em períodos de confrontos, o papel social da mulher se torna ainda mais subordinado ao masculino (CRENSHAW, 2002).

No livro “Pode um subalterno falar?”[6], Spivak reflete sobre os termos criados por Marx - a fim de explicar os dois tipos de representações existentes - em “O 18 Brumário de Louis Bonaparte”: vertretung – (significa a representação estrutural democrática, onde há a representação feita pelo dominante sobre o dominado, alegando que este último não tem condição de se auto representar – aqui como a elite ruandesa-) e darstellung (significa a representação falsa, a qual esconde a manutenção do imperialismo existente). Ela completa: “além desses termos se situa o lugar no qual os sujeitos oprimidos falam, conhecem e agem por si mesmos, leva a uma política utópica e essencialista.” (SPIVAK, 2010, p. 35). Em outras palavras, uma das formas do silenciamento dos subalternos, é esta representação feita por posições privilegiadas em determinados cenários. O problema é que classes dominantes, em blocos parlamentares, por exemplo, representam-se como “grupos identitários”, identificando-se como iguais e falando em nome de grupos específicos - que sofrem pelo racismo, xenofobia, violência de gênero -, e assim anulando a interseccionalidade de classe, raça e gênero e as peculiaridades que existem claramente entre si. 

Este tipo de deficiência de representação, nem sequer havia acontecido em Ruanda antes do genocídio, já que as mulheres não eram envolvidas em nenhum tipo de discussão política e tampouco em tomadas de decisões. Ao analisar este caso com o essencialismo de Spivak, o grupo subalterno feminino se colocava distante de ser livre, autônomo e único. Na maneira, que o país estava sendo direcionado, influenciado pelo patriarcado e imperialismo, as mulheres estavam fadadas a serem divididas, subordinadas e descontínuas até os seus fins. Além disso, levando em consideração o lugar onde essas mulheres estão inseridas, uma região extremamente afetada pelos processos de colonização e descolonização, Spivak comenta: "se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade." (SPIVAK, 2010, p. 66-67). Ou seja, em comparação a um sujeito masculino subalterno, o sujeito subalterno feminino é duplamente silenciado devido a violência de gênero. 

Após o genocídio, houve uma enorme necessidade de algum grupo assumir o comando da situação caótica que o país se encontrava, e foi assim que as mulheres se inseriram nas esferas públicas, privadas e governamentais, a fim de reestruturar nacionalmente o país e serem obrigadas a mudarem a linha de pensamento que tinham de si mesmas, pelo fato de estarem acostumadas a uma posição de constante subalternidade e opressão que levou a subjetividade do feminino. 

Segundo dados do PNUD, no pós-guerra, 56% das famílias eram chefiadas por viúvas (UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAMME RWANDA, 2007). Nesse sentido, foi um desafio colossal tomar a liderança do país e de suas famílias naquele momento e, era mais que necessário as mulheres aceitarem que é sim um direito obter independência financeira e que cabia a elas o desenvolvimento, a estabilidade e a segurança em direção a um novo recomeço de Ruanda. 

Por este motivo, as mulheres foram obrigadas a realizar novas atividades e tomaram frente na reconstrução de casas, cuidados aos sobreviventes da guerra e a busca de lares para a grande quantidade de crianças órfãos (WOMEN’S ENEWS, 2003). Assim sendo, as organizações femininas se multiplicaram demonstrando a importância de movimentos sociais ao embate as injustiças, e ONGs voltadas aos direitos das mulheres foram criadas, em prol de superar a crise na qual estavam sofrendo, ganhando apoio financeiro e técnico por parte da comunidade internacional em razão da assistência às vítimas crianças e mulheres de países afetados por guerras. Porém, infelizmente a ideologia seguida pela grande parte dessas ONGs são postas pelo feminismo liberal, que inclui a mulher de elite que mora em regiões urbanas e exclui a mulher de baixa renda que vive em áreas rurais (LIPP, 2013). Nesse contexto, mesmo com avanços consideráveis no país, ainda há a exclusão da mulher rural ruandesa, quem não logrou a representação merecida ao longo deste processo. E sim, condicionando uma representação da classe dominante sobre ela, pois sofre a sua “falsa representação” mencionada anteriormente. Logo, existe a mesma deficiência do sistema caracterizado de antes do genocídio, que a mulher oprimida, não pode ser ouvida e não pode se auto representar. 

