30 de dezembro de 2020

Métodos Quantitativos e estudos de imigração: breve análise das estatísticas da imigração síria e libanesa

Volume 7 | Número 78 | Dez. 2020


Isabella Ferreira Silva

Miriam de Oliveira Santos



O objetivo desse artigo é discutir a utilidade e os problemas da utilização dos métodos quantitativos para os estudos migratórios, usando como referencial empírico os imigrantes e refugiados sírios. [1]  Conscientes de que é importante não apenas observar e quantificar os dados mas também selecioná-los e articulá-los buscamos nos estudos migratórios o nosso referencial teórico.  Devemos ressaltar que em princípio todas as pesquisas deveriam articular métodos quanti-qualitativos e que nosso esforço aqui é justamente demonstrar a utilidades dos métodos quantitativos em um campo em que eles ainda são pouco utilizados, como é o caso das ciências humanas.  

A utilização dos métodos quantitativos permite extrair e visualizar dados que não são observáveis à primeira vista e muitas vezes fornecem subsídios para uma segunda etapa da pesquisa mais qualitativa.
Cabe ressaltar que aquilo que os dados mostram está diretamente relacionado com o que foi perguntado, com os objetivos do pesquisador e com as teorias utilizadas na  abordagem do problema de pesquisa.

1- Os métodos quantitativos nas Ciências Humanas

No campo metodológico falaríamos de método indutivo e dedutivo e técnicas quantitativas e qualitativas.  Contudo, mesmo na academia, o uso corrente das expressões método quantitativo e método qualitativo se massificou e é por isso que serão usadas nesse artigo (ver CANO, 2012). Acompanhamos nesse ponto o pensamento de Cano quando afirma que:  

Os termos métodos e técnicas de pesquisa são usados geralmente de forma equivalente, embora existam diferenças entre ambos. Métodos seriam estratégias de produção de conhecimento científico, incluindo a geração e a validação de teorias. Técnicas seriam formas padronizadas de coleta e análise de dados, com a mesma finalidade, a de produzir conhecimento válido. Embora a diferença entre os dois conceitos seja porosa, o método é muito mais abrangente e se aproxima da epistemologia, contemplando estratégias gerais, enquanto a técnica é específica e concreta.                            (CANO, 2012 , p. 107).


No sentido apontado por Cano (2012), trataremos das técnicas quantitativas de coleta de dados sobre imigração, sobretudo do uso da estatística.  A estatística é o estudo da variabilidade dos fenômenos, que procura as regularidades mais ou menos prováveis, de diferentes naturezas, que possam existir, e/ou as relações porventura existentes entre elas, lineares ou não.

As vantagens do uso de técnicas quantitativas de levantamento de dados são a maior padronização e controle de dados e a maior facilidade de refazer a pesquisa e, confirmar ou refutar os dados apresentados.
A principal desvantagem é que frequentemente se esquece que as estatísticas não são neutras e que os dados dependem das perguntas que foram feitas para obtê-los.  É necessário não esquecer que todo dado empírico, é sempre uma construção em função da questão que se deseja responder. Em síntese, o que importa é discutir a pertinência e o alcance ou os limites dos dados relacionados à questão.


2- O perfil da imigração sírio-libanesa para o Brasil

Nas primeiras décadas do século XXI ocorreu o aumento da imigração síria, tal acontecimento despertou interesse sobre esse grupo e então, surgiram trabalhos sobre eles. Entretanto grande parte desses trabalhos são sobre imigrantes e refugiados sírios recém chegados e bastante desconectados dos trabalhos tradicionais sobre a imigração árabe para o Brasil.

Nesse contexto desejando entender como o fluxo imigratório tradicional e o contemporâneo se conectam, buscamos produzir dados sobre esse fluxo migratório e traçar o seu perfil. Para que isso fosse possível e foi elaborada uma pesquisa documental e bibliográfica que permitisse organizar, tabular e analisar os dados encontrados para então construir uma série histórica e traçar o perfil dos imigrantes sírio-libaneses no Brasil.

Segundo Pinto (2010, p. 27) no final do século XIX e início do século XX, a Síria e o Líbano faziam parte do Império Otomano ou Império Turco e sofreram com a interferência imperialista europeia, ação missionária, centralização política, industrialização e a primeira guerra mundial .

Esse contexto gerou uma grande diáspora sírio e libanesa, onde o Brasil ganha o papel de país receptor. Os primeiros registros dessas nacionalidades são do ano de 1871 mas durante as décadas de 70 e 80 do século XIX, todos os estrangeiros de nacionalidade árabe que desembarcavam no Brasil eram registrados como turcos. O registro das nacionalidades sírio e libanesa é conflituosa e apresentou mudanças em curtos períodos de tempo.


3- Quantos e quando chegaram?

Os primeiros registros da imigração sírio-libanesa para o Brasil, mesmo que com o passaporte turco, são da década de 1870 (MOTT, 2017 p. 181) mas durante o processo de pesquisa constatou-se a dificuldade de obter dados nacionais precisos devido às irregularidades das estatísticas, ou seja, tiveram diferentes classificações em que sírio-libaneses se encaixavam em curtos períodos de tempo.

Entre 1870-1960 eles entraram na rubrica turca, sírio-libanês, sírio e libanesa (separadamente) e “outras nacionalidades”.  Para resolver esta questão, a estratégia utilizada foi ter como base as estatísticas do Porto de Santos-São Paulo pois, segundo Mott (2017, p. 185), “o grosso da imigração dirigiu-se para São Paulo e Rio de Janeiro, localizando-se núcleos menores em Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia [...] sendo que o Estado de São Paulo recebeu 40% do total”. Isso quer dizer que analisar a dinâmica do estado brasileiro que recebeu a maior porcentagem desses imigrantes nos permite compreender a dinâmica nacional.

Analisando, então, os registros do porto de Santos percebemos que inicialmente a imigração foi tímida tendo anos que não houve registro. Durante as décadas de 70 e 80 do século XIX, registraram  apenas 156 entradas por esse mesmo porto, enquanto nas décadas seguintes esse número cresceu exponencialmente. Knowlton (1961, p. 38) acredita que esse aumento é resultado das leis contra imigração aprovadas pelo governo turco. Entretanto, o apogeu dessa imigração foi entre os anos de 1908 e 1915 ressaltando que a entrada majoritária ainda era com o passaporte turco mas que, desde 1892, já registrava-se a nacionalidade síria separadamente.

Em um contexto entre guerras mundiais, o número de total de registros (considerando os turcos, sírios e libaneses) esteve em queda. Seguindo a cronologia feita por Truzzi (2005, p. 91), podemos relacionar esse resultado a partilha do Império Otomano entre Inglaterra e França, sendo que essa última passou a controlar a Síria e o Líbano. Apesar disso, continuamos a observar a presença de passaportes de nacionalidade libanesa, além disso, a imigração de nacionais do Líbano, se mantém constante em contrapartida a da Síria e Turquia, apresentaram um pico de crescimento e uma queda acentuada antes da década de  30, como podemos ver no gráfico 1:



Podemos supor que a queda do número de imigrantes turcos está relacionada com a dissolução do império turco, e a consequência natural de que os imigrantes de diferentes nacionalidades como armênios, sírios e libaneses que até então entravam no país com passaportes turcos deixam de utilizá-los e passam a ser contados separadamente.  Percebemos aqui a importância de entender o contexto histórico para poder analisar os dados quantitativos.

A partir da década de 30, os Anuários Estatísticos do Brasil facilitaram a obtenção dos registros por nacionalidade e permitiu focar apenas nos sírios e libaneses  em âmbito nacional. É perceptível que o fluxo de entrada desses imigrantes voltou a subir a partir de 1945, atingindo um novo pico e declínio, como podemos ver no gráfico 2. Esse fato também está relacionado às mudanças que tiveram as estatísticas sobre imigração nos anuários, eles passam a restringir a poucas nacionalidades, com maiores números de entrada, o benefício de serem quantificadas separadamente e com maior detalhamento enquanto as outras nacionalidades com menos números de entrada, que inclui os sírios e libaneses, entram em “outros” ou “outras nacionalidades”. Além disso, os anuários deixam de trazer informações sobre imigração.





A partir disso, o Censo Demográfico passa a ser principal fonte para analisar a população síria e libanesa no Brasil. Na tabela abaixo, podemos ver o número desses imigrantes no país de acordo com o Censo Demográfico, essa tabela  mostra uma estabilidade na incidência da população sírio-libanesa no país entre as décadas de 40 e 50 mas que o declínio é notório e quantificável, marcando no censo de 1991 apenas 13709 pessoas dessas nacionalidades. [2]



Para ter acesso aos números mais recentes da migração sírio e libanesa a partir dos anos 2000, foi utilizado o Sistema Nacional de Cadastro e Registro de Estrangeiros (SINCRE) e o OBMigra, de acordo com essas fontes, o número de entradas anual de imigrantes de origem árabe, não passava de 500 e sempre registrando um maior número de libaneses do que de sírios, o que logo mudou a partir de 2011, que analisando o contexto histórico, é possível dizer que houve um aumento da diáspora síria devido à guerra civil [3] que a Síria vive.


