5 de novembro de 2018

(Re)pensando o mundo: as obras de Edward Said

Por Matheus Moraes Alves Marreiro

Wikipedia: Professor Edward Said: Scholar, Activist, Palestinian 1935 - 2003 Palestine. Picture taken by Justin McIntosh, August 2004



O objetivo desse texto é apresentar as principais ideias do livro Cultura e Imperialismo de Edward Said publicado em 1993[1]. Porém, para uma melhor compreensão do livro será introduzido, em um primeiro instante, alguns aspectos e reflexões sobre a vida do autor. Em seguida será exposto os argumentos centrais de sua obra de maior expressão, o Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente (1978)[2], que vai ser determinante para os argumentos e pensamentos do Cultura e Imperialismo. 

Edward Wadie Said nasceu em Jerusalém em 1935 e morreu em 2003 em Nova York. Desde pequeno Said esteve em contato com a cultura do mundo “ocidental” e do “oriental”. Seus pais eram árabes e cristãos ortodoxos. Seu pai, Ibrahim, nasceu na palestina e era cidadão e ex-militar americano e sua mãe, Hilda, era libanesa. Said viveu durante a sua infância com sua família na Palestina, no Líbano e no Cairo, países majoritariamente muçulmanos, o que o dava uma sensação de não estar no lugar certo ou estar fora do lugar[3]

Com a divisão da Palestina entre os árabes e Judeus em 1947, a família Said foi obrigada a se mudar de Jerusalém para o Cairo, onde Edward continuou estudando em escolas de elite que seguiam o modelo britânico. Em consequência disso, Said foi educado na língua inglesa e francesa, aprendeu com perfeição sobre a história da Inglaterra e da França, porém, não conhecia minimamente a história de onde nasceu e cresceu. 

22 de outubro de 2018

A controvérsia da anistia brasileira como obstáculo à defesa dos direitos humanos

Rhebecca Rasec da Costa Alves

Acervo do jornal "O Globo".


Durante todo o regime militar instaurado no território brasileiro dos anos 1964 até 1985 o que se viu foi a ausência do estado democrático de direito, juntamente com a repressão violenta a qualquer manifestação que se opusesse aos governos vigentes, especialmente no que tange o pós-1968, também conhecido como “Anos de Chumbo”, que foi marcado pelo fechamento do Congresso Nacional e passou a ser vigorado o Ato Institucional de n. 5.

Ao longo desse tempo, muitos civis foram reprimidos, exilados ou se tornaram presos políticos, muitas vezes, apenas por se mostrarem contrários ao governo. Foram praticados crimes tanto por militares quanto por civis opositores à ditadura como ofensivas ou defensivas, sendo os crimes dos opositores de caráter político, enquanto os referentes aos agentes estatais, em grande parte, se tratavam-se de transgressões e abusos ao princípio fundamental da dignidade da pessoa humana.

17 de outubro de 2018

Bolsonaro e o colapso da democracia brasileira

Renato Martins, presidente do Fórum Universitário Mercosul – FoMerco

Fonte: Carta Maior


O mundo acompanha com preocupação a ascensão da extrema direita no Brasil. O capitão Jair Messias Bolsonaro, um militar defensor da ditadura, teve 46% dos votos no primeiro turno das eleições de 2018 e está a um passo de se tornar o oitavo presidente da Nova República. Nos anos pós-autoritários, somente quatro presidentes foram eleitos pelo voto popular; dois não concluíram o mandado e o atual é considerado o mais impopular da história do país. Apesar disso, os últimos trinta anos foram o período de maior estabilidade política nacional. A vitória de Bolsonaro representaria certamente o fim desse ciclo, com a consequente abertura de uma nova etapa de autoritarismo, baseado numa mescla de militarismo, fundamentalismo religioso e ultraliberalismo.

Com efeito, o pacto iniciado com a Constituição de 1988 se esgotou com o golpe contra Dilma, em 2016. Desde então o Brasil convive com situações de exceção. O consenso estabelecido pela Carta de 88 em torno da democracia, do desenvolvimento econômico e da justiça social se rompeu com o golpe parlamentar. A partir de então estes valores deixaram de ser os princípios norteadores da República. Em parte, isto explica a ascensão do obscuro capitão à condição de líder nas pesquisas eleitorais. Os principais institutos lhe dão ampla vantagem em relação a Fernando Haddad, o candidato do PT que contou com o apoio de Lula para chegar ao segundo turno. 

