17 de outubro de 2018

Bolsonaro e o colapso da democracia brasileira

Renato Martins, presidente do Fórum Universitário Mercosul – FoMerco

Fonte: Carta Maior


O mundo acompanha com preocupação a ascensão da extrema direita no Brasil. O capitão Jair Messias Bolsonaro, um militar defensor da ditadura, teve 46% dos votos no primeiro turno das eleições de 2018 e está a um passo de se tornar o oitavo presidente da Nova República. Nos anos pós-autoritários, somente quatro presidentes foram eleitos pelo voto popular; dois não concluíram o mandado e o atual é considerado o mais impopular da história do país. Apesar disso, os últimos trinta anos foram o período de maior estabilidade política nacional. A vitória de Bolsonaro representaria certamente o fim desse ciclo, com a consequente abertura de uma nova etapa de autoritarismo, baseado numa mescla de militarismo, fundamentalismo religioso e ultraliberalismo.

Com efeito, o pacto iniciado com a Constituição de 1988 se esgotou com o golpe contra Dilma, em 2016. Desde então o Brasil convive com situações de exceção. O consenso estabelecido pela Carta de 88 em torno da democracia, do desenvolvimento econômico e da justiça social se rompeu com o golpe parlamentar. A partir de então estes valores deixaram de ser os princípios norteadores da República. Em parte, isto explica a ascensão do obscuro capitão à condição de líder nas pesquisas eleitorais. Os principais institutos lhe dão ampla vantagem em relação a Fernando Haddad, o candidato do PT que contou com o apoio de Lula para chegar ao segundo turno. 

Bolsonaro se declara abertamente defensor da ditadura e da tortura. Sua campanha está baseada na mentira, na violência e no ódio. Se eleito promete “armar a população”, “extirpar da rede publica de ensino a ideologia de Paulo Freire” e “criminalizar os movimentos sociais”. Estas são apenas algumas de suas bandeiras, todas recheadas de ódio contra negros, favelados, homossexuais, indígenas e quilombolas. Não surpreende que uma onda de violência tenha tomado conta do país nas duas últimas semanas. Em Porto Alegre, três homens imobilizaram e tatuaram no corpo de uma mulher o símbolo do nazismo. Em Salvador da Bahia, um mestre de capoeira foi morto a facadas por apoiadores de Bolsonaro depois de declarar o voto em Fernando Haddad. 

Tudo indica que está em gestação no Brasil uma nova modalidade de autoritarismo, o que não deixa de ser uma má noticia para toda América Latina. Como se chegou a isso? Nos últimos trinta anos a polarização política no Brasil se deu entre os defensores do estado social e os defensores do mercado. Ambos respeitavam o jogo democrático das incertezas. A partir de 2014, quando o PSDB não aceitou a derrota para a Dilma, a democracia começou a colapsar. Depois veio o golpe, a prisão de Lula e chegamos ao ponto que nos encontramos agora. Tudo isso com o inestimável apoio da Lava Jato, que não foi criada somente para combater a corrupção, mas principalmente para conter o avanço das esquerdas, nem que para isso fosse preciso atropelar a Constituição e a própria democracia. Daqui para frente, a polarização política será entre democracia e autoritarismo novamente. 

As pessoas estão como medo de sair à rua por serem negras, ou pobres, ou gays. Neste ambiente crispado pela intolerância, se fortalecem os indícios de que setores das Forças Armadas trabalham na formulação de uma nova utopia autoritária, e o que é pior: realimentam um projeto de poder. Muitos militares e policiais se apresentaram e foram eleitos para o Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas Estaduais. Desde a transição, o horizonte liberalizante dos militares brasileiros foi o de uma democracia restringida, protegida das incertezas democráticas. Eles nunca imaginaram sair definitivamente de cena, conforme a Constituição de 1988 acabou determinando. Os avanços dos governos de esquerda, apesar de moderadíssimos, passaram do limite aos olhos dos conservadores civis ou militares. Enquanto garantiam a paz social, as agendas da inclusão social e da participação política foram aceitas a contragosto. Com a crise econômica e a instabilidade política agravadas pelo golpe de 2016, elas se tornaram intoleráveis. 