4 - Segundo Gênero

De acordo com Knowlton (1961, p. 50), compreender as relações de gênero é importante pois, além de influenciar em diversos índices demográficos como casamento, nascimento e óbito, as relações sociais e econômicas dependem do equilíbrio entre os sexos. Com isso em mente e contando com as irregularidades estatísticas dos anuários que, apesar de serem mais específicos após 1935, em algumas edições escolheram poucas nacionalidades para registro e detalhamento, pode-se perceber que tanto na imigração sírio libanesa tradicional quanto na recente o fluxo foi majoritariamente masculino, como podemos ver nos gráficos abaixo:





A diferença entre gêneros é tão forte que, apenas nos anos de 2009 e 2010 registrou-se mais pessoas do gênero feminino do que masculino e esta informação reflete diretamente na porcentagem, nos gráficos abaixo é possível identificar que há um alto índice de masculinidade, que é o número de homens para cada 100 mulheres (KNOWLTON, 1961, p. 50). Portanto, população masculina representa mais do que a metade do total nas duas nacionalidades.

Um outro ponto em destaque é que a entrada de Sírios no Brasil diminui bastante no período compreendido entre 1940 e 2000, crescendo exponencialmente a partir daí.





Os censos demográficos, a partir da década de 40, não revelam uma contraposição mas sim a confirmação de que o fluxo de imigrantes sírio - libanês, do sexo masculino, para o Brasil foi e é majoritário (ver gráficos abaixo).







5 - Segundo o estado civil

A categorização do estado civil  atualmente é de solteiro, casado, viúvo, divorciado e “não declarado”, entretanto, nem sempre foi assim e as categorias que merecem destaque são a solteiro e casado. A soma dessas duas categorias compõe mais de 10 vezes a soma das outras categorias. Apesar dos libaneses terem a restrição de dados de 1935 - 1963 e os sírios apresentarem, também, uma falta de dados entre 1960 a 2010, há registro de 2011 a 2017, nos gráficos abaixo, podemos ver a porcentagem:






A análise desses fluxos apresenta que, o índice é predominantemente solteiro, a não ser pelos sírios nos anos de 1945 , 2011 e 2013.  Vale acrescentar que o fluxo de pessoas casadas entre os sírios tem gradualmente aumentado ao longo das décadas, enquanto os libaneses apresentam uma flutuação nos números, ora aumentando, ora diminuindo.





Quando tratamos do estado civil, é relevante destacar que o registro de divorciados passou a ser feito apenas a partir do ano de 1949, ou seja, 14 anos após do início de registros mais específicos que foi a partir do ano de 1935. Apesar disso, o número de divorciados é baixo, o único ano que passou de 10 foi em 1949 com 34 registros.

6 - Segundo a idade 

Nos tópicos anteriores percebemos que as estatísticas apresentaram problemas devido a irregularidade dos dados, porém, a representação por idade apresenta, também, mudanças na categorização. Essas mudanças ocorreram diversas vezes em curtos períodos de tempo, o que torna mais complexa e difícil a análise.

Ressaltando que as nacionalidades síria e libanesa entravam na categoria de turcos, quando falamos de porcentagem derivadas do fluxo no Porto de Santos, entre os turcos-árabes, 82,7% dos imigrantes estavam na categoria de 13 anos ou mais, 9,9% entre as idades de 0 a 6 anos e 7,4% na categoria de 7 a 12 anos” (KNOWLTON, 1961, p. 56), como podemos ver no gráfico abaixo:




No ano de 1936 temos o início da classificação dos imigrantes por idade em nível nacional, e o que percebi é uma grande incidência de pessoas maiores de 14 anos e no ano seguinte, devido a mudança de categorias, a partir de 12 anos, assim como em 1939. A partir de 1945 as categorias se mantiveram fixas até 1963 (último ano dessa amostragem pelos anuários). A partir de 1964 até anos recentes não houve dados para analisar a não ser pelos sírios de 2011 a 2017. Pode-se identificar no gráfico abaixo que a categoria de 20 a 35 anos corresponde a 51% dos imigrantes que entraram no Brasil durante esse período, ou seja, é mais da metade do que todas as outras categorias juntas. 





7 - Segundo a religião
 
Até agora, os dados existentes sobre a questão religiosa, são extremamente limitados ao ponto de só obter os referentes ao porto de Santos  entre 1908 a junho de 1941 (KNOWLTON, 1961, p. 58). Esses dados nos mostram que a maioria dos imigrantes neste período era 54,6% católicos e 45,4% de não católicos. Contudo, sabe-se de antemão que uma diferença entre a imigração recente e a tradicional é que a recente é composta predominantemente por muçulmanos (SILVA, 2018)  enquanto a tradicional, por católicos.





Considerações Finais

Neste trabalho analisamos os dados estatísticos sobre a imigração sírio-libanesa para o Brasil e vimos que apresenta um perfil masculino, jovens com idades entre 12-59 anos, com o estado civil, majoritariamente, de solteiros seguido de casados que na imigração tradicional eram cristãos, mas na imigração contemporânea são não-cristãos. Este trabalho, portanto, ampliou a compreensão sobre esse fluxo imigratório a partir da construção de uma série histórica que é deficiente devido às lacunas nas fontes estatísticas  brasileiras sobre imigração.

Pudemos observar que os métodos quantitativos e especialmente o uso de estatísticas são extremamente vantajosos para o estudo das migrações, contudo é preciso um controle permanente e uma análise crítica das fontes para não somar dados que se referem a coisas diferentes.  O artigo aponta, portanto, para as inúmeras possibilidades do uso dos dados quantitativos nos estudos migratórios e ressalta a possibilidade de novas descobertas e inferências a partir da coleta e tratamento dos dados já existentes em arquivos, censos e outras fontes.


Referências

BRASIL,  Emmanuel. N. Migração Síria Contemporânea: Da partida a (Re)Inserção. Trabalho de conclusão de curso (bacharel em sociologia) - Universidade de Brasília, Brasília. 2017. 84p.

CANO, Ignacio. Nas trincheiras do método: o ensino da metodologia das ciências sociais no Brasil. Sociologias [online]. 2012, vol.14, n.31, pp.94-119. ISSN 1517-4522.  https://doi.org/10.1590/S1517-45222012000300005.

FALCÃO, Jorge Tarcísio da Rocha; RÉGNIER, Jean-Claude. Sobre os métodos quantitativos na pesquisa em ciências humanas: riscos e benefícios para o pesquisador. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Brasília : MEC/INEP, v. 81, n. 198, p. 229-243, mai./ago. 2000.

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INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Anuário estatístico do Brasil,1956. Rio de Janeiro: IBGE, 1956.  
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INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Anuário estatístico do Brasil,1958. Rio de Janeiro: IBGE, 1958. 
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Anuário estatístico do Brasil,1959. Rio de Janeiro: IBGE, 1959. 
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Anuário estatístico do Brasil,1960. Rio de Janeiro: IBGE, 1960. 
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Anuário estatístico do Brasil,1961. Rio de Janeiro: IBGE, 1961. 
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Anuário estatístico do Brasil,1962. Rio de Janeiro: IBGE, 1962.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Anuário estatístico do Brasil,1963. Rio de Janeiro: IBGE, 1963.
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INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Anuário estatístico do Brasil,1966. Rio de Janeiro: IBGE, 1966.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Anuário estatístico do Brasil,1967. Rio de Janeiro: IBGE, 1967.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Anuário estatístico do Brasil,1968. Rio de Janeiro: IBGE, 1968.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Anuário estatístico do Brasil,1969. Rio de Janeiro: IBGE, 1969.
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KNOWLTON, Clark S. Sírios e libaneses: mobilidade social e espacial. São Paulo, Anhambi, 1960.

LIMA, João. B. B. et al. Refúgio no Brasil: caracterização dos perfis sociodemográficos dos refugiados (1998-2014). Brasília : Ipea, 2017.

MOTT, Maria. L. Imigração Árabe: um certo oriente no Brasil. In: Brasil: 500 anos de povoamento. Centro de Documentação e Disseminação de Informações. - Rio de Janeiro : IBGE, 2007.

OLIVEIRA, A. T. et. al. O Sistema Nacional de Registro de Estrangeiros (SINCRE) e a Migração Regular no País. In: CAVALCANTI, Leonardo; OLIVEIRA, Antônio Tadeu; TONHATI, Tânia; DUTRA, Delia (Orgs.). A inserção dos imigrantes no mercado de trabalho brasileiro. Relatório Anual 2015. Observatório das Migrações Internacionais; Ministério do Trabalho e Emprego/ Conselho Nacional de Imigração e Coordenação Geral de Imigração. Brasília, DF: OBMigra, 2015.

SILVA, Alinne F. da. O acolhimento de migrantes sírios pela Igreja Católica no Rio de Janeiro. Espaços revista de Teologia e cultura, São Paulo, v. 26, n. 2, p. 325-332.
Fevereiro/2018.

TRUZZI, Oswaldo. Sírios e libaneses: narrativas de história e cultura. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005

***

[1]   Agradecemos ao CNPq pelas bolsas que nos permitiram realizar esse trabalho e ao Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios - NIEM pelo estímulo, troca de opiniões e informações, críticas qualificadas e sobretudo pelo acolhimento durante a realização da pesquisa.

