16 de abril de 2018

Desemprego na França


Reportagem sobre desemprego na França, publicada no periódico "O Estado RJ", com a participação do professor Luiz Felipe Brandão Osório.


Por Fabio Terre do "O Estado RJ", de 15 de abril de 2018

França: “O desemprego deixa de ser conjuntural, para ser estrutural”, diz especialista
Greve no setor ferroviário da França deve durar 36 dias. O projeto reformista do governo deve eliminar 120 mil dos quase 5 milhões e meio de postos de trabalho em todo o setor público

O setor ferroviário francês entrou em greve  no começo deste mês contra as reformas trabalhistas do governo do presidente Emmanuel Macron. O protesto está programado para durar 36 dias, com alternância de 2 dias de paralisação para cada 5 de funcionamento. Os trabalhadores não querem a transformação da empresa SNCF (Sociedade Nacional de Ferrovias Francesa) em sociedade anônima e nem o fim do estatuto cherminot, que proporciona uma série de benefícios para os funcionários.

A SNCF é uma das principais empresas públicas da França e tem um prejuízo anual de 3 bilhões e já acumula uma dívida total de quase 47 bilhões. Macron quer dar mais eficiência à ela e eliminar “privilégios” de novos funcionários, como o emprego vitalício, a aposentadoria a partir dos 52 anos e viagens de trem grátis ou mais baratas. Em 2020, as regras de liberalização da União Europeia encerrarão o monopólio da empresa e a abrirão à concorrência, o que já cria a necessidade imediata de adaptação. O presidente francês  tem maioria política e também o apoio de maior parte da população.

Mas, por outro lado, o projeto reformista do governo quer eliminar 120 mil dos quase 5 milhões e meio de postos de trabalho em todo o setor público e também estabelecer um plano de demissões voluntárias, por meio da flexibilização do estatuto dos funcionários públicos, a fim de reduzir o déficit orçamentário do país.

Crise leva para o enquadramento da classe trabalhadora

Os trabalhadores ferroviários tomam os “privilégios”, como direitos adquiridos após anos de luta sindical e Guillaume Pepy, diretor geral da SNCF, afirmou que à rádio RMC, que “o custo da greve é de quase 20 milhões de euros por dia”. A paralisação está prevista para durar até maio e não há sinais de quem vencerá esta queda de braço.

O Brasil também passou pela sua reforma trabalhista e pelos protestos opositores que a acompanham. Ambas as reformas são de caráter neoliberal, conforme afirma Luiz Felipe Osório, professor e coordenador da graduação de relações internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de janeiro (UFRRJ). Segundo o professor, a principal semelhança entre elas é que “se inserirem no contexto mais amplo de crise de acumulação no capitalismo mundial”. “O capitalismo é essencialmente crise”, prossegue ele, “e os momentos de estabilidade são suas exceções pontuais”.

“Assim, em alguns períodos a crise se acentua e a saída buscada caminha sempre no enquadramento da classe trabalhadora via desconstituição de direitos e garantias, o que é essencialmente uma maneira de diminuir o preço da força de trabalho e os custos dos capitalistas”, afirma Osório. O professor cita ainda como consequência dessa política, a privatização de empresas estatais, esvaziamento da luta sindical, a abertura das economias aos capitais estrangeiros, as modificações rumo a privatização na previdência, nas relações de trabalho e nos direitos sociais como um todo, e o redirecionamento da intervenção estatal para outras áreas que não as sociais.

Charles Pennaforte, professor de relações internacionais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e diretor-geral do CENEGRI (Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais) afirma que a ideia neoliberal de que o estado é uma empresa não faz sentido e o que se vê é a tentativa de privilegiar o setor financeiro. Exemplifica que no Brasil há teses e relatórios do próprio senado, que concluem que a “previdência brasileira não dá prejuízo”. Mas, o professor alerta que a sua reforma beneficiaria o setor privado de previdência.

A taxa de desemprego na França é alta, embora Macron tenha conseguido diminuí-la, mas Pennaforte afirma que as economias no velho mundo nunca vão conseguir gerar emprego em larga escala e crescer 5%, 6% ou 7%, como a China cresce hoje, porque sua economia já está totalmente organizada, a população já se estabeleceu e tem taxa de crescimento negativo, além da crescente robotização do trabalho. “O desemprego deixa de ser conjuntural, para ser estrutural”, afirma ele.