É deveras importante criar a reflexão sobre o que foi comentado acima, mas não se deve tornar irrelevante todos os progressos em relação a igualdade de gênero que transformaram Ruanda nos últimos 25 anos. Tal como, os seguintes dados do site UN WOMEN: as mulheres ruandesas ocupam 61% da Câmara dos Deputados; 50% dos cargos ministeriais; 38% dos assentos do Senado e 43.5% dos cargos de vereadores em níveis locais. Além de emergirem como líderes em setores privados, como em bancos (WOMEN’S ENEWS, 2003). É promovida a igualdade de gênero e o empoderamento feminino, através de comícios em pelo menos 13 convenções e protocolos internacionais e regionais, como a “Convention on the Elimination of All Forms of Discrimination against Women (CEDAW)” (UN. WOMEN). 


Considerações finais. 

O dado mais impressionante nos tempos atuais, é de as mulheres ruandesas ocuparem 61,3% de legisladoras na câmara baixa e 38,5% na alta[7], a maior taxa de parlamentaristas femininas do globo. Em vista disso, e dos argumentos apresentados, é de forma justa dizer que Ruanda está de acordo, como local de liderança e representação feminina e ser sinônimo de progresso na paridade de gênero, em relação à representação singular em suas principais esferas, principalmente se houver a comparação com países desenvolvidos que estão distantes da igualdade de gênero. 

Contanto, é importante salientar, que Ruanda também não é sinônimo de perfeição, uma vez que é de extrema necessidade que estas mulheres que agora estão em posições de alto escalões – principalmente em órgãos governamentais -, criem discursos menos excludentes, reconhecendo as verdadeiras realidades de todas as mulheres subalternas ruandesas e, assim, tornem possível a independência de mulheres que ainda são deslegitimadas e que estas últimas logrem espaços onde sejam de fato ouvidas e representadas. Dado o exposto, Ruanda se torna de maior modelo e influência ao empoderamento feminino como sinônimo de desenvolvimento - realizando a inclusão de gêneros subalternos - para diversos países, sem que haja a necessidade de um conflito tão violento para criar mudanças que são primordiais. 


Beatriz Raponi Vence Rey é estudante de Bacharelado em Relações Internacionais pela PUC-SP. Interesse pelos temas de Direitos Humanos e Meio Ambiente.

Referências:

BATISTA, S. L. Ruanda: Os avanços na promoção da igualdade de gênero e a ascensão das mulheres na política no pós-genocídio. Brasília, Março de 2015. 

BALISTIERI, Thaís Regina. "Sejam honestas, sejam ativas, articulem-se": o empoderamento e a garantia de direitos das mulheres pela participação feminina no processo de reconstrução de Ruanda após o genocídio de 1994. TCC (graduação) - Universidade Federal de Santa Catarina. Centro Socioeconômico. Relações Internacionais. 2018-11-27

CRENSHAW, Kimberlé Williams. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Rev. Estud. Fem. 2002, vol.10, n.1, p. 171-188. Disponível em: Acesso em 05 out. 2021.

ENDA, Jodi. Women Take Lead in Reconstruction of Rwanda. ONG Women’s News, 2003. Disponível em: Acesso em: 05 out. de 2021.

LIPP, Camila Soares. RELAÇÕES DE GÊNERO EM RUANDA NO PERÍODO PÓS-GENOCÍDIO: MUDANÇAS DE FATO? Revista de Direitos Fundamentais e Democracia, Curitiba, v. 13, n. 13, p. 281-304, janeiro/junho de 2013.

SANTOS, Bruna Tais. SOBRE A RELAÇÃO ENTRE TUTSIS E HUTUS: A QUESTÃO IDENTITÁRIA NOS CONFLITOS DE RUANDA (1994). ANPUH-Brasil - 30 SIMPÓSIO NACINAL DE HISTÓRIA - Recife, 2019, [S. l.], p. 1-16, 19 out. 2019. Disponível em: https://www.snh2019.anpuh.org/resources/anais/8/1565646594_ARQUIVO_ArtigoANPUH-Recife-BrunaTaiss.pdf. Acesso em: 6 out. de 2021.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? 1. ed. Trad. Sandra Regina Goulart Almeida; Marcos Pereira Feitosa; André Pereira. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2010.

RWANDA. AFRICA.UN WOMEN. Disponível em: <https://africa.unwomen.org/en/where-we-are/eastern-and-southern-africa/rwanda> Acesso em: 02 set. de 2020.

UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAMME RWANDA. Disponível em: <https://www.rw.undp.org/> Acesso em: 02 set. de 2020.