Bolsonaro se declara abertamente defensor da ditadura e da tortura. Sua campanha está baseada na mentira, na violência e no ódio. Se eleito promete “armar a população”, “extirpar da rede publica de ensino a ideologia de Paulo Freire” e “criminalizar os movimentos sociais”. Estas são apenas algumas de suas bandeiras, todas recheadas de ódio contra negros, favelados, homossexuais, indígenas e quilombolas. Não surpreende que uma onda de violência tenha tomado conta do país nas duas últimas semanas. Em Porto Alegre, três homens imobilizaram e tatuaram no corpo de uma mulher o símbolo do nazismo. Em Salvador da Bahia, um mestre de capoeira foi morto a facadas por apoiadores de Bolsonaro depois de declarar o voto em Fernando Haddad. 

15 de outubro de 2018

A relação triangular entre os Estados Unidos, a China e Taiwan após a eleição de Tsai Ing Wen em 2016

Caroline Rocha Travassos Colbert
Publicado originalmente no Boletim nº 7 do Laboratório de Estudos Asiáticos (LEA-UFRJ)

Office of the President, Republic of China (Taiwan) | Government Website Open Information Announcement

As eleições taiwanesas de 2016 foram marcadas pela vitória do Partido Democrático Progressista (PDP) sobre o habitual vencedor, o Kuomintang (KMT). A população taiwanesa reivindicava, desde o governo de Ma Ying-jeou (2008-2016), reformas econômicas, sociais e educacionais [1] (CHAN; GAN, 2016), as quais, associadas à manutenção do status quoda ilha se tornaram táticas de campanha de Tsai Ing-wen (PDP), o que aumentou sua popularidade diante da concorrente à presidência Hung Hsiu-chu (KMT) (YU, 2017). Os taiwaneses não desejam a unificação e muito menos a independência do país, tendendo a apoiar candidatos favoráveis a manter as relações estáveis com Pequim. Foi nessa perspectiva que Tsai, mesmo concorrendo nas eleições através de um partido pró-independência, conseguiu obter sucesso:
A mudança de posicionamento de Tsai em direção à manutenção do status quo, em vez de se aliar à posição pró-independência do PDP, pode ser vista como fundamental para sua vitória. No entanto, esse movimento sinalizou claramente sua atitude cautelosa em relação à questão da unificação versusindependência. Por um lado, Tsai optou por apoiar a maioria dos eleitores de Taiwan ao privar o PDP de buscar a independência de Taiwan e, por conseguinte, tentar evitar um confronto no Estreito de Taiwan caso vencesse a eleição presidencial. A defesa do status quopor Tsai é especialmente importante, porque uma das candidatas à presidência do KMT em 2016, Hung Hsiu-chu, propôs uma conduta de “one China, same interpretation” como seu lema de campanha. A atitude de Hung não só foi de encontro à posição original do KMT de “one China, respective interpretations”,habilmente projetada sob o governo Ma, como também ofereceu ao PDP uma oportunidade vil, mas efetiva, de denunciar a proximidade de laços entre o KMT e o governo de Pequim. Por outro lado, o movimento de Tsai também se mostrou um gesto amigável ao governo de Pequim, passando a mensagem de que as relações entre os dois lados permaneceriam intactas assim que o PDP vencesse a eleição presidencial e de Pequim não precisava se preocupar com a independênciade jure sob o novo governo PDP (YU, 2017, tradução própria).

Os laços estáveis do Kuomintang com Pequim vêm do reconhecimento do Consenso de 1992 [2]. Ainda que Tsai se negue a aceitar o Consenso, afirma que manterá o status quo, do qual o acordo é parte integrante (WONG; WU; WANG, 2016). É nesse quadro político que a presença dos Estados Unidos na região e as retaliações de Pequim à ilha tem se intensificado. 

A relação entre os Estados Unidos e Taiwan está baseada nos Três Comunicados Conjuntos (Three Joint Communiqués) e nas Seis Garantias (Six Assurances) de Reagan. Em 1979, Jimmy Carter havia aprovado o Taiwan Relations Act(TRA), posteriormente incluído nos comunicados,que fornece as bases legais para o relacionamento não oficial entre os dois países e consagra o compromisso de Washington de ajudar Taiwan a manter a sua capacidade de autodefesa (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, 2018). Tendo em vista o apoio norte-americano no caso de alguma retaliação vinda de Pequim, a presidente Tsai tem estreitado relações com o governo Trump, o que lhe rendeu o Taiwan Travel Act, no início de 2018. Resumidamente, a lei encoraja visitas entre oficiais dos EUA e de Taiwan em todos os níveis.