21 de agosto de 2017

Efeitos de uma sanção

Por Larissa Caroline Souza da Silva




Nos últimos dias de julho, o mundo assistiu a uma possível nova virada no que tange as relações entre o governo Trump e a Rússia com a votação e aprovação no congresso americano de um novo pacote de sanções contra o país do presidente Vladimir Putin.

Qualquer breve passagem pela história do mundo constatará que as relações entre Estados Unidos e Rússia nunca foram das mais fáceis. Se na Guerra Fria, URSS e EUA disputavam em meio à bipolaridade do pós-segunda guerra mundial, na atualidade, Estados Unidos e Rússia não mantêm laços diplomáticos estreitos.

Uma prova desse relacionamento não muito próximo foi o governo de Barack  Obama, que terminou ano passado, no qual se chegou ao nível mais baixo de relação entre esses países desde a Guerra Fria, após as sanções também terem sido impostas pelos Estados Unidos aos russos por causa da intervenção na Ucrânia.

Já o atual governo de Donald Trump chama atenção desde a eleição pela sua proximidade com a Rússia, o que causa agitação e, consequentemente, respostas por parte dos seus opositores e aqueles que são contrários a tal postura assumida pelo novo presidente. São episódios como a suposta revelação sobre potenciais ameaças do Estados Islâmico ao chanceler russo, Sergei Lavror, e notícias como a renúncia de Michael Flynn devido ao contato que esse manteve com autoridades russas – e sua mentira sobre esse assunto - que fazem com que essa relação entre o governo Trump e a Rússia seja um assunto tão comentado na imprensa internacional e norte-americana. Além disso, vale relembrar o encontro de Trump com Putin na reunião do G-20 que até então era mantido em segredo, mas foi descoberto pela imprensa e, mais uma vez, o governo se viu fragilizado [1].

Todavia a resposta do Congresso e dos deputados norte-americanos veio na última semana de julho, quando esses votaram pela ampliação do pacote de sanções contra a Rússia por interferências na eleição presidencial de 2016 e por causa da anexação da Crimeia. Ademais, esse novo pacote limita qualquer poder ou interferência que Donald Trump possa ter no assunto sanções contra Moscou.

Essa ação do Congresso norte-americano gerou uma resposta do governo russo e um discurso de que a posição de Washington seria equivalente a uma “russofobia”. O tom do presidente russo, Vladimir Putin, foi de que essa atitude fere as relações internacionais e, principalmente, o direito internacional.

A posição assumida por Moscou foi de que respostas eram necessárias já que a postura dos norte-americanos forçava uma decisão por parte dos russos. E única resposta possível, no momento, que eles encontraram foi a de reduzir, a partir de 1° de setembro, o contingente americano em território russo. Este contingente será reduzido para um número de 455 pessoas que estarão autorizadas a despachar a partir da embaixada dos Estados Unidos e dos Consulados que estão instalados dentro do território russo. Além disso, Moscou também impediu a utilização, do meio diplomático norte-americano, de residência e armazéns na capital russa. [2]

Todas essas movimentações são respostas as sanções que devem ser aceitas pelo presidente Donald Trump para evitar maior pressão e represálias ao seu governo que já enfrenta grandes conflitos internos.

Todavia, chama a atenção as possíveis consequências que essa ampliação do pacote pode trazer para as empresas europeias e os países da União Europeia como Alemanha que mantém acordos e negócios envolvendo a questão energética com empresas russas como a Gazprom. Já que agora elas não se restringem mais apenas a pessoas próximas ou ligadas ao governo, mas as empresas russas. Por isso, não é de se estranhar que a ministra de economia da Alemanha, Brigitte Zypries, tenha pedido que os Estados Unidos discutam com a União Europeia os efeitos que essas novas sanções podem ter sobre as empresas europeias que poderiam ser punidas junto com os russos.

Esse novo conjunto de sanções pode afetar diretamente projetos como a construção do gasoduto North Stream 1 e 2, que visa ligar a Rússia ao país da chanceler Angela Merkel para passagem de gás. A construção forneceria algo entorno de 55 bilhões de metros cúbicos de gás russo por ano à União Europeia, passando pelo Mar Báltico para chegar a Alemanha [3]. Evitando, assim, a rota mais comum que seria a Ucrânia.

Dessa forma, as consequências dessas sanções não seriam sentidas só pelos russos como também afetariam a União Europeia, principalmente a Alemanha, e seu setor de gás que tem como principal fonte o gás russo. Por isso, não é difícil entender o fato da Alemanha e da União Europeia também se pronunciarem sobre o assunto ao longo da semana que passou.

Por mais que essa nova rodada de sanções contra a Rússia sejam respostas e punições a acontecimentos recentes como a questão da anexação da Crimeia e a interferência dos russos nas eleições norte-americanas, é preciso compreender que efeitos colaterais podem ser sentidos também por parceiros e aliados dos Estados Unidos na Europa visto que essa deve atingir o setor energético europeu que é dependente do gás russo, como já ficou claro durante os acontecimentos na Ucrânia quando esse bloqueou a passagem de gás russo para a Europa em seu território.

Portanto, as consequências e impactos para a Rússia podem ser grandes e uma resposta de Moscou teria que vir de qualquer forma, mas a União Europeia também pode ser bastante afetada em um setor que é crucial para a região: o energético.

