7 de maio de 2018

Os dilemas da (in)segurança no norte asiático: um olhar para além da Coreia do Norte

Por Alana Camoça Gonçalves de Oliveira


Map of East Asia for use on Wikivoyage, English version

O Nordeste Asiático é uma região de importância fulcral. De um lado temos, uma potência em contínua ascensão - a China. Do outro lado há uma potência econômica que visa se tornar um “Estado Normal” se (re)militarizando - o Japão. Ainda sim, temos uma nação com altos gastos militares e que partilha de receios históricos profundos na relação com seus vizinhos - a Coreia do Sul - e, como sua vizinha, uma nação que constantemente faz testes de força com o objetivo de demonstrar seu poder no cenário internacional e garantir a manutenção do regime - a Coreia do Norte. Outro ator nesse cenário é Taiwan, uma comunidade política que busca ser considerada soberana e que barganha para conseguir a flexibilização de algumas leis, por exemplo. Por fim, ainda há uma potência que afeta diretamente a configuração de poder global e o equilíbrio regional - os Estados Unidos (EUA) (BUZAN, 2010; IKENBERRY, 2004).

Recentemente, a atual situação geopolítica do Nordeste Asiático fez com que os holofotes fossem apontados para a região. Disputas territoriais, tensões nucleares e trocas de insultos entre líderes regionais, são alguns dos acontecimentos que vêm chamando a atenção de mídias transnacionais. No dia 27 de Abril de 2018, um evento histórico, uma reunião entre os líderes da península coreana, Kim Jong Un e Moon Jae In, aumentou ainda mais a visibilidade e a importância dos acontecimentos no cenário regional asiático para o mundo. A Declaração de Panmunjeon, assinada durante o evento, foi o documento que simbolizou e representou uma primeira “vitória” ao trazer grandes promessas e projetos de futuro. Dentre eles temos: a busca pela assinatura de um acordo de paz para dar fim à Guerra da Coréia, a promessa de uma visita de Moon Jae In à Pyongyang ainda em 2018 e o interesse da desnuclearização da península coreana.

Diante do escalonamento das tensões no Nordeste asiático desde 2016, seria curioso pensar que há 2 anos um evento como esse seria possível[1], não é mesmo? Até 2018, podemos descrever a situação do Nordeste asiático como uma região com altos níveis de tensão e ameaças. Então, a Coréia do Norte não deve ser considerado o único ator beligerante da região. Ao contrário, outros atores regionais contribuiram e ainda continuam a influenciar a (in)segurança na região. A China com sua expansão marítima e seus avanços para o Mar do Leste, desafiando seu rival japonês e disputando a soberania pelas Ilhas Senkaku/Diaoyu; o Japão do século XXI, o país que leva em sua Constituição cláusulas e o discurso pacifista, com interesses, sobretudo durante o governo de Shinzo Abe (2012-atual), em favor de um recrudescimento das políticas de segurança; e os EUA com sua presença no Nordeste Asiático consolidada desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) através da manutenção e da realização de treinamentos de forças militares na Coréia do Sul, no Japão e nos mares.

16 de abril de 2018

Desemprego na França


Reportagem sobre desemprego na França, publicada no periódico "O Estado RJ", com a participação do professor Luiz Felipe Brandão Osório.


Por Fabio Terre do "O Estado RJ", de 15 de abril de 2018

França: “O desemprego deixa de ser conjuntural, para ser estrutural”, diz especialista
Greve no setor ferroviário da França deve durar 36 dias. O projeto reformista do governo deve eliminar 120 mil dos quase 5 milhões e meio de postos de trabalho em todo o setor público

O setor ferroviário francês entrou em greve  no começo deste mês contra as reformas trabalhistas do governo do presidente Emmanuel Macron. O protesto está programado para durar 36 dias, com alternância de 2 dias de paralisação para cada 5 de funcionamento. Os trabalhadores não querem a transformação da empresa SNCF (Sociedade Nacional de Ferrovias Francesa) em sociedade anônima e nem o fim do estatuto cherminot, que proporciona uma série de benefícios para os funcionários.