[1] A etnia Hutu representava e ainda é, a maioria da população ruandesa, por enquanto a etnia Tutsi teve a sua população reduzida em 20% após o massacre (ONU, 2004).

[2] Colonizações, pois Ruanda sofreu influências coloniais da Alemanha, Bélgica, França e após o genocídio, dos Estados Unidos da América. 

[3] Gayatri Chakravorty Spivak é considerada uma das mais importantes intelectuais de estudos pós-colonial, subalternos e feministas em âmbito global. 

[4] O período de pós-colonialismo, foi marcado pelas marcas e influências imperialistas em sociedades que sofreram a colonização, de maneira mundial e como fenômenos particulares em cada tipo de colonização. Assim, surgiu os estudos pós-coloniais, para que através de abordagens críticas e teóricas, fosse possível uma maior compreensão, de quais foram os rumos e as consequências advindas de sociedades uma vez colonizadas.

[5] Balistieri, Thaís Regina. "Sejam honestas, sejam ativas, articulem-se": o empoderamento e a garantia de direitos das mulheres pela participação feminina no processo de reconstrução de Ruanda após o genocídio de 1994. TCC (graduação) - Universidade Federal de Santa Catarina. Centro Socioeconômico. Relações Internacionais. 2018-11-27.

[6] No livro, a autora discute as condições de subalternidade das mulheres – pobreza, gênero e raça – com capítulos focados na marginalização da mulher negra em um cenário colonial e que carrega as suas influências até os dias de hoje. 

[7] Dados extraídos do próprio site das Nações Unidas, com atualização de 10 de março de 2021.> https://news.un.org/pt/story/2021/03/1743972<


27 de setembro de 2021

Saúde global e disputas político-ideológicas: reflexões a partir da Guerra Fria e do Programa Global de Erradicação da Malária (1955) da Organização Mundial da Saúde

Volume 8 | Número 85 | Set. 2021





Por Nathalia Candido Stutz Gomes


Em agosto de 2020, a Rússia nomeou sua vacina contra a COVID-19 de Sputnik V - uma referência ao primeiro satélite artificial da história lançado pelos russos em 1957 no contexto de corrida espacial da Guerra Fria. Do lado norte-americano, também não era incomum que o ex-presidente norte-americano Donald Trump se referisse ao SARS-COV-2 como “vírus chinês”. Ao mesmo tempo, esforços de promoção da cooperação técnica e financeira na crise sanitária internacional têm sido realizados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo o programa Covid-19 Vaccines Global Access” (Covax) o maior exemplo e cujo objetivo é promover a produção e o acesso global a um imunizante contra o COVID-19. Percebe-se também que o tema da diplomacia da vacina entrou na ordem do dia, tanto na imprensa quanto em trabalhos acadêmicos, denunciando as diferenças de poder e de recursos materializados nas desigualdades no acesso às vacinas no âmbito internacional.[1.

Embora esses temas tenham ganhado proeminência recentemente, ressalta-se neste texto que o impacto de disputas político-ideológicas na área da saúde internacional não é um fenômeno novo nas relações internacionais. Nesse sentido, o período da Guerra Fria, marcado pelo recrudescimento das rivalidades entre Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS), exemplifica como disputas políticas influenciam dinâmicas da cooperação em saúde internacional. [2] Mais do que um aspecto conjuntural, a Guerra Fria foi um componente dinâmico das políticas internacionais de saúde ao longo do período. A bipolaridade impactou a institucionalização de organizações internacionais especializadas na área, como é o caso da própria Organização Mundial da Saúde (OMS), estabelecida em 1948, nas escolhas e nas práticas de projetos a serem implementados ou rechaçados em políticas de cooperação técnica internacional e nas perspectivas sobre diferentes projetos de sociedade, que, por sua vez, influenciaram concepções diversas sobre saúde e desenvolvimento (BIRN; NECOCHEA, 2020). Este artigo explora o maior empreendimento da OMS em termos financeiros, políticos e humanos no período: o Programa Global de Erradicação da Malária (PEM), lançado em 1955. O objetivo é, a partir do caso do PEM, enfatizar os elementos de Guerra Fria que caracterizaram os debates de então no campo da saúde internacional e, assim, explicitar como a implementação do programa refletiu a política externa norte-americana de contenção ao comunismo internacional. O texto expõe como a Guerra Fria impactou a OMS e analisa os elementos narrativos da bipolaridade que caracterizaram o PEM, além de promover breves reflexões a partir de perspectivas críticas da saúde global, ressaltando alguns elementos do atual contexto da política internacional na pandemia de COVID-19.