Bolsonaro veio para extirpá-las. Para quem é de fora do país e ouviu falar de seu nome pela primeira vez, Jair Messias Bolsonaro é oficial da reserva do exército e iniciou a carreira militar em 1971, no auge da “guerra contra o terrorismo”. Ele considera a tortura uma coisa normal. Arrepende-se de que a ditadura, em vez de apenas torturar os opositores do regime, não tenha eliminado “uns trinta mil” deles, para livrar definitivamente o país do comunismo. Sua eventual vitória significaria a repetição da história. Em tom de ameaça, ele já declarou que se for eleito vai “acabar com os ativismos”, ou seja, trinta mil brasileiros que não foram eliminados pelo golpe de 64, correm agora o risco de desaparecer numa eventual eleição do capitão. 

É pouco provável que este obscuro capitão venha a ser ele próprio o condottiere da contrarrevolução brasileira. Por trás dele se encontram os verdadeiros estrategistas da reação: são os novos intelectuais de direita, os fundamentalistas religiosos e os militares golpistas, sem falar dos colaboradores estrangeiros e suas agências de inteligência, que no devido tempo mostrarão a cara. Com seu discurso belicista, Bolsonaro angariou o apoio de amplos setores sociais, desde as elites econômicas e empresarias, às classes médias e populares, desesperadas com a crise econômica, a violência e o desemprego. Seu programa de governo tende a ser uma miscelânea de políticas conservadoras, economicamente liberais (privatizações etc), politicamente autoritárias (perseguição aos movimentos sociais e partidos de esquerda) e socialmente regressivas (fim do que restou dos programas sociais). 

Além dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais, as universidades estão fortemente ameaçadas. Professores e pesquisadores das instituições de ensino superior, grande parte delas criadas nos governos progressistas, também correm o risco de serem perseguidos, assim como já acontece com militantes dos movimentos sociais. No caso de eventual vitória de Bolsonaro, esses movimentos serão criminalizados e enquadrados como terroristas. Universidades serão fechadas e recursos para a educação, a cultura, a ciência e a tecnologia serão drasticamente cortados. Na prática isto significa que o ajuste fiscal do governo Temer, projetado para durar 20 anos, poderá se aprofundar ainda mais. 

Por tudo isso (e muito mais), o momento é tão grave. Não é somente o futuro do Brasil que está em jogo. Os democratas precisam se unir e até o dia 28 de outubro, quando acontecerá o segundo turno, manifestar o seu repúdio à volta do autoritarismo. A disputa agora não é mais partidária. Agora é entre civilização e barbárie. Que todos sejam solidários com a democracia. O povo brasileiro agradece. 

Publicado originalmente no site do FoMerco - www.fomerco.com.br

15 de outubro de 2018

A relação triangular entre os Estados Unidos, a China e Taiwan após a eleição de Tsai Ing Wen em 2016

Caroline Rocha Travassos Colbert
Publicado originalmente no Boletim nº 7 do Laboratório de Estudos Asiáticos (LEA-UFRJ)

Office of the President, Republic of China (Taiwan) | Government Website Open Information Announcement

As eleições taiwanesas de 2016 foram marcadas pela vitória do Partido Democrático Progressista (PDP) sobre o habitual vencedor, o Kuomintang (KMT). A população taiwanesa reivindicava, desde o governo de Ma Ying-jeou (2008-2016), reformas econômicas, sociais e educacionais [1] (CHAN; GAN, 2016), as quais, associadas à manutenção do status quoda ilha se tornaram táticas de campanha de Tsai Ing-wen (PDP), o que aumentou sua popularidade diante da concorrente à presidência Hung Hsiu-chu (KMT) (YU, 2017). Os taiwaneses não desejam a unificação e muito menos a independência do país, tendendo a apoiar candidatos favoráveis a manter as relações estáveis com Pequim. Foi nessa perspectiva que Tsai, mesmo concorrendo nas eleições através de um partido pró-independência, conseguiu obter sucesso:
A mudança de posicionamento de Tsai em direção à manutenção do status quo, em vez de se aliar à posição pró-independência do PDP, pode ser vista como fundamental para sua vitória. No entanto, esse movimento sinalizou claramente sua atitude cautelosa em relação à questão da unificação versusindependência. Por um lado, Tsai optou por apoiar a maioria dos eleitores de Taiwan ao privar o PDP de buscar a independência de Taiwan e, por conseguinte, tentar evitar um confronto no Estreito de Taiwan caso vencesse a eleição presidencial. A defesa do status quopor Tsai é especialmente importante, porque uma das candidatas à presidência do KMT em 2016, Hung Hsiu-chu, propôs uma conduta de “one China, same interpretation” como seu lema de campanha. A atitude de Hung não só foi de encontro à posição original do KMT de “one China, respective interpretations”,habilmente projetada sob o governo Ma, como também ofereceu ao PDP uma oportunidade vil, mas efetiva, de denunciar a proximidade de laços entre o KMT e o governo de Pequim. Por outro lado, o movimento de Tsai também se mostrou um gesto amigável ao governo de Pequim, passando a mensagem de que as relações entre os dois lados permaneceriam intactas assim que o PDP vencesse a eleição presidencial e de Pequim não precisava se preocupar com a independênciade jure sob o novo governo PDP (YU, 2017, tradução própria).

