4 de março de 2019

Geoeconomia e Geopolítica na Venezuela

Por Bernardo Salgado Rodrigues


Lattuff Cartoons



Em fevereiro de 2019, a Venezuela esteve presente em praticamente todos os noticiários brasileiros. A grave crise que alastra o país foi tema de acaloradas discussões entre chefes de Estado, centros de pesquisa, universidades, meios de comunicação e redes sociais. Nunca antes na história brasileira existiram tantos especialistas sobre o país sul-americano e caribenho.

Para além de um juízo de valor, ideológico ou humanitário acerca dos acontecimentos recentes em nosso vizinho amazônico, é papel do pesquisador acadêmico em relações internacionais analisar de forma racional. Assim, é imprescindível reflexionar e realizar a diferenciação científica entre geoeconomia e geopolítica tomando como referência a Venezuela na atualidade, com a finalidade de avaliar os acontecimentos do tempo presente e, ainda, como uma forma didática de aprendizado. 

A geoeconomia se define como o uso de instrumentos econômicos para fins geopolíticos, tal qual definido por Blackwill e Harris (2016, p.20): "the use of economic instruments to promote and defend national interests, and to produce beneficial geopolitical results; and the effects of other nations’ economic actions on a country’s geopolitical goals[1]."Deste modo, caso hajam ganhos geopolíticos, o custo econômico é secundário, podendo até mesmo haver gastos maiores que lucros; o que importa é estabelecer áreas de influência ou impossibilitar caminhos autônomos e independentes de outros países. Assim, segundo Blackwill e Harris (2016, p.49), a geoeconomia é centrada na utilização de sete ferramentas econômicas: política comercial, política de investimento, sanções econômicas e financeiras, ciberataques, subsídios econômicos, política financeiro-monetária e energia e commodities. 

27 de fevereiro de 2019

Breves apontamentos sobre a escatologia cristã dispencionalista e as transferências de embaixadas a Jerusalém

Por: Simone Kawakami Gonçalves Costa 

EBC


O sistema internacional está dando mostras de que vem sofrendo de um abalo. A ascensão de governos de direita na América do Sul, dentre os quais se destaca o resultado recente do pleito eleitoral brasileiro, está abrindo um momento de incertezas renovadas em distintos aspectos, incluindo a geopolítica regional. A busca do governo brasileiro chefiado por Bolsonaro pela aproximação com os Estados Unidos, e as renovadas juras de lealdade política, econômica e ideológica, atinge um patamar até então inédito na história recente. Isso ocorre em uma conjuntura marcada pela tentativa de imposição de uma nova agenda estadunidense, com a guerra comercial contra China, a crise interna pela tentativa de construir o muro na fronteira com o México, e o anúncio de uma cruzada direitista patrocinada por Steve Bannon, ex-assessor de Trump que anuncia o intento de unificar a ultradireita mundial, em uma espécie de “Internacional da Reação”. Um dos efeitos imediatos dessa conjunção de fatores foi a adoção de contraditórias pautas de política externa no Brasil, como a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. 

O tema segue dividindo as alas internas do atual governo. O setor militar, na figura do vice-presidente general Hamilton Mourão, seguido pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, reiteraram que a transferência da embaixada brasileira, uma das primeiras declarações dadas logo que o novo governo subiu ao poder, ainda está sendo estudada. Os efeitos econômicos que a medida possivelmente traria, como uma retaliação por parte dos países árabes a quem o país exporta grande parte de sua produção de carne, rapidamente foram lembrados pelos grandes meios de comunicação. No entanto, a controversa proposta foi entusiasticamente saudada por outros membros do governo, sobretudo àqueles ligados à Frente Parlamentar Evangélica. As motivações do apoio entusiástico desse setor a uma medida tão controversa se revestiu como um tema digno de interesse, e que traz novas interrogantes.

25 de fevereiro de 2019

General Mourão e sua Diplomacia vice-presidencial

Por Larissa Rosevics



31/01/2019 Vice-Presidente, Hamilton Mourão durante audiência com Embaixador do Canadá - Sr. Riccardo SavoneMinistro-Conselheiro - Sr. Juan-Pablo ValdesConselheira Comercial - Sra. Bonny Berger. Foto: Romério Cunha.
 