Os impactos da Guerra Fria na OMS ocorriam cotidianamente; as campanhas de erradicação de doenças, os processos de organização de serviços médicos, pesquisas científicas na área da saúde, as políticas de controle populacional e desenvolvimentos na área de medicina social constituíram temáticas da cooperação internacional permeadas pelas disputas político-ideológicas entre as duas superpotências. De fato, especialistas são unânimes ao enfatizar que a OMS foi estabelecida em 1948 sob forte influência da política externa norte-americana (CUETO, M.; BROWN, T. M.; FEE, E., 2019; FARLEY 2004, cap.16 e 17; PACKARD 2016). Em 1949 a URSS chegou a se retirar da organização, retornando ao órgão apenas em 1956, no contexto pós-estalinista.[3]

Campos (2006, p. 194-195) explica que a Guerra Fria impactou a OMS por meio da tensão entre perspectivas conflitantes sobre saúde, que, por sua vez, representavam diferentes projetos de sociedade e de métodos de como lidar com desafios sanitários no então chamado “Terceiro Mundo”. Em um extremo, defendido pelos EUA, propunha-se o foco em campanhas de erradicação de doenças. Essa concepção entendia que melhoras no campo da saúde eram fundamentais para a eliminação da pobreza, e não o contrário. Esse entendimento de “saúde como ausência de doenças” dava primazia à utilização das novas capacidades técnicas do período, desconsiderando problemas socioeconômicos das populações locais (CUETO, 2007). Em outro extremo do debate, uma abordagem alternativa argumentava que, “ainda que o controle de doenças fosse necessário, o desenvolvimento econômico seria um pré-requisito para a melhora nos índices de saúde” (FARLEY 2004, p. 285, tradução nossa, CAMPOS 2006, CUETO 2007, 2015 e 2019 e PACKARD 1997). A União Soviética, apesar de implementar campanhas de erradicação em seu território, filiava-se a essa última perspectiva em oposição aos Estados Unidos. 

Em meio às disputas político-ideológicas da Guerra Fria, o PEM se tornou a maior empreitada da OMS no período, materializando a consolidação da perspectiva norte-americana dentro da organização nos anos de 1950. Segundo Cueto (2006, p. 42), em 1959, dos 800 projetos em implementação pela OMS, 200 versavam sobre controle e erradicação de doenças. Porém, apesar de suas intenções globais, o PEM seria de fato implementado apenas na América Latina e na Índia, e embora tenham sido dispendidos vultosos recursos humanos, políticos e financeiros, não se alcançou o objetivo da erradicação da doença (CUETO 2007; CUETO, BROWN, FEE 2019, PACKARD 1997). Estudiosos apontam que, entre os motivos para o fracasso estavam justamente as premissas da abordagem ‘tecnicista’ do programa de erradicação. Eram elas a crença excessiva nos recursos técnicos, especialmente a ampla utilização de inseticidas de ação residual, como o DDT, no seu modelo verticalizado de implementação, que dava primazia a uma elite de técnicos estrangeiros em detrimento de conhecimentos locais e, finalmente, na abordagem estreita de saúde pública, que perdia de vista aspectos sociais fundamentais característicos da propagação do mosquito transmissor da doença (CUETO 2007, PACKARD 1997). À medida que se prolongava a insistência em terminar com o ciclo de transmissão da moléstia por meio da eliminação do mosquito transmissor, estes adquiriam cada vez mais resistência ao veneno. Há relatos, inclusive, de resistência à cloroquina, que, em muitas regiões, foi distribuída de forma ampla e como meio de prevenção à doença. Em 1969, a Assembleia-Geral da OMS reconheceu que a maior parte dos países não atingiria a erradicação da malária e aprovou uma resolução que questionava a eficácia de campanhas verticalizadas com foco em doenças específicas (CUETO; BROWN; FEE 2019, P. 110). 