Os laços estáveis do Kuomintang com Pequim vêm do reconhecimento do Consenso de 1992 [2]. Ainda que Tsai se negue a aceitar o Consenso, afirma que manterá o status quo, do qual o acordo é parte integrante (WONG; WU; WANG, 2016). É nesse quadro político que a presença dos Estados Unidos na região e as retaliações de Pequim à ilha tem se intensificado. 

A relação entre os Estados Unidos e Taiwan está baseada nos Três Comunicados Conjuntos (Three Joint Communiqués) e nas Seis Garantias (Six Assurances) de Reagan. Em 1979, Jimmy Carter havia aprovado o Taiwan Relations Act(TRA), posteriormente incluído nos comunicados,que fornece as bases legais para o relacionamento não oficial entre os dois países e consagra o compromisso de Washington de ajudar Taiwan a manter a sua capacidade de autodefesa (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, 2018). Tendo em vista o apoio norte-americano no caso de alguma retaliação vinda de Pequim, a presidente Tsai tem estreitado relações com o governo Trump, o que lhe rendeu o Taiwan Travel Act, no início de 2018. Resumidamente, a lei encoraja visitas entre oficiais dos EUA e de Taiwan em todos os níveis. 

A reinauguração do American Institute in Taiwan (AIT) [3], em Taipé, não foi a única movimentação recente feita pelos Estados Unidos na ilha. Além da renovação de 250 milhões de dólares do Instituto, em julho deste ano, a secretária adjunta de Estado para assuntos educacionais e culturais, Marie Royce, visitou Taiwan para formalizar a parceria entre os dois países. Em 2017, a administração Trump já havia, ademais, enviado armamento para Taiwan e retomado as visitas da Marinha dos Estados Unidos aos portos da ilha (BRUNNSTROM; MOHAMMED, 2017), coincidindo com o aumento contínuo das tensões econômicas e militares entre a China continental e os Estados Unidos no Estreito de Taiwan e no Mar do Sul da China nos últimos meses (YANG, 2018). Pequim tem aumentado a pressão sobre Taiwan e realizado vários exercícios militares nas proximidades da ilha, como no início de junho, quando foi realizada uma atividade militar durante seis dias para simular um ataque real a Taipé. Essa simulação também foi um alerta aos Estados Unidos, visto que navios de guerra norte-americanos foram avistados no Estreito no início de junho (HUANG, 2018).

A negação do Consenso de 1992 e a reaproximação com os Estados Unidos pelo governo de Tsai têm levado Pequim a boicotar as relações internacionais de Taipé desde 2016, sendo claros os exemplos para além dos exercícios militares. Taiwan tem sido barrada de participar das reuniões de organizações internacionais, como a Organização Mundial de Saúde (OMS) e sofrido uma caça furtiva aos seus aliados diplomáticos.