A SNCF é uma das principais empresas públicas da França e tem um prejuízo anual de 3 bilhões e já acumula uma dívida total de quase 47 bilhões. Macron quer dar mais eficiência à ela e eliminar “privilégios” de novos funcionários, como o emprego vitalício, a aposentadoria a partir dos 52 anos e viagens de trem grátis ou mais baratas. Em 2020, as regras de liberalização da União Europeia encerrarão o monopólio da empresa e a abrirão à concorrência, o que já cria a necessidade imediata de adaptação. O presidente francês  tem maioria política e também o apoio de maior parte da população.

Mas, por outro lado, o projeto reformista do governo quer eliminar 120 mil dos quase 5 milhões e meio de postos de trabalho em todo o setor público e também estabelecer um plano de demissões voluntárias, por meio da flexibilização do estatuto dos funcionários públicos, a fim de reduzir o déficit orçamentário do país.

9 de abril de 2018

A caverna da esquerda

Por Bernardo Salgado Rodrigues



Das obras do filósofo grego Platão, a passagem mais conhecida encontra-se no Livro VII de "A República" (PLATÃO, 2008), conhecida como o "mito da caverna". Esta narra a história de um conjunto de prisioneiros que foram acorrentados e presos em uma caverna desde sua infância. Na sua visão cotidiana, está somente a parede da caverna com sombras oriundas dos efeitos da luz, que penetram no local devido a existência de uma fogueira, cujas sombras indicam apenas parte das formas, mas nunca uma pessoa ou figura completa. Na continuação, um desses prisioneiros se livra das correntes e caminha à saída da caverna, ainda que com muito esforço, dado a adaptação de seu corpo e a subida íngreme. Ao sair da caverna, a luz forte do sol faz seus olhos doerem, mas, aos poucos, se adapta e descobre um novo mundo até então desconhecido, a verdade. De pronto, resolve voltar à caverna, libertar seus antigos companheiros de prisão e contar tudo que havia visto. Entretanto, os presos que se encontravam na caverna, devido à sua realidade, reféns dos seus hábitos e cotidiano, não aceitam suas argumentações, interditam um diálogo e acusam-no de louco, não descobrindo o mundo verdadeiro.

2 de abril de 2018

A Crimeia e o mapa meteorológico da TV ucraniana: o poder simbólico dos mapas

Por Larissa Rosevics


Do site da BBC, reproduzido da UA TV


No início do mês de março de 2018, uma simples previsão do tempo no telejornal da UA (National Public Broadcasting Company of Ukraine), o canal de televisão público da Ucrânia, causou debate nas redes sociais. Durante a transmissão ao vivo do telejornal nacional, a imagem do mapa da Ucrânia que se via atrás da repórter do tempo excluía a região da Crimeia da divisão política do país. No mesmo dia, o canal de televisão privado ucraniano STB também utilizou a imagem do mapa da Ucrânia sem a Crimeia em seu telejornal. E tudo isso aconteceu às vésperas das eleições presidenciais na Rússia, na qual Vladmir Putin concorreu como franco favorito.

A Crimeia é uma península que fica ao sul da Ucrânia, em uma região estratégica no mar Negro. Por conta da posição que ocupa, ela já foi povoada por diferentes grupos ao longo da história, como gregos, romanos e otomanos. Com a expansão do império russo no século XVIII, a região tornou-se parte do império e importante base naval, despertando a atenção das demais potências europeias. A Guerra da Crimeia (1853-1856) entre a Rússia e a coalizão da França, Inglaterra, Sardenha e o Império Otomano teve como objetivo frear o ímpeto expansionista russo e garantir, assim, o equilíbrio de poder europeu no século XIX.