A perspectiva anticomunista dos EUA na área da saúde internacional era também mobilizada a partir de discursos de promoção do desenvolvimento ligados à própria noção de segurança nacional (CUETO 2007). De fato, o antropólogo Arturo Escobar (1995), a partir de uma perspectiva crítica, argumenta que a “busca pelo desenvolvimento” era também um elemento de disputa de Guerra Fria, com implicações não somente nos modos de implementação de projetos de cooperação internacional, mas também na proeminência de perspectivas específicas de modelos de sociedade e de determinadas técnicas em detrimento de outras. No caso do projeto de poder estadunidense no período, “a saúde internacional passou a ser considerada investimento para o desenvolvimento, instrumento de eliminação da pobreza e arma política contra o comunismo” (CAMPOS 2006, p. 194, CUETO 2007, PACKARD 1997). Para os teóricos da Modernização, por exemplo, o argumento de conexão entre saúde e pobreza era o de que “pessoas saudáveis representavam ganhos maiores para as economias local e mundial do que pessoas doentes” (CUETO 2007, p. 89-90, tradução nossa).[4] Por essas razões, estudiosos apontam que o Programa Global de Erradicação da Malária da OMS se tratava de um programa de desenvolvimento econômico e político, tanto quanto de saúde pública – enfatizando que as perspectivas de saúde em jogo estavam acopladas a diferentes projetos de sociedade (CUETO 2007, PACKARD 1997, p. 284). 

Quanto à noção de segurança interacional, as autoridades norte-americanas argumentavam que programas internacionais em saúde eram ferramentas importantes para ‘quebrar os círculos viciosos’ entre doença e pobreza, que, por sua vez, poderiam resultar em guerras. Os EUA colocavam o engajamento externo do país na área como estratégia para projetar a sua imagem como defensores da paz em um contexto de tensões internacionais (CUETO, 2007). De fato, essa postura se coaduna com a estratégia norte-americana de contenção do comunismo internacional. Nesse período, o governo de Harry S. Truman (1945-1953) institucionalizava programas de cooperação técnica e econômica internacional como ferramentas estratégicas para esse propósito. [5]

O discurso da segurança aparecia também nas construções linguísticas e narrativas. Nesse aspecto, o Programa Global de Erradicação da Malária forneceu metáforas interessantes entre doença, segurança e guerra. Um dos exemplos consta no relatório da Fundação Rockefeller, instituição filantrópica norte-americana bastante atuante em projetos de erradicação no período, que dizia claramente que a erradicação da malária ajudaria na luta contra o comunismo, uma vez que essa doença seria um fator que provoca predisposição de uma comunidade por infeções por ‘germes políticos’ que poderiam atrasar e destruir a liberdade (CUETO, 2007. p. 34). A erradicação da malária aparecia nas falas de policymakers norte-americanos como sinônimo de modernização, como superação de uma condição que ‘escravizava os povos do Terceiro Mundo’. Essas construções linguísticas presentes nessas narrativas colocavam o programa como uma ‘guerra contra o mosquito’, nas palavras de Cueto (2007, p. 15-16), uma ‘cruzada’, um ‘dilema moral que separaria o bem do mal’. Somando-se a essa metáfora de cruzada e guerra moral, uma autoridade norte-americana descreveu o DDT, como uma ‘bomba atômica contra insetos’. Essas construções linguísticas estavam presentes também nas quatro etapas de implementação do programa, que seriam as fases de “preparação, ataque, controle e consolidação” – um vocabulário típico de operações militares (CUETO, 2007; CUETO; BROWN; FEE, 2019). 

Conforme enfatizado, a proeminência de campanhas verticais de erradicação de doenças, materializada no enorme esforço técnico e material do PEM representou a ‘vitória’ da proposta estadunidense na OMS. Esse caso histórico, no entanto, pode ser visualizado à luz de perspectivas críticas atuais sobre saúde global. Nesse sentido, é crucial que se reconheça que as escolhas da saúde global são construídas a partir de processos políticos que refletem relações de poder, com suas concepções de sociedade e de valores (NUNES 2020). Estas, por sua vez, têm impactos políticos concretos sobre políticas públicas na área da saúde, isto é, sobre o que deve ser protegido, o que deve ser prioridade e quais práticas seriam legítimas para se atingir determinado objetivo (NUNES, 2020). Por exemplo, as concepções que embasaram o PEM tiveram impactos práticos em sua implementação, no cotidiano das populações afetadas e nas políticas públicas da área em anos subsequentes. Ressalta-se que a intensa utilização do DDT dentro de residências, aliada à crença absoluta nas novas medicações, ocorreu em detrimento de atuação na melhora das condições socioeconômicas e sanitárias de vida das populações rurais afetadas pela doença (CUETO 2007, PACKARD 1997). 

