13 de maio de 2020

EUA, OMS e a cartada da ilusão institucional

Volume 7 | Número 71 | Mai. 2020




Por Luiz Felipe Brandão Osório 
Publicado originalmente no site da rádio Mundial News FM




O noticiário nacional e internacional destacou, em tom de repúdio, a suspensão no financiamento dos Estados Unidos à Organização Mundial de Saúde (OMS), em meio a uma das mais graves pandemias do século. O motivo alegado foi a insatisfação do governo estadunidense quanto às respostas e a eficiência da ação da organização internacional, a qual ele acusa de ter sido omissa e conivente com a sonegação de informações e com a conduta da China. Vários países e a própria Organização das Nações Unidas (ONU) lamentaram a decisão. A OMS lançou uma nota de repúdio, afirmando ser o momento de solidariedade e união e não de conflitos. Em princípio, parece ser uma estratégia pouco sensata e colaborativa, pois o organismo internacional sanitário concentra a coordenação de ações pelo mundo no combate à pandemia, que afeta a maioria esmagadora dos países, inclusive os norte-americanos. O que significa esse movimento? Qual é o impacto real desse corte de recursos?

A OMS tem seu orçamento constituído por contribuições obrigatórias dos países-membros, calculada conforme o respectivo Produto Interno Bruto (PIB), o que perfaz 20% do total, além de contribuições voluntárias (oriundas de doadores privados e organizações não governamentais), as quais correspondem aos 80% restantes. Para 2020, a previsão orçamentária é de 4,4 bilhões de dólares[1]. O montante não é elevado, se comparado com outras organizações e mesmo com instituições sanitárias nacionais. Ademais, a suspensão do financiamento dos Estados Unidos representa o corte de recursos do país com a maior contribuição obrigatória, o que equivale a 10% do total (235 bilhões de taxa obrigatória, com ainda 10 milhões de auxílio voluntário)[2]. Para efeitos de comparação, por exemplo, a China, apontada por Trump como favorecida, contribui com 86 milhões obrigatoriamente e mais 10 milhões voluntariamente. A instituição internacional possui a importante tarefa de intercambiar informações, fazer recomendações aos sistemas de saúde e, principalmente, de coordenar campanhas e ações para o combate de pandemias. Atividades que, por ora, parecem ainda mais relevantes e que ficarão comprometidas. Como interpretar, portanto, a jogada dos Estados Unidos? Como (ou se) sentirá o mundo esse baque?

Duas visões supostamente distintas predominaram. A da extrema-direita que é vulgar e direta, da qual Trump é caudatário, de que as instituições internacionais são peças do globalismo, do multiculturalismo e empecilhos das políticas nacionalistas. Logo, elas devem ser combatidas e enfrentadas. No caso específico da COVID-19, a OMS estaria favorecendo a China, epicentro e difusor do vírus, com o intuito de tomar a liderança mundial dos Estados Unidos. As instituições seriam o resultado de um consenso à esquerda que alijaria a direita do centro de decisão. A OMS estaria ao lado do inimigo externo do momento, os chineses, em função de não condená-los sumariamente pela irradiação da pandemia e, portanto, não pode contar com a colaboração financeira dos Estados Unidos. Junto dessa vertente, emerge uma posição que se coloca como sua antípoda, a crítica à extrema-direita pela defesa da institucionalidade.

11 de maio de 2020

Estado Islamico e a COVID-19

Volume 7 | Número 71 | Mai. 2020




Por Jessika Cardoso de Medeiros

Desde o início de 2020, os noticiários do mundo estão alertando sobre o avanço e cuidados a serem tomados para se combater e prevenir contra o novo corona vírus (COVID-19). Os Estados estão empregando inúmeras medidas sociais, econômicas e políticas e, seguindo as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), tais como lavar as mãos frequentemente, distanciamento social, evitar tocar olhos/boca/nariz.

No entanto, sabe-se que os atores internacionais capazes de tomar decisões não são somente Estados Nações. Existem os atores não-Estatais que influenciam e movimentam debates internacionais, tais como o Estado Islâmico. O grupo, embora tenha perdido a maior parte de seu território, ainda possui alguns domínios e, principalmente, suas atividades midiáticas online continuam a serem produzidas e disseminadas.

Deste modo, em conformidade com o que está acontecendo no mundo com a pandemia da COVID-19, declarada no dia 11 de março pelo Diretor Geral da OMS, o Estado Islâmico no dia 12 de março publicou na edição nº 225 da Al Naba uma página com orientações de prevenção para seus seguidores.

7 de maio de 2020

Do sonho ao pesadelo: o imobilismo europeu

Volume 7 | Número 71 | Mai. 2020




Por Luiz Felipe Brandão Osório 
Publicado originalmente no site da rádio Mundial News FM




Cantada em verso e prosa como o símbolo da pós-modernidade, a União Europeia entrou na mira dos holofotes mundiais. Foi objeto de discussão nas mais variadas searas, pelo direito, pela política, pela economia, pelas relações internacionais, e foi vendida como o farol que guiaria o mundo pós-bipolaridade, pós-Guerra Fria. Não coincidentemente iniciativas semelhantes foram empreendidas em todos os continentes do globo[1]. A razão do entusiasmo com o experimento europeu significava a diluição dos conflitos históricos no aprofundamento das relações econômicas e comerciais entre as nações, de maneira a afastar o espectro da guerra, diante da tamanha inter-relação, de complementaridade e dependência das economias nacionais entre si[2]. Em outras palavras, travar uma guerra com os vizinhos seria irracional, pois afetaria diretamente os interesses econômicos do próprio país. Esse raciocínio baseava-se no laboratório europeu ocidental que gradativamente foi costurando acordos em várias áreas até englobá-los em um grande guarda-chuva, a União Europeia, concretizada no pós-1991. E a paz duradoura [sic][3] no continente europeu se dera em função da cooperação e da integração regional do pós-Segunda Guerra Mundial.

Se fosse possível hierarquizar os sonhos do mundo, da nova ordem mundial, a utopia da União Europeia estaria no topo[4]. Sobrevivendo e caminhando em meio a tropeços eventuais, a União Europeia, desde 1993, foi crescendo como um gigante com pés de barro. E na primeira grande crise econômica que enfrentou, a de 2008 (comparada somente com a de 1929), foi levada de roldão, deixando à mostra todas suas fraturas. No rescaldo da crise, pelos anos seguintes, seu descrédito e sua desaprovação foram crescendo consideravelmente a ponto de o Reino Unido abandonar o barco em respeito à vontade popular[5]. Não que a saída dos britânicos tenha sido um duro golpe, foi apenas um leve arranhão (em ambas as partes), dado que o país sempre se portou com distanciamento em relação ao bloco. O sinal de esgotamento maior pode ter sido dado com a COVID-19.

A pandemia expõe as vísceras da União Europeia, desnudando-a por completo. A total falta de solidariedade e o tratamento nacional dado no combate ao vírus destoam de tudo que os europeus apregoaram por anos a todo o mundo: as fronteiras e a soberania nacional não foram diluídas, e os conflitos não foram equacionados. Os países do bloco foram deixados à deriva, lutando contra a própria sorte em meio ao caos nos sistemas de saúde. Imagens, relatos e dados colocam de joelhos o centro do capitalismo mundial, desde os Estados Unidos, por hegemônico, até os seus sócios menores do velho continente (os quais somados, com exceção da Alemanha, contabilizam 73% das mortes pela pandemia no globo)[6]. Fica evidente, portanto, a total incapacidade da União Europeia de atuar conjuntamente para além da política monetária ortodoxa e da custosa e inútil burocracia de Bruxelas.