Além do bloqueio da participação de Taipé na reunião anual da OMS, o Secretariado da instituição também pressionou a Federação Internacional de Associações de Estudantes de Medicina (IFMSA), a Associação Médica Mundial e outras organizações não governamentais internacionais a solicitarem aos membros taiwaneses que mudem seu nome de filiação de “Taiwan” para “Taiwan, China”. Caso as associações não respondessem positivamente, as relações oficiais seriam suspendidas (LIN, 2018). Por outro lado, a República Popular da China (RPC) tem sido acusada por Taipé de exercer uma “diplomacia do dólar” para atrair economicamente os seus poucos aliados (THE GUARDIAN, 2018). Sabe-se que Pequim tem oferecido grandes investimentos aos países que deixam de reconhecer Taiwan, a qual, por sua vez, também busca oferecer vantagens aos países com quem mantêm relações diplomáticas [4].

Desde 2016, 5 países passaram a reconhecer Pequim como a capital oficial da China, [5] sendo eles São Tomé e Príncipe (2016), Panamá (2017), República Dominicana, Burkina Faso1 e El Salvador (2018). Assim, hoje Taiwan detém apenas 17 aliados diplomáticos:9 na América Latina e no Caribe, 1 na África, 6 pequenos Esta-dos insulares no Pacífico e o Vaticano, evidenciando a ação ativa da RPC para minar as relações exteriores de Taiwan.

A relação triangular entre a RPC, os Estados Unidos e Taiwan está fundamentada nos interesses geoestratégicos na região. Taiwan possui uma localização geoestratégica vital para a China continental, uma vez que a ilha poderia ser usada por uma potência estrangeira – como já acontecera em 1661, no conflito com os europeus pelo controle da Ilha de Formosa, e, em 1895, na Guerra Sino-Japonesa. A retomada de Taiwan é uma questão imprescindível à RPC para tentar frustrar a estratégia de contenção dos Estados Unidos e deixar Pequim em uma posição mais privilegiada para manter o domínio estratégico no Mar do Sul da China, por onde transitam as importações e exportações chinesas, e ameaçar o espaço japonês, no caso de algum conflito no Mar da China Oriental. Para Washington, Taiwan enceta a possibilidade de equipar as suas capacidades aéreas através de bases e apoio aliado na região conhecida como a primeira cadeia de ilhas – que abrange Japão, Taiwan, Filipinas e Indonésia –, representando uma ameaça ao bloqueio marítimo ofensivo da China (ORCHARD, 2018).

Por fim, os Estados Unidos possuem diversos embasamentos jurídicos para legitimar a venda de armas e a manutenção de relações não oficiais com Taipé, entre eles a ambiguidade presente no One China Policy [6] e o Third Joint Communiqué, de 17 de agosto de 1982, que não prevê nenhuma delimitação precisa sobre o fim da venda de armas para a ilha. Em On China, Kissinger (2011) afirma que, além dessas leis, as Seis Garantias foram secretamente negociadas por Reagan justamente para haver que houvesse essa ambiguidade e imprecisão. As seis garantias significam que os EUA:

“(1) não concordou em definir uma data para dar fim à provisão de armas à República da China (RC); (2) não concordou em realizar consultas précias com a China Comunista a respeito da venda de armas para a RC; (3) não desempenhará papel de mediação entre Taipé e Pequim; (4) não concordou em revisar o TRA; (5) não alterou sua posição em relação à soberanía de Taiwan; e (6) não exercerá pressão sobre a RC para entrar em negociações com a RPC” (TSAI, 2015, p. 200, tradução própria).
Em suma, os Estados Unidos continuarão interferindo em Taiwan e a China continuará afirmando o One China Principlea favor dos seus interesses. As relações entre essas grandes potências são historicamente conflitivas no que concerne à ilha taiwanesa, estando entre as hostilidades as três crises do Estreito de Taiwan, de 1954-1955, de 1958 e de 1995-1996. Em todas os EUA interviram a favor da manutenção do status quoe contra qualquer iniciativa da RPC e de Taiwan de mudarem esse status. Vale lembrar, ainda, que a administração Bush filho interferiu diretamente quando o então presidente taiwanês, Chen Shui-bian, tentou promover um referendo – favorecido por aqueles que apoiavam a independência da ilha – para demandar à RPC que retirasse seus mísseis balísticos apontados para Taiwan [7]. Os Estados Unidos não têm nenhum desejo em uma independência de jurede Taiwan em relação à China continental, portanto a manutenção do status quo é desejável para ambos. Tendo em vista a atual condição da ilha, essa tende a continuar com divisões internas entre aqueles que defendem a independência, a unificação e o status quo, e qualquer demonstração do governo taiwanês contrária à RPC pode desencadear novas tensões entre Taipé, Pequim e Washington.