[2] Refere-se aos imigrantes da Síria, Líbano, Palestina, Iraque e Arábia.

[3] Resultado da repressão do governo sírio aos protestos populares durante a Primavera Árabe.

***

Isabella Ferreira da Silva é graduanda de licenciatura em Geografia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e bolsista de Iniciação Científica do CNPq.

Miriam de Oliveira Santos é professora Associada da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Vice-coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios e  investigadora colaboradora no CinTurs - Research Centre for Tourism, Sustainability and Well-being da Universidade do Algarve.


Como citar: SILVA, Isabella Ferreira; SANTOS, Miriam de Oliveira. Métodos Quantitativos e estudos de imigração: breve análise das estatísticas da imigração síria e libanesa. Diálogos Internacionais, vol.7, n.78, dez. 2020. Disponível em: http://www.dialogosinternacionais.com.br/2020/12/metodos-quantitativos-e-estudos-de.html

14 de dezembro de 2020

Perspectivas conjunturais para a Economia Brasileira no pós-pandemia

Volume 7 | Número 78 | Dez. 2020

Roberto Rodolfo Georg Uebel
Amanda Raldi
Camila Lopes da Costa
Caroline Alves dos Santos
Fabio Eduardo Moraes Tavares
Jessika Salles da Silva
Laís Silva Peixoto
Luana Ribeiro
Marcos Soares Malgarin
Matheus Bitencourt Leite
Roberta Helm 


Introdução

O ano de 2020 representou significativos desafios para a economia global, haja vista a emergência da pandemia da COVID-19, cujos reflexos foram percebidos nas mais diversas searas econômicas, políticas e sociais.

Considerando estas questões, este artigo de análise de conjuntura tem como objetivo debater os reflexos da pandemia na economia brasileira e também prospectar alguns cenários específicos para o contexto pós-pandemia, sobretudo nos temas de comércio exterior, emprego, consumo e renda. 

  O texto está dividido em oito seções temáticas, além desta Introdução e das Considerações Finais, e pretende lançar luz sobre um dos temas mais caros à Economia Brasileira Contemporânea, que é a sua recuperação pós-crise pandêmica, que ensejará, sobretudo, esforços por parte das autoridades governamentais do país.


1. China, Brasil e o aumentos de exportações no setor Agro


Com os impactos sofridos pela pandemia da COVID-19, o mercado internacional sofreu transformações ao decorrer da pandemia, com o início da doença na China, o país observou um cenário com baixa nas exportações durante o ano de 2020 e iniciou sua retomada no final do terceiro trimestre em função da queda da casos de coronavírus no país. Os fluxos de comércio no sistema internacional aumentaram significativamente para o Brasil em termos de commodities, contando principalmente com a China como seu maior comprador ao longo desse ano pandêmico.

Desde sua primeira aparição na cidade de Wuhan na China até a sua propagação pelo mundo, o novo coronavírus ocasionou um grande impacto na cadeia de suprimentos global e na economia mundial, onde juntamente com a valorização cambial afeta vários setores da economia, ora de maneira positiva, ora negativa. 

Para o Brasil, essa perspectiva não foi diferente, segundo o ICOMEX (Indicador de Comércio Exterior) realizado pelo Instituto Brasileiro de Economia, as vendas de commodities obtiveram um aumento de 10,5% na comparação de junho de 2019 e 2020, mas uma recessão nas vendas de não commodities que caíram 24%. Isto é justificado pela alta cotação do dólar que fica atrativo para exportações, contribuindo para o alto desempenho no setor do agropecuário na pandemia pois, com alguns desafios impostos aos países (como lockdown) não conseguiram concorrer no mercado internacional, abrindo espaço para que fosse suprida essa falta de commodities por outros países. Neste contexto, podemos observar que a China precisou usar seu estoque para o mercado interno e aumentou o nível de exportação para minimizar os impactos que o país vinha sofrendo, que principalmente não poderia se agravar na falta de insumos.

O saldo da balança comercial de US$7,5 bilhões foi o maior na história em junho, conforme a afirmação do ICOMEX, a participação total da China foi de 33,8% em exportações no comercio exterior brasileiro, registrando um aumento de 53,1% das compras de produtos brasileiros, positivo para superávit do Brasil no acumulado de 2020, mantendo-se a diminuição das importações.

No acumulado de 2020, a China é o primeiro país no ranking de exportação do Brasil, com um total de US$ 85.884,80 entre janeiro e outubro de 2020, mantendo ainda um aumento de 11,1% nas exportações comparadas a 2019, conforme o Gráfico 1:



Alguns fatores devem ser levados em consideração no cenário econômico pandêmico, a retomada econômica atual no último trimestre para recompor o déficit na economia desse ano, as tensões entre EUA e China no atual governo Trump que resulta na diminuição da exportação de soja estadunidense e abriu momentaneamente o cenário para o aumento do Brasil mas, pode ser alterado com o próximo governo norte-americano liderado por Joe Biden e também a retomada das indústrias aumentando as importações, entanto deve-se levar em consideração que as exportações de commodities serão de grande importância para o acumulado da balança comercial de 2020. 

Contudo, esses pontos podem trazer um cenário incerto para o Brasil perante o comércio exterior ao longo do que ainda teremos de pandemia, cujos impactos poderão ser sentidos também no desenvolvimento socioeconômico, conforme discutiremos na próxima seção.


2. Os impactos da pandemia no IDH brasileiro e do mundo


Ocupando o 78º lugar no ranking mundial do Índice de Desenvolvimento Humano, o Brasil alcançou o IDH de 0,761 em 2019, com uma pequena melhora de 0,001 em relação à 2018. Essa melhora pode, porém, ser revista com a ocorrência da pandemia, que afetou as populações mais vulneráveis.

Devido à pandemia, pela primeira vez em 30 anos, o IDH pode cair em escala global. Seria a primeira queda desde que o índice foi criado em 1990. A tendência foi observada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e discutida recentemente na Assembleia Geral da ONU.


2.1 O IDH com a pandemia


O Índice de Desenvolvimento Humano no Brasil, embora considerado alto, ainda está muito longe de ser considerado suficiente para o desenvolvimento do país: há anos encontra-se estagnado, e quando levamos em consideração o índice de desigualdade (Gini), o IDH brasileiro reduz 24,57%, despencando 23 posições no ranking mundial. 

O Brasil, mesmo antes da pandemia, já observava impactos negativos na questão da saúde, educação e renda, devido aos problemas de gestão política, e, sendo esses os fatores mais importantes na medição do IDH, esses impactos triplicaram com a pandemia de COVID-19.

Na questão da saúde, os impactos são mais evidentes: o alto índice de mortalidade de COVID-19, que gerou um colapso na saúde pública brasileira e prejudicou o atendimento de outras enfermidades, principalmente no sistema de saúde público. 

Também é preocupante a situação da educação: estamos vivendo a maior taxa de abandono escolar desde os anos 1980. Com a pandemia, muitas escolas fecharam e adotaram o sistema online de aprendizagem, porém isso está longe de compensar a evasão escolar, que atinge principalmente os alunos de baixa renda, que não possuem condições (nem meios) de assistir às aulas virtuais. Isso também é uma preocupação mundial, já que nos países com o IDH considerado muito alto, 20% das crianças estão sem aulas, mesmo com a maioria das escolas fechadas. Já nos países com IDH baixo, o número chega a 86%, o que mostra que o impacto nestes países é muito mais forte.

A COVID-19 também impactou na renda de muitas famílias, com o fechamento de muitas empresas, aumentando drasticamente a taxa de desemprego, que já não era das melhores antes da pandemia. Apesar da criação de novas formas de trabalho como o trabalho remoto, a população ainda sai prejudicada com a falta de oportunidades, ainda mais quando se trata de jovens sem experiência tentando se colocar no mercado de trabalho. A tudo isso, se soma uma forte recessão econômica, com uma queda de quatro pontos percentuais no PIB per capita, e consecutivamente reduzindo o IDH, não só no Brasil, mas em todo o planeta.

O novo coronavírus trouxe consigo impactos e experiências negativas em todos os setores, que irão afetar significativamente o Índice de Desenvolvimento Humano mundial. As quedas nos níveis fundamentais do desenvolvimento humano se percebem na maioria dos países, tanto os centrais, quanto os periféricos, porém, serão maiores em países em desenvolvimento, menos capazes de lidar com os desafios e consequências da pandemia.

As perspectivas quanto ao contexto geral dessa crise ainda são incertas, e a recuperação irá depender primeiramente da chegada da vacina nos países e de como cada governo administrará a realidade pós-pandemia nos anos seguintes. Desta maneira, na próxima seção discutiremos os seus impactos no desemprego na economia brasileira.


3. Economia Brasileira em Cenário de Pandemia e o Desemprego


Segundo estudo preliminar da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) no dia 21 de abril de 2020, a pandemia da COVID-19 faria com que a economia brasileira encolhesse 5,2% em 2020, com milhões de pessoas passando por desemprego e pobreza. Isso foi uma previsão no começo da pandemia, e podemos ver que o cenário em dezembro de 2020 continua como previsto, sem indícios de melhora, mas sim, com uma clareza de uma instabilidade muito grande na economia, gerando elevado desemprego, pouca produção para o comércio exterior e pobreza.