Na Constituição brasileira de 1988, as relações exteriores do Brasil são de competência privativa do Presidente da República. O Ministro das Relações Exteriores é responsável por auxiliar o presidente na elaboração e execução da política externa, sendo seu substituto imediato. 

Apesar da previsão constitucional, poucos foram os presidentes brasileiros que tiveram uma participação ativa em assuntos de política externa, como no caso dos governos de FHC e Lula da Silva. A tradição da política externa brasileira é a de que a principal voz internacional do país seja a do Ministro das Relações Exteriores.

No governo de Jair Bolsonaro, ainda não está claro quem será o protagonista da política externa brasileira. Aparentemente, o presidente não demonstra grande interesse em exercer uma Diplomacia Presidencial, tal qual seus antecessores, conforme pode ser observado na sua atuação pouco expressiva em Davos, e a repercussão negativa que teve internacionalmente. Mesmo a aproximação com líderes ideologicamente próximos ao presidente, como Victor Orbán, primeiro ministro da Hungria, Benjamin Netanyahu, primeiro ministro de Israel, e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, não apresentaram resultados expressivos. O Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, tampouco parece agradar as diferentes alas do governo e da elite econômica nacional, com seu posicionamento ideológico anti globalista.

O cenário que parece se desenhar é de protagonismo do vice-presidente, Hamilton Mourão, em matéria de política externa, com uma improvável Diplomacia Vice- Presidencial.

11 de fevereiro de 2019

O papel da UNDP e a importância da sociedade civil na implementação do ODS 14

Por Francisco Marzinotto





ONU: Plataforma Agenda 2030. 


A chegada de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos significou um ataque aos interesses da comunidade internacional e ao multilateralismo da ONU. O discurso de America First do presidente em detrimento da governança global é perceptível ao se analisar os pronunciamentos na mídia e em plataformas internacionais de debate[1]. Sua eleição resultou na saída dos EUA da UNESCO, na retirada do Conselho de Direitos Humanos da ONU e no abandono do acordo de Paris sobre o clima. No Brasil, algo similar está acontecendo após a eleição de Jair Bolsonaro. Em um momento de nacionalismo exacerbado, que resulta no abandono de iniciativas mundiais para o desenvolvimento humano, se faz necessário um constante debate e reflexão acerca do papel das Organizações Internacionais e dos progressos mundiais alcançados através da cooperação internacional entre Estados e a sociedade civil.

A Nações Unidas surgiu após a Segunda Guerra como uma forma de reestruturar as relações internacionais do pós-guerra. Os objetivos centrais no contexto de sua fundação eram manter a paz e a segurança internacionais, fortalecer as relações entre as nações, fomentar a cooperação internacional e ser um cerne de debate para que tais objetivos e a paz universal fossem alcançados.[2]


Ao decorrer das décadas, os encargos da ONU foram ampliados e novos temas de interesse da comunidade internacional foram inseridos em sua agenda. A discussão sobre o meio ambiente emergiu na organização através da Conferência de Estocolmo de 1972, que é considerada a primeira ação mundial de preservação ambiental. O encontro resultou no documento Declaração de Estocolmo Sobre o Ambiente Humano[3], que estabeleceu os princípios básicos de proteção ambiental, que mais tarde evoluiriam ao conceito de desenvolvimento sustentável. Desde o início, houve um conflito entre os ambientalistas e os industriais que promoviam o desenvolvimento econômico, pois grande parte deste último levava à degradação ambiental.

Maria Ivanova e Gabriela Bueno (2016)[4]versam sobre a evolução da cooperação internacional sobre as questões ambientais na ONU. Desde a Conferência de Estocolmo, o processo de inserção do tema na arena internacional se acentuou e diversos tratados e instituições internacionais de proteção ambiental surgiram através da organização. Em 1987, o conceito de desenvolvimento sustentável foi apresentado através do Relatório de Brundtland[5], intitulado Nosso Futuro Comum, que destaca sua principal característica: harmonizar os interesses econômicos com questões sociais e ambientais. Assim, surgiu a tentativa de conciliar os interesses dos ambientalistas com o desenvolvimento econômico.