Referências: 

BRUNNSTROM, David;MOHAMMED, Arshad. U.S. plans to sell Taiwan about $1.42 billion in arms. Reuters, 2017. Disponível em: <https://www.reuters.com/article/us-usa-taiwan-arms-idUSKBN19K2XO>. Último acesso em: 26 de julho de 2018. 

CHAN, Gloria; GAN, Nectar. Four key reasons Kuomintang lost the Taiwan election. South China Morning Post, 2016. Disponível em: <https://www.scmp.com/news/china/policies-politics/article/1901897/four-key-reasons-kuomintang-lost-taiwan-election>. Último acesso em: 23 de julho de 2018.

China accused of ‘dollar diplomacy’ as Taiwan loses second ally in a month. The Guardian, 2018. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2018/may/24/taiwan-criticises-china-after-burkina-faso-ends-diplomatic-relations>. Último acesso em: 23 de julho de 2018.

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. American Institute in Taiwan. U.S.-Taiwan Relations. Disponível em: <https://www.ait.org.tw/our-relationship/policy-history/us-taiwan-relations/>.Último acesso em: 23 de julho de 2018.

HUANG, Kristin. Beijing launches live-fire drill to ‘test combat strength against Taiwan’. South China Morning Post, 2018. Disponível em: <https://www.scmp.com/news/china/diplomacy-defence/article/2155868/beijing-launches-live-fire-drill-test-combat-strength>.Último acesso em: 23 de julho de 2018.

KISSINGER, Henry. On China. Londres: The Penguin Press. 2011.

KNOWLTON, Brian. Bush warns Taiwan to keep status quo: China welcomes U.S. stance. The New York Times, 2003. Disponível em: <https://www.nytimes.com/2003/12/10/news/bush-warns-taiwan-to-keep-status-quo-china-welcomes-us-stance.html>. Último acesso em 26 de julho de 2018.

LIN, Shih-Chia. Including Taiwan Should Not Be a Troubling Issue for the WHO. The Diplomat, 2018. Disponível em: <https://thediplomat.com/2018/04/including-taiwan-should-not-be-a-troubling-issue-for-the-who/>. Último acesso em 23 de julho de 2018.

MCKENZIE, David; SWAILS, Brent. The kingdom that China just can't flip. CNN, 2018. Disponível em: <https://edition.cnn.com/2018/06/08/africa/china-taiwan-swaziland-intl/index.html>.Último acesso em: 26 de julho de 2018.

ORCHARD, Phillip. The US and China Get Real About Taiwan. Geopolitical Futures, 2018. Disponível em: <https://geopoliticalfutures.com/the-us-and-china-get-real-about-taiwan/>. Último acesso em: 23 de julho de 2018.

TSAI, Shih-shan Henry. Maritime Taiwan: Historical Encounters with the East and the West. Nova Iorque: Routledge, 2015.

WONG, Yeni; WU, Ho-I; WANG, Kent. Tsai's Refusal to Affirm the 1992 Consensus Spells Trouble for Taiwan. The Diplomat, 2016. Disponível em: <https://thediplomat.com/2016/08/tsais-refusal-to-affirm-the-1992-consensus-spells-trouble-for-taiwan/>.Último acesso em: 23 de julho de 2018.

YANG, William. US de facto embassy in Taiwan reopens as ‘symbol of strength’ of ties. The Guardian, 2018. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2018/jun/12/us-de-facto-embassy-in-taiwan-reopens-as-symbol-of-strength-of-ties>.Último acesso em: 23 de julho de 2018. 

YU, Ching-hsin. The centrality of maintaining the status quo in Taiwan elections. Brookings, 2017. Disponível em: <https://www.brookings.edu/opinions/the-centrality-of-maintaining-the-status-quo-in-taiwan-elections/>. Último acesso em: 23 de julho de 2018.



* A autora gostaria de agradecer ao colega de mestrado Ben Lian Deng a leitura, a rigorosa correção e os generosos comentários.

