18 de junho de 2018

O papel da guerra na conformação da ordem mundial

Por Bernardo Salgado Rodrigues*



Desde a constatação dos primeiros primatas, a violência acompanhou o homo sapiens em seu processo evolucionário. Neste trajeto, com a formação de grupos nômades surgiram também os primeiros conflitos internos, que se separavam dos conflitos externos com outros grupos, interpretado como a forma primitiva do fenômeno da guerra, que se transforma numa condição da unidade e da identidade interna de cada um destes grupos ou tribos. A guerra, tal qual a conhecemos na atualidade, somente viria a surgir com a formação das fronteiras territoriais e com a ascensão dos primeiros impérios e civilizações, aproximadamente no terceiro milênio antes da Era Cristã, se generalizando e se transformando no principal instrumento organizado e sistemático de conquista e de dominação entre os povos e os impérios. Qualitativamente, a guerra começa a sofrer uma mudança substancial a partir dos séculos X e XI d.C., com o aumento da competição interna e da centralização do poder, com o início da expansão externa dos pequenos poderes territoriais europeus que dariam origem aos Estados nacionais da Era Moderna, com o Tratado de Vestfália de 1648, e com o papel do poder e da guerra na formação, expansão e globalização do sistema europeu de Estados e economias nacionais.

Essa originalidade dos europeus − tanto na criação dos Estados nacionais como em fazer da própria guerra um mecanismo regular de acumulação de riqueza e, simultaneamente, fazer da acumulação da riqueza um instrumento regular de conquista e acumulação de poder − transformou a guerra em componente sistêmico do processo de expansão do poder e do território dos Estados e do próprio sistema estatal como um todo dentro e fora da Europa. Num sistema global de poder que se configura pela assimetria, hierarquia e competição, há um elo histórico entre a guerra e o estabelecimento de um mercado mundial e economia global, cuja ordem econômica e política internacional se configura como variável dependente e, como variável independente, a guerra. 

11 de junho de 2018

Doutrina Trump: As implicações ao tradicional alinhamento transatlântico

Por Fernando Rocha Vieira


Pixabay


A vitória de Trump na corrida pela presidência dos Estados Unidos salienta a preferência do eleitorado estadunidense pela proposta isolacionista cujo discurso se assenta na sobreposição dos interesses da segurança nacional em detrimento ao padrão dos governos anteriores, sobretudo ao de Obama, de ação multilateral no sistema internacional para ganhos mútuos. Ainda que, implicitamente, a razão da conquista do novo governo deva-se estritamente ao desagrado da fuga de empregos para países periféricos, e não contra a posição de predominância no âmbito internacional, a política externa realista unilateral da doutrina Trump se distingue das demais em função da distensão de estratégias e objetivos historicamente comuns à parceria dos Estados Unidos com a Europa ocidental.

30 de maio de 2018

Luiz Felipe Osório publica reflexão radical sobre o Imperialismo

Publicado originalmente no site OEstadoRJ de 30/04/2018

Livro pode ser encontrado na Saraiva, Cultura e Travessa


Luiz Felipe Brandão Osório, professor e coordenador da graduação em relações internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), lança Imperialismo, Estado e Relações Internacionais pela Série Direito e Críticada Editora Ideias & Letras.

A obra expõe uma leitura crítica e radical sobre o imperialismo e sua implicação no âmbito das relações internacionais: atrelando estruturalmente imperialismo a capitalismo.

Segundo Osório, a dominação capitalista necessariamente se faz mediante a forma política estatal, mas esta se desenvolveu no plural, em Estados, erigindo, nesse espaço concorrencial da valorização do valor, o imperialismo. Este livro enfatiza a importância de pensar a multiplicidade de Estados como traço estruturante do capitalismo, em similitude às ideias de Claudia von Braunmühl.

A mais alta investigação a respeito do tema

Osório propõe aqui que as leituras marxistas sobre o imperialismo sejam compreendidas a partir de grandes momentos históricos que lhe forneceram bases. Denomina por debate pioneiro o pensamento do final do século XIX e do início do século XX, perpassando as ideias de Hilferding, Rosa Luxemburgo, Kautsky, Bukharin e Lênin. Em sequência, sistematiza o pensamento a respeito do imperialismo produzido ao tempo do fordismo, nos meados do século XX. Aqui estão enfeixadas as leituras do capital monopolista, as teorias marxistas da dependência e, ainda, as visões de Wallerstein, Arrighi e Amin. Por fim, abre-se a reflexão sobre o imperialismo nos tempos do pós-fordismo, produzindo, desde as últimas décadas do século XX até hoje, a mais alta investigação teórica a respeito do tema.

Politicismo, parcial politicismo e plena crítica

Muito do debate crítico das décadas atuais esteve centrado na dicotomia imperialismo versus Império, envolvido pelos termos de Negri. Avançando para além disso, Osório propõe que a reflexão marxista sobre o imperialismo na atualidade pós-fordista seja pensada a partir dos diapasões de politicismo, parcial politicismo e plena crítica.

O autor

Luiz Felipe Brandão Osório tem graduação em direito pela UFJF, mestrado e doutorado em economia política internacional pela UFRJ e pós-doutorado em ciências sociais aplicadas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente é professor e Coordenador do Curso de Relações Internacionais da UFRRJ.

28 de maio de 2018

Batman e Foucault

Por Jessika Cardoso de Medeiros



Pode parecer um pouco estranho a primeira vista, mas Batman, o herói criado pela DC Comics em 1939, é um personagem interessante para compreender a obra “Vigiar e Punir” de Michel Foucault. Batman se enquadra e dialoga com alguns dos conceitos presentes no livro, uma vez que o personagem trabalha com a ideia de punir quem está errado, ao mesmo tempo em que espalha o medo por está constantemente vigiando as ações desses criminosos, fazendo com que os mesmos possam refletir antes de agir, temendo possíveis consequências.

Tendo como referência o filme "Batman - O Cavaleiro das Trevas", lançado em 2008, é possível perceber que nele o personagem é colocado em cheque por uma mente criminosa doentia, conhecida como Coringa, que tem o objetivo fazer da cidade de Gotham uma anarquia dominada pelo medo. O Batman é, acima de tudo, um símbolo dúbio que, ao mesmo tempo em que carrega consigo a ideia de segurança, porque protege as ruas da cidade do crime, também arca com o estigma de justiceiro mascarado, o que poderia ser interpretado como um criminoso.