Isso exemplifica impactos práticos de determinadas escolhas políticas no cotidiano dos indivíduos. Especificamente no caso do PEM na América Latina, Cueto (2007) enfatiza que, entre as consequências de longo prazo, está a construção de um padrão de saúde pública que denomina como “cultura da sobrevivência”. Isto é, uma predominância de intervenções de curto-prazo em saúde, gerando um círculo vicioso entre ‘soluções temporárias’ e epidemias que, por sua vez, reforçam vulnerabilidades pré-existentes. O autor reforça que, no caso do PEM, os programas de erradicação da malária não foram incorporados pelos sistemas nacionais de atenção e de serviços básicos em áreas rurais em anos subsequentes. Pesquisas recentes têm ressaltado, por exemplo, como técnicos que iam a campo implementar projetos de cooperação técnica eram a ponta de lança para aplicação de teorias, métodos, perspectivas sobre desenvolvimento e de projetos de sociedade no contexto de Guerra Fria (CHASTAIN; LOREK, 2020). Somando-se a esses trabalhos, Anne-Emanuelle Birn (2020), espeficicamente focada em estudos de história da saúde na América Latina, ressalta que temas de cooperação em saúde no período da Guerra Fria são fundamentais para lançar luz sobre desenvolvimentos mais recentes sobre políticas de saúde na região, tanto no plano interno quanto no internacional. 

Ao olhar para a dinâmica da competição política e técnico-científica, bem como para as narrativas decorrentes desse período de aumento de tensões EUA-URSS, percebe-se paralelos com o atual panorama de disputas diante da pandemia de COVID-19. Essas coincidências se reforçam não só quando a Rússia batiza sua vacina contra a Covid de Sputnik, mas também diante do relatório anual do U.S. Department of Health and Human Services (HHS) referente ao ano de 2020, que revelou que o governo Trump teria tentado influenciar o Brasil a rejeitar a vacina russa.[6] Essa breve menção no relatório, que aparece em tópico intitulado “Combatendo influências malignas nas Américas” afirma que o Office of Global Affairs (OGA) da instituição envidou esforços diplomáticos na região para “mitigar os esforços de certos países, incluindo Cuba, Venezuela e Rússia, que estariam trabalhando para aumentar influência na região em detrimento da segurança dos Estados Unidos” (HHS 2020, p. 48, tradução nossa). De menor repercussão na imprensa, o mesmo trecho cita que o escritório internacional do HHS teria oferecido ao Panamá assistência técnica do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), “para que o país não aceitasse ajuda de médicos cubanos” (HHS 2020, p. 48). Esses registros demonstram quão impressionantes são as semelhanças das construções linguísticas e narrativas dos EUA, focados na perspectiva de segurança e de relações de poder, ao menos durante o governo Trump, com as narrativas aplicadas aos programas de saúde internacional durante a Guerra Fria. Independente dos desenvolvimentos políticos nos próximos meses, a breve análise do caso do Programa Global de Erradicação da Malária da OMS reforça que influências políticas, estratégicas e a própria securitização do tema da saúde global na arena internacional não é novidade. 



CONSIDERAÇÕES FINAIS



A imposição de determinadas percepções, valores e ideologias em temas normalmente tidos como ‘neutros’ e ‘técnicos’ não é um fenômeno novo. No caso da área da saúde pública, por exemplo, isso é bastante evidente quando se analisa a dinâmica da competição política e técnico-científica entre EUA e URSS no período da Guerra Fria. Nos primeiros anos desde a instituição da OMS, em 1948, havia o embate entre duas perspectivas sobre saúde em desenvolvimento no âmbito da organização. Uma delas, fortemente advogada pelos EUA, preconizava por uma visão que equivalia a saúde à ausência de doenças e, nessa linha, defendia campanhas de erradicação de doenças, implementadas de forma verticalizada e fortemente amparados nos avanços técnicos do período. O Programa Global de Erradicação da Malária, lançada pela OMS em 1955, tornou-se símbolo dessa abordagem, tendo constituído a maior empreitada na área de promoção da cooperação na área da saúde no período. A outra perspectiva, a qual a URSS se alinhava em oposição aos EUA, ressaltava que, ainda que o controle e a eliminação de doenças fossem importantes, uma abordagem mais ampla focada nos aspectos socioeconômicos era crucial. 