As incertezas em relação ao que está para acontecer na área da saúde, faz com que a economia se retraia, este comportamento é normal, contudo, nunca houve uma retração como esta. Nessa esteira, foram estabelecidas regras emergenciais contra a proliferação do novo coronavírus, também conhecido por COVID-19. Tais planos e regras não foram suficientes para impedir a crise, incentivos contra demissões, prorrogações dos pagamentos de tributos e outros passivos não foram suficientes para que empresas não fechassem suas portas e demissões em massa ocorreram. O ano de 2020 fez com que a economia se reinventasse, e pouco a pouco vem apresentando novas soluções para a crise.

Em abril de 2020, uma pesquisa do IBGE apresentou um quadro onde havia menos de 50% dos brasileiros empregados formalmente, isto significa que atualmente este número caiu ainda mais, se tratando da população apta ao emprego. 

A pandemia fez com que as empresas demitissem, pois dificilmente conseguiriam arcar com os custos sem haver produção, mas além disso, diversos de outros fatores contribuíram para este crescimento no desemprego. Imaginemos que em um país de mais de 200 milhões de pessoas em um cenário de caos, tendo que executar o isolamento social para a não proliferação da doença, alguns milhares em situação de risco maior, por maior vulnerabilidade, como pessoas com doenças crônicas e idosos.

A pandemia ainda está instalada, e atualmente na Europa está ocorrendo a segunda onda, fazendo com que no Brasil continuem as incertezas e que fazem os empresários se retraírem, tentando apenas sobreviver ao caos. 

Assim, é possível antever que o pós-pandemia apresentará a manutenção dos cenários de incertezas, porque se as empresas continuarem a fechar, haverá mais pessoas desempregadas disputando menos vagas. Temos ainda que levar em consideração que há empresas que não conseguem adquirir a matéria-prima para a sua produção, pois o fornecedor está obedecendo os protocolos de segurança, e, consequentemente o cliente da indústria não poderá comercializar pois a cadeia logística não se deu início.


4. Descontrole inesperado


O país vem enfrentando uma inevitável queda nos indicadores econômicos em função das medidas de isolamento social, que forçaram o fechamento de diversos estabelecimentos comerciais e a suspensão das atividades de ensino presencial. Para o Brasil, a recessão é ainda mais difícil de estabilizar, pois o país não conseguiu se reerguer dos estragos causados entre 2014 e 2016.

O consumo das famílias teve uma queda de 13,5% no segundo trimestre de 2020 em comparação ao mesmo período de 2019. O que representa o pior resultado desde 1996. Sendo o principal componente do PIB, o consumo equivale a quase 70% do indicador. Dentre os bens compreendidos destacam-se alimentos, bebidas alcóolicas, vestuário, medicamentos, eventos esportivos e entretenimento. Como também o bilionário setor de combustíveis derivados do petróleo. Mesmo apresentando um crescimento mês a mês, o lucro no setor continua abaixo do esperado, com exceção do óleo diesel que foi o único elemento a apresentar melhoras na rentabilidade.

Com o aumento natural do fluxo de vendas no período natalino e a intensificação dos trabalhos de logística; como transportes, importação e exportação; a relação oferta por demanda poderá apresentar resultados positivos para a balança no último trimestre do caótico ano de 2020, e início de 2021 devido o aumento do fluxo de capital gerado pela temporada de veraneio.

Sem dúvidas o desemprego foi um dos fatores que mais atingiu a economia brasileira ainda no primeiro semestre de 2020 devido a pandemia de COVID-19. Com as ações restritivas para a contensão da transmissão do vírus, muitas empresas e instituições se viram forçadas a tomar medidas excepcionais para que conseguissem conter gastos e se manter durante este período de calamidade pública. Movimento esse que nos leva a pensar quais seriam os reais impactos gerados na economia brasileira.

O ano de 2019 havia fechado a taxa de desemprego em 11,9%, um percentual menor do que ao dos anos anteriores, o que trazia uma esperança de redução ainda maior desse número ao longo do ano de 2020. Porém, ainda no primeiro semestre do ano, o país recebe a primeira onda da pandemia de COVID-19, e com ela os impactos gerados em detrimento dos setores de trabalho. 

Apenas entre o período de fevereiro e abril o desemprego atingiu 12,8 milhões de brasileiros, segundo dados divulgado pelo IBGE. Esse número é composto pela queda de postos de trabalho formais e informais, e também no aumento do número de pessoas que pararam de buscar trabalho porque simplesmente perderam as esperanças. A problemática é que este número não é refletido no índice de desemprego, pois o mesmo só considera aquelas pessoas que perderão seus empregos, mas continuam a procurar de novos. Isso significa que, apesar de o índice apresentar uma porcentagem de 12,2% apenas no primeiro trimestre, a realidade das vagas encerradas pode ser ainda maior.

Com o aumento de pessoas desempregadas, e a redução de circulação populacional devido o distanciamento social necessário, a economia começou a sentir severos impactos. Pois, se as pessoas não estavam trabalhando, logo elas não possuíam capital financeiro para gastar no comércio e até mesmo pagar seus impostos corretamente, essa redução e contensão de gastos por parte da população começa a afetar também as empresas.

Apesar de todos os projetos criados pelo governo para tentar segurar a economia brasileira assim como o aumento da taxa de desemprego, segundo o IBGE, ao final de agosto a taxa chegou a 14,4%. Esses dados trouxeram a população brasileira um sentimento de pessimismo com a relação à recuperação econômica e, diminuição do desemprego do país ainda em 2020 e início de 2021.

Atualmente, com a flexibilização das restrições criadas pelo distanciamento social, nota-se um aumento na busca de vagas de emprego por parte dos brasileiros em um cenário onde vários setores ainda continuam eliminando muitos postos de trabalho, como é o caso da indústria  que caiu 3,9% um equivalente a 427 mil trabalhadores que foram dispensados de seus postos. Por outro lado, os setores de agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura tiveram um pequeno aumento de 2,9% equivalente a 228 mil trabalhadores na ocupação de seus postos. Ainda assim, nem esse pequeno aumento é suficiente para iniciar um movimento de crescimento no índice de postos ocupados, que chegou a taxas mínimas historicamente em 2020.

Enquanto parte do governo federal afirma que a economia tem dado sinais de recuperação, o mercado de trabalho não mostra os mesmos sinais e segue sendo pressionado, ainda mais, pelo aumento na busca de empregos que pode aumentar cada vez mais com o fim do auxílio emergencial. Em contexto mais realista, a recuperação da economia relacionada aos setores de trabalho deve se dar lentamente com aumento da criação de vagas de trabalho devido a retomada de consumidores brasileiros ao comercio. Porém, esse mesmo movimento só se dará início a partir do momento em que tivermos uma vacina eficiente contra o COVID-19 e por consequência a diminuição considerável das medidas para o combate da transmissão do vírus. Ou seja, para que possamos começar a enxergar a diminuição na taxa de desemprego brasileira no pós-pandemia, um dos fatores primordiais será o controle, estabilização e tratamento dos índices de infectados e transmissões.


5. Agronegócio e conjuntura pós-COVID-19

No quarto trimestre de 2019 esperava-se um aumento do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,8 % no setor agropecuário, e 2,3 % para os demais segmentos esperados para o ano de 2020. Com o surgimento da COVID-19 em fevereiro de 2020 iniciado na China essa perspectiva mudou, não estimavam o tamanho do impacto econômico em uma escala global que estaria por vir. 

No primeiro momento, a reação do mercado de grãos foi negativa. A economia mundial estava em declínio, com o consumo de grãos, por consequência, sendo impactado por esta queda na economia mundial. No entanto, houve uma reversão no mercado de grãos, um comportamento atípico dos principais produtos.

O arroz e feijão foram valorizando com a demanda aquecida desde o início da pandemia, com os consumidores formando estoques diante do risco de desabastecimento. Além da demanda, outros fatores contribuíram para a instabilidade nos preços. A redução da área de cultivo de produtos básicos em favor da soja está concentrando a produção e reduzindo oferta. 

Com os preços atuais da soja, este cenário tende a se agravar nos próximos anos. As exportações brasileiras de arroz, com os volumes mais significativos no ano, também contribuíram para redução de oferta do produto no mercado interno. Assim, o arroz tem preços inéditos. O feijão, também com o consumo mais elevado no primeiro semestre, apresenta maior sensibilidade de mercado. A diminuição da área de cultivo nos últimos anos também foi muito significativa, com redução de mais 40% desde 2000. A manutenção do consumo no Brasil pode gerar problemas de abastecimento e levar à necessidade de importações recordes no ano. 

O setor agropecuário apresentou crescimento de 1,9% no 1° trimestre/2020 frente ao mesmo período de 2019, um ritmo de crescimento ainda mais intenso que o observado no 1° trimestre/2019 quando o crescimento foi de 0,9% frente ao mesmo período de 2018. O consumo das famílias brasileiras, que já vinha crescendo muito modestamente em 2019, observou retração de 0,7% no 1° trimestre/2020.