[1] Segundo o South China Morning Post, a derrota do Kuomintang revela um conjunto de descontentamentos referentes à política de Ma Ying-jeou, entre eles: a estagnação econômica pós-crise de 2008; a tentativa do KMT de aprovar o Cross-Strait Service Trade Agreement, ao qual a população era majoritariamente contrária, já que deixaria a ilha vulnerável às pressões políticas de Pequim; a luta por poder dentro do partido; e, por fim, o anseio por reformas educacionais e reajustes nos valores dos combustíveis e da eletricidade (CHAN; GAN, 2016).

[2] O Consenso de 1992 é um acordo extremamente ambíguo, que diz apenas que Taiwan e o Continente pertencem a “uma só China”, sem definir qual seria a China única. A frase mais conhecida do ex-presidente Ma, “One China Constitution; one China, different interpretations; no immediate reunification, no independence, and no use of force”, foi proferida durante a sua cerimônia de posse, em 2008, e renovada em 2012. O ex-chefe de Estado definia as relações do seu governo com a República Popular da China (RPC) como “peaceful, mutually beneficial cross-strait economic and trade exchanges”. Ambas não são definições do Consenso de 1992, mas sim politicas desenvolvidas a partir do mesmo, sendo o mote “one China, different interpretations” a interpretação do Kuomintang em relação ao acordo. 

[3] Embora o AIT não seja uma embaixada oficial, sendo descrita como uma instituição, sem fins lucrativos, criada pelo governo dos Estados Unidos para representar seus interesses em Taiwan, o mesmo é considerado a embaixada de factode Washington em Taipé. O instituto não havia sido fechado, tendo apenas mudado de localização (YANG, 2018).

[4] Como no caso do Reino da Suazilândia, em que hospitais, escolas e orfanatos foram construídos como forma de estreitar o relacionamento entre os dois países. Apesar da assistência econômica, a oposição suazi alega que o rei utiliza boa parte desse auxílio para benefício próprio (MCKENZIE; SWAILS, 2018). Taiwan consegue manter laços com esses países pequenos ou ilhas, ao passo que nações maiores escolhem manter relações diplomáticas com a China, tendo em vista diversas oportunidades de cooperação e investimentos bilaterais. 

[5]O isolamento diplomático da República da China (RC), isto é, de Taiwan é um dos objetivos principais de Pequim desde a década de 1970 – sendo perseguido com maior afinco no governo do atual presidente da RPC, Xi Jinping – e da chamada One China Principle. Esse princípio parte da ideia de que existe apenas uma China, a Continental, com capital em Pequim, e que Taiwan, Hong Kong, Tibete e afins são partes inalienáveis da mesma. O país que reconhecer formalmente a RPC deve acatar esse princípio para poder manter relações comerciais e diplomáticas com Pequim. Cabe lembrar que a China continental e Taiwan foram separadas ao final da guerra civil de 1949, quando o governo nacionalista (Kuomintang) fugiu para a ilha. Nesse sentido, Pequim procura impedir o reconhecimento diplomático daquela que considera uma província renegada.

[6] A One China Policy e aOne China Principle são políticas diferentes. A One China Policyfoi adotada em 1979 pelos Estados Unidos em que reconhecem que a RP China é o único governo legal de toda a China, entretanto nunca explicitou que reconhece a soberania chinesa sobre Taiwan. Já na One China Principle, Taiwan é um território inalienável da China Continental. Os Estados Unidos reconhecem apenas a One China Policy,o que justifica suas interferências e seu compromisso de defender Taiwan em caso de agressão chinesa.

[7] Bush afirmou, em dezembro de 2003, durante visita oficial do primeiro ministro chinês aos Estados Unidos que Washington se opõe “a qualquer decisão unilateral da China ou de Taiwan de mudar o status quo” e que, à época, os comentários e ações do líder taiwanês indicavam que ele poderia estar disposto a tomar a alterar o status quo (KNOWLTON, 2003).





Caroline Colbert é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Pesquisadora do Laboratório de Simulações e Cenários da Escola de Guerra Naval.