Em meio a essas discussões, a União Soviética chegou a se retirar da OMS em 1949, tendo retornando apenas 1956 já no período pós-stalinista. De fato, o caso do PEM torna evidente como os EUA alinhavam a perspectiva erradicacionista à sua política anticomunista, utilizando narrativas binárias, construções sociais sobre o ‘outro’ e a noção de ‘perigo’. Esses aspectos eram mobilizados nos próprios discursos de promoção de desenvolvimento no então chamado “Terceiro Mundo”. Nesse contexto, projetos de saúde internacional eram, além de investimento para o desenvolvimento, uma arma política contra o comunismo.  

Finalmente, é fundamental ressaltar que os impactos político-ideológicos em iniciativas na área da saúde internacional, provocam consequências na vida de indivíduos. Conforme apontado por perspectivas críticas de saúde global, podendo reforçar vulnerabilidades pré-existentes. Nesse sentido, é crucial que analistas reconheçam que os debates públicos em saúde global refletem relações de poder que, por vezes, silenciam abordagens alternativas para problemas conhecidos. Não à toa, ao chamar a atenção para a necessidade de abordagens mais abrangentes para a pandemia de Covid-19, Richard Horton (2020) ressalta o caráter sindêmico da atual emergência – isto é, para além dos determinantes biológicos da doença, os fatores socioeconômicos que exacerbam desigualdades e vulnerabilidades. Nesse aspecto, revisitar experiências históricas que guardam atualidades com o que se passa atualmente com a atual pandemia de COVID-19, suas competições tecnológicas e narrativas, é de fundamental importância. 



REFERÊNCIAS


BIRN, Anne-Emanuelle; NECOCHEA, Lóples, Raúl (eds). Peripheral Nerve: health and medicine in Cold War Latin America, Duke University Press, 2020

BRANDS, Hal. Latin America’s Cold War, Harvard University Press, 2010

CAMPOS, André Luiz Vieira de. Políticas Internacionais de Saúde na Era Vargas: O Serviço Especial de Saúde Pública, 1942-1960, Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2006. 

CHASTAIN, Andra B., LOREK, Timothy W. Itineraries of Expertise – Science, Technology, and the Environment inLatin America’s Long Cold War, University of Pittsburgh Press, 2020.

CUETO, Marcos. Cold war, deadly fevers: malaria eradication in Mexico, 1955-1975. Washington, D.C. : Baltimore: Woodrow Wilson Center Press ; Johns Hopkins University Press, 2007. 

CUETO, Marcos.; BROWN, Theodore.; FEE, Elizabeth. The World Health Organization: A History. 1. ed. [s.l.] Cambridge University Press, 2019. 

ESCOBAR, Arturo. Encountering Development – The Making and Unmaking of the Third World. New Jersey: Princeton University Press, 1995

FARLEY, John. To cast out disease: a history of the International Health Division of the Rockefeller Foundation (1913-1951). Oxford ; New York: Oxford University Press, 2004. 

GILMAN, Nils. 2003. Mandarins of the Future: Modernization Theory in Cold War America. Vol. 53. Baltimore and London: John Hopkins University Press. 

HORTON, Richard. Offline: COVID-19 is not a pandemic. The Lancet, v. 19, n.1, p. 141-170, Setembro, 2020. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)32000-6/fulltext

LATHAM, Michael. 1998. Ideology, Social Science, and Destiny: Modernization and the Kennedy-Era Alliance for Progress. Diplomatic History, Vol. 22, n 2, p 199–229.

____. 2000. Modernization as Ideology. American Social Science and ‘Nation Building’ in the Kennedy Era. Chapel Hill and London: The University of North Carolina Press. 

LOUREIRO, Felipe. Aliança para poucos? Ajuda econômica norte-americana para estados brasileiros durante o governo João Goulart (1961-1964). Tese de Livre Docência – Universidade de São Paulo, 2017.

NUNES, João. Critical Security Studies and Global Health. In: NUNES, J. (Ed.). The Oxford Handbook of Global Health Politics. Oxford University Press, 2020. p. 160–177. 

PACKARD, Randall. Malaria Dreams: Postwar visions of health and development in the third world. Malaria Anthropology: Cross-Cultural Studies in Health and Illness. v. 17, n. 3, p. 279-296, 1997

___. A history of global health: interventions into the lives of other peoples. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2016. 

PACKENHAM, Robert A. Liberal America and the Third World. Political Development Ideas in Foreign Aid and Social Science. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1973.

TAFFET, Jeffrey. Foreign Aid as Foreign Policy. The Alliance for Progress in Latin America. New York and London: Routledge. 2007.