Apesar dessa menor demanda doméstica – derivada do impacto negativo da crise da COVID-19 no poder de compra do brasileiro - a produção agropecuária nacional segue trajetória expansionista. Os destaques da produção agropecuária brasileira no início de 2020 têm sido a soja (4,6%), o café (20%), o arroz (3,9%) e laranja (4,4%), conforme as estimativas mais atuais. A seca na região sul, principalmente Rio Grande do Sul e Paraná, afetou a produtividade. Apesar da maior área cultivada, espera-se menor produção de grãos nessa região. A Peste Suína Africana na China, e o impacto da COVID-19 no processamento de carne nos EUA tem sustentado a demanda internacional por proteínas brasileiras, amenizando os efeitos negativos da menor demanda doméstica pelo produto, especialmente dos cortes mais nobres.

O atraso na plantação e colheita da soja deve refletir apenas em abril, portanto no PIB do segundo trimestre/2020, parte da alta esperada para a produção de soja em 2020. Além da soja, o resultado do PIB do 2° trimestre/2020 deve beneficiar também da maior produção esperada da cana de açúcar. A maior demanda chinesa por soja brasileira – no contexto de desvalorização do Real e precaução frente ao possível agravamento da crise da COVID-19 no Brasil – tem refletido no maior volume de exportações do agronegócio brasileiro para aquele país em abril e maio e também deve refletir positivamente no resultado do PIB agropecuário no 2° trimestre de 2020.

Nesse contexto pós-pandemia podemos esperar uma alta demanda nos alimentos básicos, seguros e baratos, principalmente devido à diminuição do poder de compra da população mundial. O consumidor fará uma redistribuição dos gastos. Muitas famílias serão afetadas e tentarão reduzir dispêndios de luxo, não essenciais ou com entretenimento fora de casa. 

A queda da demanda por alimentos de maior valor agregado será uma tendência, em função da diminuição da alimentação fora do lar, fechamento de bares, restaurantes, escolas, diminuição do turismo, viagens e eventos, portanto, discutiremos sobre os seus impactos no mercado vegetariano brasileiro na próxima seção.


6. Mudança de Hábitos: O Impacto da pandemia no mercado vegetariano brasileiro


A epidemia do coronavírus tem causado diversos impasses na economia brasileira, com o aumento crescente de preços na indústria alimentícia nesta época de pandemia mundial, uma maior preocupação com a saúde e, principalmente, uma grande preocupação com o futuro do planeta terra, as pessoas têm mudado seus hábitos alimentares adotando uma dieta sem carne, o que pode gerar um avanço significativo no movimento vegetariano. Neste artigo veremos com precisão estas mudanças no cenário econômico brasileiro durante a pandemia global do COVID-19, e iremos averiguar qual o impacto do coronavírus na indústria vegetariana.


6.1 O crescimento da indústria vegetariana ao longo dos anos


Atualmente 14% da população brasileira se considera vegetariana, representando um aumento de 75% entre 2012 e 2018. Este percentual representa cerca de 30 milhões de brasileiros, segundo pesquisa do IBOPE Inteligência em parceria com a Sociedade Vegetariana Brasileira. Segundo pesquisa da Sociedade Brasileira Vegetariana, os dados do Google Trends mostram um interesse maior nas buscas pelo vegetarianismo, houve um crescimento anual de 150% quando contraposto com os dados de anos anteriores.

Já segundo a Wedbush, empresa de investimentos americana, nota-se um interesse grande por parte da população nos últimos dez anos em alimentos de origem vegetal. “Impulsionado pela inovação em produtos alternativos a carnes e leite, nós acreditamos que a indústria de alimentos de base vegetal representa mais de 3,5 bilhões de dólares em vendas, incluindo diversos substitutos de carnes e laticínios.”


6.2 A mudança de hábitos: o vegetarianismo como melhor opção 


Diante da pandemia causada pelo novo coronavírus, o setor alimentício sofreu graves crises ao longo dos meses, havendo um aumento no consumo de carne vegetal.

Se viu um impacto grande na indústria da carne animal e um aumento no interesse por produtos vegetarianos, segundo o GEPEA (Consultoria em Alimentos). Ela ainda afirma que esta onda de produtos vegetais vai envolver todos os tipos de empreendedores. “Para os investidores, é um mercado que oferece a oportunidade de aposta em tipo de alimento diferenciado, em patentes inovadoras e na criação de barreiras de entrada a novos concorrentes”. Cresceram 239,80%, nos últimos três meses a demanda de carnes s e outras proteínas vegetais, quando comparado a março e maio do ano passado, segundo a empresa Nielsen e a Sociedade Nacional de Agricultura.

A busca pelo modo de vida vegetariano teve crescimento significativo ao longo dos anos nesta última década, mas houve uma busca gigantesca pelo tema nos últimos meses, com a vinda da pandemia da COVID-19, o que nos faz concluir que o impacto da pandemia na indústria vegetariano foi enorme e extremamente relevante, aumentando o consumo de alimentos de origem vegetal e adotando o estilo de vida sem carnes animais, e também com impacto em novos tipos de negócios digitais, conforme discutiremos na próxima seção.


7. Empreendedorismo digital diante do novo comportamento do consumidor


A COVID-19 afetou diretamente a circulação de pessoas e o contato físico, fatores que por muitos anos foi sinônimo de crescimento nas vendas. A relação humana, o contato físico, o olhar, a empatia e a escuta ativa fazem parte de muitos cursos de vendas, marketing e entre outras atividades que lidam com o público e pode-se constatar que tais estratégias, em muitos casos, resultavam em venda. 

Contudo, os elementos que, anteriormente, transmitiam confiança e segurança para o consumidor, hoje, em meio a pandemia e as restrições de circulação, precisaram ser repensadas e adaptadas ao formato digital. Desafio para muitos empreendedores, o mercado de produtos e serviços digitais, não estava nos planos de muitas empresas, mas foram pressionadas pela economia para manter o funcionamento.

Diante das novas tecnologias de e-commerce, foi necessário repensar as estratégias de mercado e consumo, para que pudessem transmitir, confiança, segurança e qualidade através da rede de computadores.

Nesse sentido, questiona-se a importância do empreendedorismo digital para o mercado em pandemia e como o empreendedor pode alcançar o consumidor diante da nova realidade digital.


7.1 Empreendedorismo digital para o “novo consumidor”


Compreender as necessidades de mercado é parte fundamental dos estudos de viabilidade de um negócio e com a pandemia gerada pela COVID-19 se faz necessário compreender o impacto no consumidor e no seu modo de consumo. Assim, estabelecendo parâmetros que podem ou não ser implementado pelo empreendedor.

Os Indicadores de Consumo das Famílias (ICF) teve alta em setembro de 2020, cresceu 4,7% em relação a agosto, nesse sentido, a pesquisa destaca a retração de 33,1% em relação ao mesmo período de 2019. Tais indicadores demonstram crescimento e retomada da economia, em comparação com ao segundo trimestre de 2020 que foi marcado pelo fechamento de muitas empresas e a baixa perspectiva profissional. (FECOMERCIO/SP)

O fator que afeta significativamente a economia é o desemprego e consequentemente o poder de compra. O desemprego alcançou, em agosto de 2020, a taxa de 14,3%, o Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) destaca que foram apuradas cerca de 74,4 milhões de pessoas fora do mercado de trabalho (CAMPOS, 2020). Portanto, com o aumento da taxa de desemprego e a redução na oferta de emprego, a população precisou repensar o seu consumo e adaptar-se a nova realidade econômica.

A definição das novas estratégias do empreendedor voltara-se para o negócio digital, visto que, diante da impossibilidade do consumidor se locomover até a loja para o atendimento presencial, muitos encontraram nas redes de computadores e aplicativos a escolha ideal para estabelecer contato com seus clientes.

Os novos métodos demonstraram que é possível alcançar as pessoas de forma digital, transmitindo segurança e qualidade, e com fácil acesso. O período de isolamento proporcionou o crescimento do marketing digital e este deu suporte não apenas para as grandes redes varejistas, mas também ao pequeno comércio. Sendo assim, o empreendedor pode manter a empresa em funcionamento com menor custo e com receita.

O comportamento do consumidor mudou, seus critérios evoluíram e o fácil acesso a concorrência fazem com que o empreendedor trabalhe também a confiabilidade de seus produtos e serviços, promovendo histórico de avaliações e adaptando-se às novas necessidades, ampliando o alcance e direcionando suas campanhas. Contudo, seu foco deve pautar-se na criação de expectativas, criar o interesse, estimular a compra e gerencia a qualidade. 

A importância de se repensar as estratégias de mercado, visto que as mudanças foram significativas, é fundamental, pois envolve os dois lados da relação comercial. Os negócios digitais e sua ágil adaptabilidade, proporciona ao empreendedor a possibilidade de compreender seus produtos e serviços frente aos seus potenciais consumidores e adequar-se conforme feedback, assim potencializando seu negócio e otimizando seu valor de mercado. Desse modo, os elementos como segurança dos dados, segurança com o produto, modalidades de pagamento, modalidades de entrega, bancos digitais, redução taxas ou sem taxa de utilização de bancos, são benefícios ao empreendedor que são repassados ao consumidor em forma de qualidade, desconto e o facilidade de pagamento.