Larissa Caroline Souza da Silva é graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
[1] Baseado em http://www.gazetadopovo.com.br/ideias/tudo-o-que-voce-precisa-saber-sobrea-
confusao-entre-trump-e-russia-devso71m6rb7a2scdx6efwueo
[2]Informações baseadas em: https://www.nytimes.com/2017/07/31/world/europe/russiasanctions-
embassy.html

[3] Dados baseados em:http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/07/1904727-ampliacao-desancoes-
dos-eua-a-russia-ameaca-setor-energetico-na-ue.shtml

14 de agosto de 2017

A Teoria do Estado e o consequente papel das Relações Internacionais

Por Thamires Coutinho
* Publicado originalmente no Blog LavraPalavra

 BLOG LAVRAPALABRA


É unanimidade no campo das Relações Internacionais a trivialidade de se pensar e teorizar o Estado na tentativa de se compreender a dinâmica do mundo globalizado. Desde a teoria mais ortodoxa às mais críticas, se pensar o Estado se configura como a base elementar de qualquer estudo da área.

Desta forma, subentende-se que entender as Relações Internacionais é, inexoravelmente, ter um conhecimento prévio do que se entende por Estado.

Apesar do número de produções recentes sobre o Estado ser de extrema qualidade e de relativo volume, acredito ser essencial ressaltar o papel das Teorias Clássicas do Estado, mais especificamente as produções de Thomas Hobbes e Max Weber, como marcos inaugurais para o entendimento de Estado que norteiam majoritariamente as Ciências Sociais como a conhecemos até os dias atuais.

7 de agosto de 2017

A Integração Educacional no Mercosul e a Unila

Por Larissa Rosevics





Em julho de 2017 o Brasil assumiu a Presidência Pro-Tempore do Setor Educacional do Mercosul (Mercosul Educacional), órgão responsável pela coordenação das políticas educacionais entre os países membros do bloco. Na 50ª Reunião de Ministros da Educação do Mercosul, que aconteceu em Buenos Aires no dia 16 de junho de 2017, o Ministro da Educação brasileiro, Mendonça Filho exaltou a reunião e destacou ações do governo brasileiro com objetivo de facilitar a mobilidade entre universitários dos países membros do Mercosul (Portal do MEC, 2017).

A Reunião de Ministros da Educação do Mercosul (RME), criada em 1991, foi a segunda instância desse tipo no bloco e, desde então, mantém regularmente suas reuniões e atividades (ROSEVICS, 2015). Diferente da integração econômica, em que nem todos os países membros e associados do Mercosul podem participar plenamente, por questões comerciais, o nível de engajamento é alto quanto se trata da integração educacional. Nos seus 26 anos de existência, o Setor Educacional do Mercosul obteve avanços significativos em diferentes áreas. Hoje qualquer estudante que tenha realizado seus estudos primário, médio (Decisão 04/1994) ou médio técnico (Decisão07/1995) em um dos países do bloco tem seus diplomas reconhecidos em todos os demais países. Os alunos de ensino superior tem assegurado o direito de prosseguirem seus estudos de pós-graduação em qualquer país do Mercosul (Decisão 04/1996) e aos professores é assegurado o reconhecimento de seus títulos e graus universitários para exercício de atividades acadêmicas (Decisão 04/1999).

A Presidência Pro-Tempore do Brasil no Mercosul Educacional não poderia acontecer em momento mais oportuno, em que o projeto mais ousado e complexo apresentado pelo Brasil ao Setor, qual seja, a Universidade Federal da Integração Latino Americana (Unila), está ameaçada.

31 de julho de 2017

Economia política do desenvolvimento da China

Bernardo Salgado Rodrigues

Este artigo foi escrito com base nos debates realizados na Conferência Internacional "Economia Política do Desenvolvimento da China", organizado pelo LabChina e PEPI-UFRJ, nos dias 9 e 10 de Março de 2017. Os debates promovidos pela conferência podem ser assistidos no Canal do Instituto de Economia da UFRJ no Youtube.


O fenômeno da economia política do desenvolvimento mais intrigante e desafiador do século XXI é a China. Ao realizar sua estratégia a partir da segunda metade do século XX, a China intriga o mundo com suas elevadas e contínuas taxas de crescimento que somente podem ser analisadas a partir de uma infinidade de fatores que convergem para um objetivo único: trazer a China para o topo dos grandes players internacionais.
Em termos de padrões de acumulação, a China teria que ultrapassar os umbrais do desenvolvimento tradicional baseado na dependência de recursos, capital e força de trabalho, evitando as suas armadilhas, transformando seu modelo de desenvolvimento em vias sustentáveis interna e externamente. Tal padrão de acumulação vem gerando crescentes tensões nos últimos anos, como: 1) de demanda, com excesso de capacidade produtiva da indústria pesada; 2) distributiva, com a exaustão do regime de alto crescimento, elevação dos salários reais e aumento das tensões capital-trabalho; 3) tecnológica, com a exaustão da modernização da tecnologia importada e conseqüente declínio da complementaridade tecnológica com os EUA e o Japão; 4) geopolítica, com a afirmação da China como centro econômico asiático e crescente competição e conflitos regionais sobre controle de fronteiras, de matérias-primas, alimentos e energia.