THE GUARDIAN. How the race for a Covid-19 vaccine is getting dirty. 20/08/2020. Disponível em: https://www.theguardian.com/society/2020/aug/30/how-the-race-for-a-covid-19-vaccine-got-dirty. Acesso em 10 de junho de 2021.

US DEPARTMENT OF HEALTH AND HUMAN SERVICES. 2020 Annual Report 2020. Available at https://www.hhs.gov/sites/default/files/2020-annual-report.pdf. Acesso em 16 de março de 2021.

WASHINGTON POST. U.S. officials pushed Brazil to reject Russia’s coronavirus vaccine, according to HHS report. 16/03/2021. Disponível em https://www.washingtonpost.com/world/2021/03/16/hhs-brazil-sputnik-russia/. Acesso em 10 de junho de 2021.

WESTAD, Odd Arne. The Global Cold War: Third World Interventions and the Making of Our times, Cambridge University Press, 2005.



[1] O tema da ‘corrida pela vacina’ foi abordado por diversos meios de comunicação. Ressalta-se aqui a matéria jornalística do The Guardian, disponível em https://www.theguardian.com/society/2020/aug/30/how-the-race-for-a-covid-19-vaccine-got-dirty. Para informações sobre o programa Covax, ver https://www.who.int/initiatives/act-accelerator/covax e https://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(20)30415-0/fulltext


[2] Essa rivalidade materializou-se em disputas nos campos militar, de ciência e tecnologia, da economia e o cultural. Nesse sentido, a cooperação técnica internacional constituiu instrumento de política externa importante, com impactos particularmente duradouros sobre o então chamado “Terceiro Mundo”. Para trabalhos sobre cooperação técnica e econômica durante a Guerra Fria, ver Loureiro (2017), Patterson (1973) e Taffet (2007). Para trabalhos específicos sobre Guerra Fria na América Latina ou sobre os impactos no “Terceiro Mundo”, ver Brands (2010) e Westad (2005).

[3] Entre os países que também se retiraram da OMS nessa ocasião estavam a Albânia, a Bulgária, a antiga Tchecoslováquia, China, Hungria e Polônia. A República Popular da China somente entrou na OMS em 1973. Ver Cueto; Brown; Fee (2019)


[4] A Teoria da Modernização surgiu a partir de uma série de estudos independentes, publicados em 1957, acerca das políticas de ajuda externa dos Estados Unidos. Foram os trabalhos de dois pesquisadores do Massachussets Institute of Technology (MIT), Max F. Milikan e Walt W. Rostow, que lançaram algumas das principais ideias que embasaram a Teoria da Modernização. Para mais informações sobre essa abordagem, ver Loureiro (2017, p. 40-42, 48-50). Mais discussões sobre Teoria da Modernização estão presentes em Nils Gilman (2003), Latham (1998 e 2000) e Taffet (2007, cap. 1).


[5] Exemplos desses programas são o Plano Marshall (1948), voltado para a reconstrução europeia no pós-2ª Guerra Mundial, e o programa do Ponto Quatro (1949), que, mais modesto em termos financeiros, previa cooperação técnica com países do Terceiro Mundo. No governo do presidente John F. Kennedy (1961-1963), os norte-americanos lançariam ainda a Aliança para o Progresso, programa de cooperação socioeconômica especificamente voltado para a América Latina. Para abordagem abrangente sobre programas de cooperação e ajuda externa dos EUA, ver Packenham (1973). 


[6] O tema teve grande repercussão na imprensa, tendo sido noticiado à época pelos jornais Washington Post e pela plataforma de notícias Brazil Wire. As reportagens estão disponíveis em: https://www.washingtonpost.com/world/2021/03/16/hhs-brazil-sputnik-russia/ e https://www.brasilwire.com/exclusive-washington-pressured-brazil-not-to-buy-malign-russian-vaccine/ (Acesso em 10 de junho de 2021).



Nathalia Candido Stutz Gomes é pesquisadora na área de Relações Internacionais na Universidade de São Paulo. Graduada na PUC-SP e Mestre em Relações Internacionais pelo programa de pós-graduação do IRI - USP com bolsa CAPES (dedicação integral). É atualmente Doutoranda no mesmo programa, integrante do Laboratório de Estudos sobre o Brasil e o Sistema Mundial (Labmundi) e foi bolsista do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU). Tem interesse nos temas de História das relações internacionais do Brasil, História das relações Brasil-EUA (especialmente durante a Guerra Fria), política externa brasileira e cooperação internacional na área da saúde pública.