Os impactos da COVID-19 para os empreendedores serão duradouros, portanto, é primordial o aprimoramento constante das técnicas digitais e se apropriar deste recurso como uma expansão da empresa, bem como entender as mudanças no consumo da população brasileira, conforme veremos na próxima seção.


8. A mudança no consumo do brasileiro e as novas perspectivas num mundo pós pandêmico 


Hábitos anteriormente incipientes na sociedade brasileira, tornaram-se protagonistas em nosso cotidiano como por exemplo o uso do trabalho remoto, a forma de se relacionar com as outras pessoas e o consumo, com o impacto do novo coronavírus.

O consumo das famílias tem grande peso na composição do PIB, cerca de 65%, e as despesas com alimentação, habitação e transporte (anterior a pandemia), lideravam o destino dos gastos. Uma pesquisa realizada com 1.086 usuários do Mobills (aplicativo de gestão de finanças pessoais) aponta que, houve uma substituição de gastos e o Banco Central sinaliza que a população nunca poupou tanto. Retomando ao cenário de 2019, o brasileiro percorria cerca de 78km para comprar, segundo pesquisas do IBGE, e, o e-commerce por exemplo, que já era presente no nosso dia a dia, se tornou essencial durante a quarentena.  

Iniciamos esta seção o questionamento: Qual será o perfil do consumo e do consumidor no Brasil pós pandemia? 


8.1 O mundo não será como antes 


Carlos Terceiro, CEO da Mobills, explica que através da pesquisa, anteriormente mencionada, é possível visualizar a mudança nos hábitos de consumo, como por exemplo, a redução dos gastos com transporte, restaurante, lazer e vestuário, entretanto, aumentaram os custos com supermercado e contas de água, energia e gás, conforme sinaliza o Gráfico 2 a seguir.




Ainda sobre a mesma pesquisa, foi explicitado o aumento de gastos com aplicativos focados em comida, cerca de 95% comparado à mesma época do ano passado. Durante o período da pandemia e quarentena, o Rappi triplicou o número de contratações e o iFood subiu de 147 mil para 170 mil entregadores de comida, entre fevereiro e março. 

De acordo com o estudo intitulado “EY Future Consumer Index” realizado pela EY Parthenon, para a maioria das 1.134 pessoas ouvidas, as compras no pós-pandemia serão menos físicas e mais virtuais. Cerca de 68% deles, passaram a cozinhar suas próprias refeições e gastos com moda e cosméticos que são considerados supérfluos, não são mais prioridade. 

Com os decretos de isolamento social a fim de conter o avanço do vírus, muitos comércios (não essenciais) foram fechados, o que causou profundo efeito econômico na vida de pequenos e médios empresários, tornando a venda pela internet não somente uma “válvula de escape”, mas também, uma verdadeira solução. Em junho, segundo dados do Banco Central, depósitos em caderneta de poupança foram superiores aos saques, cerca de R$20,5 bilhões, o que se mantém superando meses dessa série histórica iniciada em 1995. O advogado e economista Alessandro Azzoni diz que esse superávit da poupança tem sua explicação fundamentada na insegurança, pois, as pessoas desconfiam desta conjuntura a qual estamos inseridos e consideram, inclusive, a possibilidade da perda de seus empregos. 

Podemos destacar neste breve estudo, o conceito de PIB pela ótica da demanda, onde devemos considerar:  

PIB = Consumo das famílias + Consumo do governo + investimento + variação de estoques + exportações – importações


As perspectivas futuras incluem estagnação econômica, perca do PIB real e de empregos, sendo necessária a manutenção de algumas medidas tomadas pelo governo como por exemplo: Programa Nacional de Apoio ás Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), a Medida Provisória 944 (Programa Emergencial de Suporte a Empregos) que estabelece uma linha de crédito de R$ 34 bilhões e a Desoneração da folha de pagamento prevista agora até o final de 2021, que visa lograr novas vagas de emprego e preservar as já existentes, entre outras. 

Contudo, retomando aos consumidores, estes estarão aprimorados no quesito de exigir qualidade, praticidade e agilidade dos serviços prestados e aos estudiosos das novas necessidades do mercado - mesmo que o governo através de políticas econômicas incentive o consumo - terão grandes desafios à frente, incluindo convencer os brasileiros a comprar, especialmente em um contexto de elevado desemprego.


Algumas considerações


A pandemia causada pela COVID-19 trouxe consigo vários problemas, forçando uma nova performance da economia global. Nesse cenário, o Brasil foi forçado a lidar com uma realidade nada positiva. O distanciamento social, como forma de conter a doença, deixou evidente as lacunas existentes em nosso país em questões de empregabilidade, atingindo majoritariamente a população que trabalha informalmente. O país fechou 897 mil postos de trabalho, com o setor de serviços e comércio em evidência, que geralmente emprega pessoas com menor grau de instrução. Segundo o IBGE, em setembro de 2020, batemos um novo recorde, com 13,8 milhões de brasileiros sem emprego.

Nessa conjuntura, a pandemia traz consigo, além dos problemas relacionados ao setor de saúde, o desemprego, problema que, para ser resolvido de maneira efetiva, ações relacionadas às políticas públicas devem ser tomadas imediatamente, pois a questão não afeta somente os índices de desemprego de nosso país, mas também carrega uma extensa bagagem de desigualdade social. Nela, fatores como pobreza, miséria e fome são evidenciados pelo descaso com a população, que é forçada a trabalhar em condições desfavoráveis. A falta de ações originadas do Governo Federal, voltadas para a raiz do problema, podem causar danos de difícil reversibilidade a curto prazo, abrindo uma lacuna para que o problema se agrave cada vez mais.

As primeiras demissões atingiram, principalmente, a rede de trabalhadores em situação de precariedade. Motivados pela informalidade, os servidores não podem usufruir de garantias trabalhistas, como Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e/ou seguro-desemprego, direitos que asseguram o amparo do trabalhador após sua demissão, entre outros recursos ligados ao sistema de proteção social vinculados à carteira de trabalho assinada.

É importante frisar que o governo brasileiro criou medidas de amparo econômico, como por exemplo, o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, que permite que empresas reduzam os salários e jornadas dos funcionários ou suspendam seus contratos temporariamente, mas a medida é destinada para os trabalhadores formais, excluindo aqueles que vivem do trabalho informal. Além disso, é inevitável deixar de citar o Auxílio Emergencial, também criado pelo Governo Federal, a fim de assegurar uma renda mínima aos brasileiros em situação mais vulnerável. Essa medida foi uma ajuda significativa para esse grupo, bem como ajudou a prevenir uma queda maior do PIB brasileiro.

Porém, o embaraço da desigualdade ficará ainda mais evidente com o fim do auxílio, previsto para o começo de 2021, e, sem previsões concretas para a erradicação ou controle majoritário do coronavírus, o desenvolvimento econômico fica, mais uma vez, de lado no plano de governo. A longo prazo, os altos índices de desemprego têm consequências diretas nos índices de desigualdade no país, um fator que deve ser levado em consideração.

Fica evidente, portanto, a necessidade de ações governamentais para controlar consequências negativas a longo prazo para esse setor da economia brasileira. É preciso que investimentos sejam destinados para programas de auxílio, especialmente para as camadas mais vulneráveis, durante a pandemia.  Sem estas variáveis consideradas, será desafiador prospectar um cenário positivo com relação aos problemas apresentados, pois o que está sendo discutido agora é onde serão aplicados os cortes de gastos em 2021, período que ainda estaremos enfrentando a pandemia, e não um plano efetivo de retomada econômica, que atuaria como fator determinante para uma recuperação na empregabilidade do nosso país, englobando, inclusive a própria estratégia nacional de vacinação contra a COVID-19.


Referências

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NOVAREJO: Pandemia traz mudanças no consumo e nas finanças pessoais 

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SEBRAE/MG. Empreendedorismo em tempos de pandemia. Belo Horizonte, 2020. Disponível em: https://bibliotecas.sebrae.com.br/chronus/ARQUIVOS_CHRONUS/bds/bds. nsf/ead458931bf32f636dc5c9dc1a5de85e/$File/19466.pdf. Acesso em 15 nov. 2020.

VIANA, Bárbara. Pela primeira vez em 30 anos IDH pode cair em todo o mundo em 2020, alerta ONU. Brasil de Fato, 2020. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2020/06/19/pela-primeira-vez-em-30-anos-idh-pode-cair-em-todo-o-mundo-em-2020-alerta-onu. Acesso em: 14 de nov. de 2020.

VIECELI, Leonardo. Desigualdade social deve crescer em razão do coronavírus. Gaúcha ZH Economia, 2020. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/economia/noticia/2020/05/desigualdade-social-deve-crescer-em-razao-do-coronavirus-ck9om6ga300h2015ndprmi54t.html. Acesso em: 10 de nov. de 2020.