24 de setembro de 2018

Observatório de Regionalismo | Dossiê Política Externa e Regionalismo nas Eleições 2018

Divulgação



Por ocasião das atuais eleições presidenciais no Brasil, o Observatório de Regionalismo apresenta em sua edição especial o Dossiê Política Externa e Regionalismo: os programas dos presidenciáveis nas eleições 2018, uma publicação exclusiva que tem o objetivo de analisar o modo como a política externa e o regionalismo estão inseridos nos programas das principais candidaturas.

Por meio dessa iniciativa coletiva, o Observatório de Regionalismo acredita instigar a reflexão sobre temas de política externa e regionalismo e, assim, contribuir para o debate de ideias ainda mais necessário em períodos eleitorais. O dossiê resulta, portanto, na geração de um conteúdo informativo de interesse a docentes, discentes, e profissionais de relações internacionais, bem como os que buscam se informar sobre o tópico em geral.

A produção é fruto da colaboração de diversos pesquisadores membros do Observatório de Regionalismo, dentre organizadores, autores, revisores e editor gráfico, e contou com apoio inestimável do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – UNICAMP – PUC-SP) e da Rede de Pesquisa em Política Externa e Regionalismo (REPRI).

Para acessar a versão em português, basta clicar aqui.


O que é o Observatório de Regionalismo?

O Observatório de Regionalismo foi criado por alunos do Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais “San Tiago Dantas” (Unesp/ Unicamp/ PUC-SP), sob a coordenação da Profa. Dra. Karina L. P. Mariano como um espaço de investigação e diálogo entre pesquisadores e o objetivo de fomentar o debate sobre iniciativas regionais de integração e cooperação. Nossos trabalhos se encontram vinculados à Rede de Pesquisa em Política Externa e Regionalismo (REPRI), grupo formado por pesquisadores, professores e alunos de pós-graduação e graduação de diferentes Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa, como a UFU, UNIFESP, UNESP, UNB, UFGD, IPE; e cujos estudos e pesquisas buscam, a partir de objetos e perspectivas teóricas e metodológicas diversas, compreender as motivações e os determinantes da política externa dos Estados e dos processos de regionalismo e multilateralismo.
Inicialmente funcionando como grupo de estudos e pesquisa com maior foco nos processos vigentes nas Américas, o Observatório pretende trabalhar também as demais regiões do mundo, como Europa, África e Ásia, e fazer uso da metodologia do regionalismo comparado. Em nosso site, compartilhamos semanalmente artigos breves acerca dos temas de estudo, considerando sua relevância e atualidade. Além disso, nossos projetos futuros contemplam a criação de uma cronologia de tratados e marcos temporais de regionalismo e integração (em construção), bem como a realização de conferências e palestras, clippings de notícias, dentre outros.

3 de setembro de 2018

A nova corrida espacial: o céu é a nossa vizinhança

Por Ana Carolina Aguiar Simões Castilho

Pixabay


Em 17 de julho de 1975, algo inédito acontecia na órbita da Terra, uma acoplagem entre a nave estadunidense Apollo 18 e a nave soviética Soyuz 19. Concretizava-se a missão Apollo-Soyuz. O “aperto de mão orbital” se deu não só entre as naves, mas também entre seus tripulantes. Astronauta e cosmonauta[1]trocaram abraços, bandeiras, certificados, medalhas comemorativas e ainda sementes de árvores para serem plantadas em seus respectivos países, — vale ressaltar ainda que a comunicação se deu através da língua do outro. Esse evento marcou não só um grande avanço tecnológico, dado a dificuldade da docagem, até mesmo porque nenhuma das duas naves tinha sido projetada especificamente para isso, mas também simbolizou uma diminuição das tensões da Guerra Fria e uma mudança nas diretrizes da exploração espacial, a competição deu lugar à cooperação.

Apesar das tensões terem reascendido no final da década de 70, com o surgimento de projetos como o Guerra nas Estrelas[2], com o fim da Guerra Fria, intensificou-se a ideia de colaboração internacional para a exploração do espaço. Somando-se a isso a vontade de conseguir uma presença permanente no espaço, levou-se ao desenvolvimento da Estação Espacial Internacional (EEI), com participação da Rússia, Estados Unidos, Japão, Canadá e Agência Espacial Européia[3]. No entanto, de lá pra cá alguns acontecimentos parecem ter perturbado essa atmosfera cooperativa.