30 de março de 2020

Os timoneiros fundadores da China Contemporânea

Volume 7 | Número 69 | Mar. 2020

Por Bernardo Salgado Rodrigues



Wikipedia. Shanghai, Pudong Lujiazui.


Nas últimas décadas, a China vem alcançando taxas de desenvolvimento incontestáveis, modificando as relações de poder no sistema internacional. Entretanto, a chave interpretativa para compreender os rumos da potência asiática são anteriores ao tempo presente. Em grande medida, destaca-se a influência de três figuras emblemáticas, três “timoneiros fundadores”, os “homens do leme”, que exerceram liderança em seus tempos históricos, reverberando e influenciando os rumos do dragão chinês até a contemporaneidade.

Confúcio é a personalidade que melhor sintetiza a “fundação” da cultura chinesa. “Os Anacletos”, uma compilação da coleção central de seus ditados, vem servindo para a qualificação da burocracia imperial, principalmente a partir da dinastia Han (206a.C.-220 d.C.), ao adotar o pensamento confucionista como a filosofia oficial do Estado. O ponto central do pensamento confucionista são os princípios da não agressão e da busca pela harmonia (BURGER, 2018, p.190) social e superior, que não consiste apenas num pensamento filosófico, mas num guia de ação estratégico, com elementos relacionados à administração do Estado. Desta forma, se apresenta como “um fenômeno cultural chinês, surgido no século V a.C. e que se manteve por mais de 2.500 anos e se confunde com o destino de toda a civilização chinesa.” (LIMA, 2018, p.36)

Para seus adeptos, a ordem confucionista oferecia a inspiração de servir na busca de uma harmonia superior. Ao contrário de profetas de religiões monoteístas, Confúcio não pregava nenhuma teleologia da história conduzindo a humanidade à redenção pessoal. Sua filosofia buscava a redenção do Estado mediante o comportamento individual correto. Orientado para esse mundo, seu pensamento afirmava um código de conduta social, não um caminho para a vida após a morte. (KISSINGER, 2011, pp.32-33)

25 de março de 2020

Uma “imagem” vale mais do que mil palavras: a visão internacional sobre a China em tempos de coronavírus

Volume 7 | Número 69 | Mar. 2020

Alana Camoça[1]




Diante das hierarquias de poder, das disparidades econômicas e de características históricas do próprio sistema, ideias e narrativas são proferidas, pairam como palavra de ordem e retroalimentam as dinâmicas existentes que afetam a imagem dos países no sistema internacional. Em “O Príncipe”, Maquiavel já nos informava que a política se constrói em um ambiente onde não é possível diferenciar o “ser” do “parecer” e mesmo que o Príncipe não seja piedoso, fiel, humano e íntegro, ele deve parecer ser tudo isso.

Questões sobre a imagem dos países no cenário internacional nos permite refletir sobre transição hegemônica e prestígio (Schweller; Pu, 2011), se quisermos seguir com uma literatura realista; sobre o poder das ideias e as concepções de identidade (Adler, 1999), se formos para o construtivismo; ou até mesmo sobre a ideia de soft power (Nye, 1990), caso sigamos com a vertente liberal; ou ainda sobre a hegemonia em uma concepção gramsciana (Cox, 1986), caso optemos por correntes de matriz marxista e da teoria crítica. Fora estas correntes tradicionais, existem diversas outras teorias de RI que debatem, cada qual com suas particularidades e diferenças, sobre a questão da imagem, da figura do “Eu” e do “Outro” nas relações internacionais (Campbell, 1992).

No século XXI, a China vem modificando os cenários geopolíticos e geoeconômicos do mundo e, por esse motivo, vem ganhando cada vez mais notoriedade nos estudos de relações internacionais e tem estimulado visões pessimistas proliferadas no ocidente sobre a ascensão do gigante asiático. De 2001 até 2008, ao passo que o gigante asiático crescia, o país buscou dispensar os medos de que uma China em crescimento seria uma ameaça para o sistema e com isso, discursos sobre sua ascensão pacífica, desenvolvimento pacífico e mundo harmonioso foram enaltecidos. Todavia, a despeito dos constantes discursos chineses entoados sobre seu pacifismo, da ajuda do gigante asiático aos EUA durante a Guerra ao Terror e do comportamento comedido do mesmo no seu entorno regional (Zhao, 2015), o país continuou sendo apresentado de forma negativa e com desconfiança nas mídias e na academia ocidental (Mearsheimer, 2001).

23 de março de 2020

O que é o Império do Meio?

Volume 7 | Número 69 | Mar. 2020

Por Bernardo Salgado Rodrigues





Uma das tarefas mais complexas no estudo das relações internacionais é compreender a China: uma civilização milenar, com tradições visualizadas no cotidiano contemporâneo, cuja história contradiz o conceito ocidental de Estado-nação convencional, com uma íntima ligação com o passado antigo e os princípios clássicos de estratégia e arte de governar (KISSINGER, 2011, p.20). Ainda assim, algumas observações importantes podem ser realizadas, visando uma discussão ulterior mais profunda.

Nesta tentativa de concepção da China, considera-se relevante o conceito milenar de Tiãnxiá[1]. Este consiste na representação de um sistema que permitiria a garantia da ordem universal como objetivo maior da política, distinto do estágio de caos, conflito, não cooperação e anarquia do sistema internacional contemporâneo. Portanto, a pedra angular da política externa chinesa seria a ideia de uma comunidade de destino compartilhado (MAÇÃES, 2018, pp.26-27), atravessada pelo respeito à noção de soberania dos demais países, uma vez que a harmonia é a condição ontológica para a existência e desenvolvimento das coisas (LIMA, 2018, pp.34-35). Em outros termos, este é um conceito que forma a visão de mundo de centralidade e grandeza da China vis-à-vis sua interação com o restante do mundo (ECONOMY; LEVI, 2014, p.14), tanto no passado quanto no presente, percebendo-se a si mesma como zhongguo, o “Império do Meio” (中国).