AUTORES:

  Roberto Rodolfo Georg Uebel é professor do curso de Relações Internacionais da Faculdade São Francisco de Assis. Doutor em Estudos Estratégicos Internacionais (UFRGS). E-mail: robertouebel@saofranciscodeassis.edu.br. 

  Amanda Raldi é graduanda em Relações Internacionais na Faculdade São Francisco de Assis. E-mail: raldi.amandar@gmail.com.

  Camila Lopes da Costa é graduanda em Relações Internacionais na Faculdade São Francisco de Assis. E-mail: camilalopes0298@gmail.com.

 Caroline Alves dos Santos é graduanda em Relações Internacionais na Faculdade São Francisco de Assis. E-mail: carola.967@hotmail.com.

  Fabio Eduardo Moraes Tavares é graduando em Relações Internacionais na Faculdade São Francisco de Assis. E-mail: fabiomoraesstn7@hotmail.com.

  Jessika Salles da Silva é graduanda em Relações Internacionais na Faculdade São Francisco de Assis. E-mail: jessikasalles@outlook.com.br.

  Laís Silva Peixoto é graduanda em Relações Internacionais na Faculdade São Francisco de Assis. E-mail: laispeixotosilva123@gmail.com.

  Luana Ribeiro é graduanda em Relações Internacionais na Faculdade São Francisco de Assis. E-mail: luanar_ribeiro@hotmail.com.

  Marcos Soares Malgarin é graduando em Relações Internacionais na Faculdade São Francisco de Assis. E-mail: marcos.malgarinsoares@gmail.com.

  Matheus Bitencourt Leite é graduando em Relações Internacionais na Faculdade São Francisco de Assis. E-mail: matheus_b_leite@hotmail.com.

  Roberta Helm é graduanda em Relações Internacionais na Faculdade São Francisco de Assis. E-mail: betahelm2000@gmail.com.


Como citar: UEBEL, Roberto et al. Perspectivas conjunturais para a Economia Brasileira no pós-pandemia. Diálogos Internacionais, vol.7, n.78, dez. 2020. Disponível em: http://www.dialogosinternacionais.com.br/2020/12/perspectivas-conjunturais-para-economia.html

5 de novembro de 2020

O QUAD, a Belt and Road Initiative e a política externa indiana

Volume 7 | Número 77 | Nov. 2020

Belt and Road Initiative, Wikipedia.


Por João Miguel Villas-Bôas Barcellos

Introdução

Os Ministros das Relações Exteriores de Japão, Índia, Austrália e Estados Unidos encontraram-se no dia 6 de outubro, em Tóquio, para a reunião do QUAD (sigla inglesa para Diálogo de Segurança Quadrilateral). O encontro foi direcionado à China e às vulnerabilidades geopolíticas decorrentes de sua ascensão. Para os quatro países, a região do Indo-Pacífico deve ser “livre e aberta”.

Nesse sentido, o Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, declarou que o grupo deveria ser institucionalizado na forma de um “arranjo de segurança”, pois assim se criaria melhores condições para combater as ameaças chinesas na região do Indo-Pacífico (REJ, 2020). Todavia, é importante ressaltar que Índia, Japão e Austrália têm fortes laços econômicos com a China, que vem ampliando sua infraestrutura geoeconômica por meio do Belt and Road Initiative. Com isso, Beijing oferece potenciais benefícios econômicos aos três países, ao passo que os EUA pouco oferecem para fazer que seus aliados do QUAD se empenhem em uma política externa explícita de contenção chinesa.

A despeito de ser vista como ameaça, a China é a grande potência da vez e nenhum país da região entende que o enfretamento direto lhes traria ganhos palpáveis. Mesmo a Índia, que vem tendo problemas de segurança na fronteira do Himalaia, não pode se dar ao luxo de iniciar uma cruzada contra o segundo principal parceiro comercial. 

Com a eleição de Narendra Modi (Bharatiya Janata Party[2], BJP) ao cargo de primeiro ministro em 2014, a região do leste asiático foi considerada um espaço privilegiado na agenda indiana por meio da política do Act East – iniciativa lançada durante o 12º encontro do grupo ASEAN (SINGH, 2018). Por outro lado, a política externa indiana passou por um redirecionamento e começou a privilegiar os laços com os EUA. Porém, apesar de Washington ter-se tornado o principal parceiro econômico em 2019, a Índia ainda não é vista como aliado fundamental para Washington, como Japão e Austrália que historicamente fazem parte de alianças estratégicas e compartilham uma visão de mundo liberal (SINGH; RANJAN, 2020).

É importante frisar que as relações entre Índia e China foram e ainda são marcadas por tensões, conflitos e disputas. Não obstante haver um contínuo esforço político-diplomático de ambas as partes, o nível de instabilidade e incompreensões é corriqueiro. Os problemas de fronteira ilustram bem esta questão e o efeito psicológico impregnado nas sociedades cumpre, igualmente, o papel de manter a percepção do outro como inimigo ou rival. Exemplo disso são os recentes choques militares na fronteira do Himalaia – Vale de Galwan, Caxemira – quase levando-os à guerra. De todo modo, a despeito de iniciativas dos dois governos, as tensões são inevitáveis uma vez que um dos principais espaços geopolíticos de expansão do poder chinês é o oceano Índico – declaradamente o principal espaço estratégico indiano.


A Belt and Road Initiative e a potencial alternativa à inserção internacional indiana

A Belt and Road Initiative (BRI) é um ambicioso projeto geoeconômico chinês. Uma grande quantidade de países já assinou memorandos de entendimento para entrarem no megaprojeto econômico-comercial chinês (incluindo países europeus, africanos, latino-americanos e asiáticos). Por que a Índia é tão reticente em aderir a tal projeto? Questões de ordem geopolítica ou econômicas? 

Analisando pela ótica das relações econômico-comerciais, o déficit comercial indiano é um dos principais problemas. Há um histórico e considerável superávit chinês no fluxo bilateral de aproximadamente 95 bilhões de dólares (GE, 2019); porém, em função da pandemia tal superávit foi amplamente reduzido. Um desequilíbrio persiste, no entanto, no comércio China-Índia. A Índia está buscando maior acesso ao mercado chinês de produtos agrícolas e também quer fortalecer as trocas entre as pessoas com a China, exportando serviços de software, setor em que a Índia tem vantagem. As diferenças nas estruturas comerciais também preocupam a Índia, que exporta produtos de baixo custo e valor adicionado, como minério de ferro e produtos agrícolas, enquanto as exportações chinesas são bens de maior valor adicionado, como high-tech.

Com efeito, outra sensível questão para a Índia é o problema geopolítico. O país vem tentando conter o “bloqueio” geoeconômico chinês do “colar de pérolas” (string of pearls)[3] que vem sendo fortalecido com o projeto da Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative, BRI) (ASHRAF, 2017). Nesse sentido, a contenção indiana seria o “Grande jogo” chinês (NALAPAT, 2006). A parceria sino-paquistanesa é também motivo de preocupação indiana, principalmente em função do Corredor Econômico China-Paquistão (China-Pakistan Economic Corridor, CPEC), além da cooperação no âmbito militar. 

A participação indiana em arranjos institucionais, como BRICS, Asian Investiment and Infrastructure Bank(AIIB) ou Organização para a Cooperação de Xhangai (OCX) não alterou a desconfiança com que o país enxerga a BRI. Esta percepção decorre, sobretudo, em função das pressões geopolíticas no Índico e da íntima cooperação sino-paquistanesa via CPEC (SACHDEVA, 2018). O CPEC é considerado um problema também, porque, além de se revelar uma ameaça geoeconômica, é um projeto que se utiliza de região reivindicada pela Índia, a Caxemira, ou seja, torna-se um problema de soberania territorial.

Não se pode olvidar que o CPEC dá à China autonomia decisória sobre o uso estratégico do Índico, uma vez que o porto de Gwadar lhe confere status autônomo de uso e ajuda o país a resolver o dilema do estreito de Malaca[4], além de garantir um porto próximo ao Estreito de Ormuz e Golfo Pérsico – região pela qual passa a maior parte do petróleo importado pela China.

É importante salientar que os vizinhos indianos, Nepal, Bangladesh, Sri Lanka e Maldivas, já se associaram a BRI (PANT; PASSI, 2017). Porém, considerando os enormes obstáculos geopolíticos parece que uma possível participação indiana no ambicioso projeto geoeconômico chinês não deve acontecer. Assim sendo, uma das alternativas à BRI é a parceria que vem sendo trabalhada com o Japão para oferecer outra proposta de integração logística e econômica no continente asiático (BORAH, 2019).

Nesse sentido, o Corredor de Crescimento Ásia-África, lançado por Modi e substanciado por um documento de visão conjunta indo-japonesa durante a 52ª reunião anual do Banco Africano de Desenvolvimento, é um passo nessa direção. A Índia também permanece comprometida com o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul - um sistema proposto de transporte multimodal de 7.200 quilômetros (navio, ferroviário e rodoviário) que conecta o Oceano Índico e o Golfo Pérsico ao Mar Cáspio, através do Irã à Rússia e ao norte da Europa – embora o progresso em direção à sua operacionalização permaneça lento. Se a Índia perceber e capitalizar mais opções que não envolvem a China, poderemos acabar vendo uma resposta indiana que não é circunscrita pelos contornos da BRI (CLARKE, 2017).