Tanto o professor Luiz Felipe Osório, quanto o professor Charles, concordam que os movimentos sociais na França são mais fortes do que no Brasil e podem atenuar as medidas do governo francês com relação à SNCF. “A História francesa é toda baseada encima dessa luta pelos direitos humanos”, diz o especialista do Rio Grande do Sul. O coordenador da UFRRJ complementa dizendo que o modelo de bem-estar social conseguiu enraizar-se mais na França do que no Brasil, porque neste as garantias são frágeis e poucas, mais fáceis de serem solapadas, o que reflete também na organização do trabalho e das lutas. Mas conclui atribuindo a maior força dos movimento estrangeiro “à vários motivos históricos e estruturais das relações internacionais, como a posição dentro da divisão internacional, que tem o Brasil na periferia e a França no centro”.

9 de abril de 2018

A caverna da esquerda

Por Bernardo Salgado Rodrigues



Das obras do filósofo grego Platão, a passagem mais conhecida encontra-se no Livro VII de "A República" (PLATÃO, 2008), conhecida como o "mito da caverna". Esta narra a história de um conjunto de prisioneiros que foram acorrentados e presos em uma caverna desde sua infância. Na sua visão cotidiana, está somente a parede da caverna com sombras oriundas dos efeitos da luz, que penetram no local devido a existência de uma fogueira, cujas sombras indicam apenas parte das formas, mas nunca uma pessoa ou figura completa. Na continuação, um desses prisioneiros se livra das correntes e caminha à saída da caverna, ainda que com muito esforço, dado a adaptação de seu corpo e a subida íngreme. Ao sair da caverna, a luz forte do sol faz seus olhos doerem, mas, aos poucos, se adapta e descobre um novo mundo até então desconhecido, a verdade. De pronto, resolve voltar à caverna, libertar seus antigos companheiros de prisão e contar tudo que havia visto. Entretanto, os presos que se encontravam na caverna, devido à sua realidade, reféns dos seus hábitos e cotidiano, não aceitam suas argumentações, interditam um diálogo e acusam-no de louco, não descobrindo o mundo verdadeiro.

2 de abril de 2018

A Crimeia e o mapa meteorológico da TV ucraniana: o poder simbólico dos mapas

Por Larissa Rosevics


Do site da BBC, reproduzido da UA TV


No início do mês de março de 2018, uma simples previsão do tempo no telejornal da UA (National Public Broadcasting Company of Ukraine), o canal de televisão público da Ucrânia, causou debate nas redes sociais. Durante a transmissão ao vivo do telejornal nacional, a imagem do mapa da Ucrânia que se via atrás da repórter do tempo excluía a região da Crimeia da divisão política do país. No mesmo dia, o canal de televisão privado ucraniano STB também utilizou a imagem do mapa da Ucrânia sem a Crimeia em seu telejornal. E tudo isso aconteceu às vésperas das eleições presidenciais na Rússia, na qual Vladmir Putin concorreu como franco favorito.

A Crimeia é uma península que fica ao sul da Ucrânia, em uma região estratégica no mar Negro. Por conta da posição que ocupa, ela já foi povoada por diferentes grupos ao longo da história, como gregos, romanos e otomanos. Com a expansão do império russo no século XVIII, a região tornou-se parte do império e importante base naval, despertando a atenção das demais potências europeias. A Guerra da Crimeia (1853-1856) entre a Rússia e a coalizão da França, Inglaterra, Sardenha e o Império Otomano teve como objetivo frear o ímpeto expansionista russo e garantir, assim, o equilíbrio de poder europeu no século XIX.

27 de março de 2018

O que é a geopolítica?

Por Bernardo Salgado Rodrigues


Fonte: StarFlames/PixaBay



A palavra geopolítica está na moda. O termo é rotineiramente utilizado nos meios de comunicação, discursos políticos e trabalhos acadêmicos, muitas vezes como sinônimo (ainda que equivocadamente) de relações internacionais. A sua popularização é desejada na medida em que os fenômenos internacionais carecem de análises geopolíticas consistentes; entretanto, paradoxalmente, sua banalidade não deve ser incentivada, uma vez que é um termo de complexa definição e utilização. 

A conceituação da geopolítica pode parecer uma tarefa simples, mas, como veremos, sua sistematização de modo homogêneo é impedido por sua própria natureza. Em outras palavras, a geopolítica só pode ser considerada se levar em consideração que os diferentes interesses nacionais no sistema internacional são assimétricos, hierárquicos e competitivos, e, concomitantemente, diferentes visões geopolíticas são desenvolvidas a fim de estabelecer relações causais em distintos espaços e tempos. Ela oferece uma proposta/visão/representação específica de mundo, que são distintas entre si, relacionadas com as condições materiais e históricas, dinâmicas e cambiantes.