21 de janeiro de 2020

Implicações geoeconômicas da Nova Rota da Seda no sistema internacional

Volume 7 | Número 68 | Jan. 2020

Por Bernardo Salgado Rodrigues 


Wikipedia

Uma das prioridades da política externa do presidente Xi Jinping foi o ressurgimento dos laços da China com o resto do continente euro-asiático, através da construção das chamadas “Rotas da Seda”, uma alusão ao termo cunhado em 1877 pelo geógrafo prussiano Ferdinand von Richthofen para descrever as rotas comerciais que conectavam a China ao oeste do Mediterrâneo durante as dinastias Han e Tang. (STUENKEL, 2016, pp.168-169; FRANKOPAN, 2018, p.2) Ao buscar reestabelecer o corredor econômico que uniu Oriente e Ocidente no primeiro milênio da era cristã, a China intenta fortalecer os laços econômicos entre Ásia, África e Europa com investimentos de bilhões de dólares, que favoreceriam a conexão e o comércio entre os países, assim como confirmaria, direta ou indiretamente, a disputa pelo poder global.

Em 2013, a Nova Rota da Seda (NRS), também conhecida como Cinturão e Rota, ou One Belt One Road (OBOR), foi proposta pelo presidente chinês Xi Jinping durante uma visita oficial à Ásia Central. Como maior conjunto de obras da história da humanidade, o projeto foi anunciado com orçamento de quase US$ 1 trilhão em investimentos em infraestrutura, principalmente na forma de empréstimos, para cerca de 1.000 projetos, possibilitando a propagação econômica ao criar um mundo interligado de linhas de trem, rodovias, portos de águas profundas e aeroportos que permitirão o crescimento das ligações comerciais cada vez mais intensas e rápidas. (FRANKOPAN, 2018, p.15) A NRS cobre uma área de aproximadamente 70% da população global, produz cerca de 55% do PIB mundial e possui cerca de 75% das reservas de energia conhecidas, exigindo a colaboração entre quarenta governos localizados ao longo da rota da seda terrestre e marítima. 

13 de janeiro de 2020

Da coalizão à tentativa de governabilidade na Espanha

Volume 7 | Número 68 | Jan. 2020

Por Ana Paula Moreira Rodrigues Leite
Fagner Gamonal
Flávia Matilde Seidel Osório




Na escalada de crises políticas mundiais, os discursos sobre democracia vêm sofrendo um forte ponto de inflexão. Na Espanha, a política tem se voltado a levantar diversas bandeiras pulverizando o debate democrático sob diversas nuances. Assim como na América Latina, evocam-se as constituições para falar sobre democracia, ao mesmo tempo que se encontram brechas e atribuem-se interpretações enviesadas que acabam por vulnerabilizá-la. 

Depois de meses de impasse e duas eleições, Pedro Sánchez vem tentando ocupar o cargo de Presidente de Governo na Espanha desde junho de 2018. Dentre as principais propostas do novo governo estão: o aumento de impostos sobre renda maior que 145 mil euros ao ano, aumento do salário mínimo, limite à alta de aluguéis e subsídio à habitação, combate à diferença salarial entre mulheres e homens, reforma trabalhista e aumento da proteção social, bem como possibilitar o diálogo com os movimentos separatistas da Catalunha e do País Basco, mantendo-se o respeito à Constituição. Neste último quesito, é importante salientar, o novo governo não poderá ceder a qualquer pretensão independentista diante da proibição constitucional da separação do território espanhol.

23 de dezembro de 2019

2020 e a nova década das Relações Internacionais: possibilidades hegemônicas


Volume 6 | Número 67 | Dez. 2019



Roberto Rodolfo Georg Uebel[1]
Amanda Raldi[2]
André Bazilio Zantuti[3]
Bruno Pereira Godinho[4]
Daniel Joaquim Padilha da Silva[5]
Emanuelle de Carvalho Selbach[6]
Fábio Eduardo Moraes Tavares[7]
Felipe Vieira dos Santos[8]



Figura 1 – Sinalizações em inglês, francês e chinês no Aeroporto Charles de Gaulle de Paris em dezembro de 2019.
Fonte: Acervo dos autores.


O final do século XX foi marcado pelos inúmeros massacres no Ocidente advindos das guerras, a bipolarização do sistema mundial na Guerra Fria, mas também pautado pelo avanço da tecnologia, ascensão do capitalismo, nova globalização, novos atores internacionais, crescimento da democracia e forte emergência da Nova Ordem Mundial de Paz e Direitos Humanos, observamos uma transição do longo século XX para o caótico século XXI (ARRIGHI, 2007; VIZENTINI, 2015).

A primeira década do século XXI foi marcada pelo mesmo viés, fatos de guerra, como o atentado às Torres Gêmeas em Nova York orquestrado pelo grupo terrorista Al-Qaeda, hoje praticamente inexistente, e incitando ao governo norte-americano para o início de um confronto militar no Oriente Médio contra o terrorismo, que marcaria toda a década.

O período também foi pautado por crises financeiras como a crise do Euro, na Europa, e a crise econômica de 2008, nos Estados Unidos e nas principais economias globais, bem como as desigualdades sociais principalmente nos países colonizados africanos e crescimento do poder atômico, com ênfase a nível militar em países como Irã, Coreia do Norte e Arábia Saudita. Mas este século não é marcado somente por momentos obscuros, nasce uma grande reviravolta no sistema mundial como o disparo no crescimento da China, a eleição do primeiro presidente negro nos Estados Unidos, o fim de governos autoritários e/ou ditatoriais no Oriente Médio com a Primavera Árabe e na África e os grandes debates como meio ambiente, gênero, pobreza, fome e fluxos migratórios.

Um mundo com grandes acontecimentos para nossa realidade foi gerado ao longo da segunda década do século XXI, que agora se encerra, com essa transição dos séculos, a alternância na centralidade de poder da Europa para os Estados Unidos, a alternância de conflitos para cooperação com o exemplo da Organização das Nações Unidas, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, como meios de engajar aliados através de estratégias políticas, econômicas e financeiras. Também as integrações regionais tais como, União Europeia, Mercosul, Nafta, entre outros, se destacaram ao longo da década, seja por seus fortalecimentos, seja por suas crises estruturais. Um novo sistema heteropolar (SARFATI, 2005) surgiu com inserção de economias fortes como o G7 (Estados Unidos, Alemanha, Japão, Reino Unido, França, Itália e Canadá) e o grande crescimento dos países emergentes, como os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e as demais economias do G20.

O século XXI iniciou com uma catástrofe que foi o 11 de setembro de 2001, mas seguiu num novo panorama de civilização entre as potências, as guerras bélicas perdendo poder para as infoguerras (SARFATI, 2005), e hoje apresenta um cenário de disputas econômicas e comerciais, marcando esse novo sistema não pelo poder militar, mas pelo poder do dinheiro. A partir destes cenários, buscaremos tecer neste artigo algumas considerações sobre a nova década que se inicia sob a perspectiva das Relações Internacionais e as possibilidades hegemônicas deste agora previsível século XXI.