Para alguns policymakers indianos, a BRI foi concebida como um instrumento para o aumento da influência geopolítica chinesa (PANT; PASSI, 2017). Nesse sentido, o ministro das Relações Exteriores da Índia, o diplomata e filho do grande estrategista K. Subrahmanyam, S. Jaishankar, assim afirma:

Para nós, esta é uma iniciativa nacional chinesa. Os chineses a conceberam, criaram um plano. Não foi uma iniciativa internacional que eles discutiram com o mundo, com países interessados ou afetados por ela (...). Uma iniciativa nacional é criada com interesses nacionais, não cabe a outros comprá-la. A nossa posição é que, se isso é algo sobre o qual eles querem uma participação maior, eles precisam ter discussões maiores, e isso não aconteceu (JAISHANKAR, 2015, online, tradução nossa)

Em 2019, o ministro reiterou a postura indiana de não adesão à BRI, alegando a questão sobre a soberania indiana na Caxemira e ao corredor econômico com o Paquistão (JAISHANKAR, 2019).

Outro ponto importante criticado pelo governo indiano é a armadilha da dívida (debt trap) que condena os países que aderiram à BRI, como Sri Lanka ou Mianmar, a uma dependência econômica, mas igualmente concede à China uma vantagem geopolítica em outras questões que possam envolver esses mesmos países amarrados na teia da dívida com a China.

Todavia, a despeito das críticas e declarações contrárias à BRI, a iniciativa pode ser a grande oportunidade para os investimentos tão necessários em infraestrutura na Índia. Haveria uma possibilidade real de ganhos caso o país resolvesse aderir ao megaprograma de investimentos chineses (JAH, 2016). O autor vai mais além ao dizer que:

O fato incontestável de hoje é que a China tem capital financeiro, tecnologia e, acima de tudo, a necessidade esmagadora, em seu próprio interesse nacional, de acelerar o desenvolvimento desses países a uma extensão que não poderia ser imaginada nem mesmo em meia década atrás. Também é um fato incontestável que os túneis, estradas e ferrovias que ele pretende construir perfuram as muralhas naturais do sul da Ásia, o Himalaia e acabam com a hegemonia geográfica da Índia sobre o resto do sul da Ásia. (JAH, 2016, online, tradução nossa)

A adesão indiana à BRI poderia facilitar, outrossim, o acesso à mercados da Ásia central e outras economias envolvidas no projeto geoeconômico chinês, além do quê, a Índia poderia se transformar em um dos nós da importante rede comercial criada. Outro ponto relevante seria o possível isolamento comercial do país ao não aderir à BRI, pois a conexão econômica e a infraestrutura gerada não integrariam a Índia, gerando consequências negativas à economia indiana (PANT, PASSI, 2017). 

Há, portanto, a despeito dos problemas e limitações citados acima, espaço para ganhos indianos na BRI? Pant e Passi especulam acerca dos possíveis acessos a rotas de comércio abertos pela iniciativa e salientam que, caso a China faça concessões às demandas indianas quanto ao CPEC, seria possível uma cooperação no âmbito da BRI (PANT; PASSI, 2017).

Importante líder do Partido do Congresso (INC, em inglês), oposição ao governo Modi, declarou em mais de uma oportunidade que a Índia deveria participar do projeto BRI, pois não há nada a perder em tal iniciativa. A não inclusão do país no projeto seria uma grave falha na política externa em vigor (TEWARY, 2017). Esta é a mesma percepção do líder do partido Comunista indiano que argumenta que a não participação na BRI pode isolar o país (KARAT, 2017). 

Um questionamento relevante deve ser colocado: a Índia consegue fazer frente ao imenso poder de influência e pressão chinês na região? “Se não puder superar seu inimigo, junte-se a ele”. Seria esta a estratégia indiana de conformação ao projeto de poder de Beijing ou há uma alternativa juntamente com outros parceiros críticos da iniciativa BRI, como Estados Unidos e Japão?

A BRI seria um projeto de conectividade econômica via uma grande rede de infraestrutura que responde à necessidade chinesa de aportar seu excesso de capital e capacidade industrial, aproveitar a demanda externa e exportar serviços, bem como garantir influência política.

Conclusão

A Índia é uma potência militar e econômica com interesses amplos e participação em grupos de geometria variável, como BRICS, IBAS ou OCX, ou seja, como uma nação de poder emergente, Nova Délhi não pode deixar de se beneficiar das relações diversificadas e aproveitar as oportunidades de uma inserção mais autônoma. Desse modo, a política externa indiana deve ser instrumentalizada para extrair os maiores benefícios possíveis das disputas entre Estados Unidos e China de maneira a contemplar seus interesses nacionais e não se comprometer com lados, com o risco de ser arrastada para conflitos desnecessários que apenas lhe prejudicaria.



João Miguel Villas Boas Barcellos é mestre e doutorando no programa em Economia Política Internacional, pela UFRJ.


Referências

CHALLANEY, Brahma. Myths of Kashmir. Project Syndicate, 02, Set. 2019. Disponível em: < https://www.project-syndicate.org/commentary/jammu-kashmir-special-status-india-pakistan-china-terrorism-by-brahma-chellaney-2019-08> . Acesso em: 08/10/2019.

CLARKE, Michael et al. China's Belt and Road Initiative: Views from along the Silk Road. Asia policy, n. 24, p. 65-122, 2017.

GE, Huang. India’s BRI rejection means lost opportunities: experts. Global Times, 04/Ago. 2019. Disponível em : < http://www.globaltimes.cn/content/1145086.shtml#targetText=China%2DIndia%20trade%20rose%2013.2,the%20Chinese%20Ministry%20of%20Commerce.>. Acesso em: 08/10/2019.

JAISHANKAR, Subrahmanyam. India won’t join BRI, it’s concept won’t apply to us. The Economic Times, 04, Out. 2019. Disponível em: < https://economictimes.indiatimes.com/news/politics-and-nation/india-wont-join-bri-its-concept-wont-apply-to-us-jaishankar/articleshow/71441347.cms>. Acesso em: 05/10/2019.

________. IISS Fullerton Lecture by Dr. S. Jaishankar, Foreign Secretary in Singapore. Ministry of External Affairs, 2015. Disponível em: < http://mea. gov. in/Speeches-Statements. Htm >. 

JHA, Prem Shankar. Why India must embrace China’s One Belt One Road plan. The Wire, 2016.

JOSHI, Manoj. Fresh overtures hint at a thaw in India-China relations. AsianTimes, Março, 2018. Disponível em: < https://www.asiatimes.com/2018/03/opinion/fresh-overtures-hint-thaw-india-china-relations/>. Acesso em: 08/10/2019.

KARAT, P. Belt and Road initiative: Blinkered view of government. People’s Democracy, 21, Mai. 2017. Disponível em: <https://peoplesdemocracy.in/2017/0521_pd/belt-and-road-initiative-blinkered-view-government>. Acesso em: 08/10/2019.

REJ, Abhjinan. QUAD Foreign Ministers Meet in Tokyo Amid Post-Pandemic Concerns. The Diplomat, 07/10/2020. Disponível em:< https://thediplomat.com/2020/10/quad-foreign-ministers-meet-in-tokyo-amid-post-pandemic-concerns/>. Acesso em: 18/10/2020.

SINGH, Lakhinder; RANJAN, Rajiv. The Quad: Is it a strategic mirage for India? Asian Times, 13/10/2020. Disponível em:< https://asiatimes.com/2020/10/the-quad-is-it-a-strategic-mirage orindia/?fbclid=IwAR1yn7m4BDEf2xvOK7azHUC6Gv5MInI8fTUhvqJaU0HappqxSHDBUbzhi3g>. Acesso em: 18/10/2020.

SACHDEVA, Gulshan. Indian perceptions of the Chinese Belt and Road initiative. International Studies, v. 55, n. 4, p. 285-296, 2018. 

TEWARI, Manish. OBOR is the Grandest Failure of Indian Foreign Policy. The Indian Express (Online). 17. Mai. 2017.


[2] “Partido do Povo Indiano”, tradução nossa.

[3] Este conceito remete à ideia de que a Índia está cercada por uma rede de bases militares, portos e constrangimentos econômicos chineses. Para mais informação ver: KHURANA, Gurpreet S. China's ‘String of Pearls’ in the Indian Ocean and Its Security Implications. Strategic Analysis, v. 32, n. 1, p. 1-39, 2008.

[4] O problema do Estreito de Malaca é que é uma região geopoliticamente vulnerável, pois pode ser bloqueado ou ter seu acesso dificultado em caso de conflito com a Índia ou Estados Unidos e comprometer o grande fluxo de comércio que passa por ali.


Como citar: BARCELLOS, João Miguel Vilas-Bôas. O QUAD, a Belt and Road Initiative e a política externa indiana. Diálogos Internacionais, vol.7, n.77, nov. 2020. Disponível em: http://www.dialogosinternacionais.com.br/2020/11/o-quad-belt-and-road-initiative-e.html