7 de outubro de 2019

O conceito de Guerra Híbrida e as ações políticas veladas

Volume 6 | Número 65 | Out. 2019


Por Bernardo Salgado Rodrigues

As características fundamentais de um estudo sobre a Guerra não são inéditos; desde clássicos como Clausewitz (1832) − ao afirmar que a guerra é um instrumento da política [1] e um ato de força para obrigar o nosso inimigo a fazer a nossa vontade [2] − e Sun Tzu (2007) − ao basear a arte da guerra na dissimulação [3] e cuja excelência suprema consistiria em vencer o inimigo sem ser preciso lutar [4] −, determinadas peculiaridades oriundas da pesquisa histórica sobre a guerra são constatadas, como a sua natureza imutável (violência, acaso e propósito político) e os impactos das Revoluções Industriais, Científicas e Tecnológicas. Entretanto, o ineditismo do que se convencionou denominar Guerra Híbrida é a dimensão e amplitude do conflito, ensejando a formalização dessa nova terminologia.

A Guerra Híbrida pode ser definida como a influência indireta de uma força estrangeira sobre outro Estado, com o objetivo de desestabilizar/reduzir o poder de seus oponentes e/ou países não-alinhados, visando a sua substituição sem confronto aberto através de um novo método de guerra indireta [5] e não-violenta [6]. Esta nova modalidade “é um novo plano de guerra que transcende todos os outros e os incorpora em seu ser multifacetado.” (KORYBKO, 2018, pp. 42-43) Em outros termos, a realização de ações políticas veladas com a finalidade de desestabilizar Rogue States e Failed States [7] passou a fazer parte do modus operandi de alguns Estados no sistema internacional, a fim de alcançar seus interesses estratégicos, instaurar princípios de economias abertas e democracias liberais e, fundamentalmente no caso específico dos Estados Unidos, retomar a ordem unipolar.

Um dos autores que se debruçam sobre a temática da Guerra Híbrida de modo enfático é o russo Andrew Korybko. É na sua visão que a Guerra Híbrida constitui-se na conjunção entre Revoluções Coloridas e Guerras Não-Convencionais. Desta forma, as Revoluções Coloridas consistem numa guerra indireta com a utilização de técnicas de psicologia das massas, tecnologia da informação e meios de comunicação, cujas manifestações políticas de oposição visam promover o controle sobre aspectos intangíveis, tais como sociedade, ideologia, psicologia, assim como a derrubada de governos não-alinhados através do uso da resistência não-violenta. (KORYBKO, 2018, pp. 69-70) Assim, para o autor,

[...] as revoluções coloridas – largamente planeadas anteriormente e utilizando ferramentas de propaganda e estudos psicológicos combinados com o uso de redes sociais – consistem em desestabilizar governos por meio de manifestações de massas em nome de reivindicações abstratas como democracia, liberdade, etc.; elas são a fagulha que incendeia uma situação de conflito interno. A revolução colorida é o golpe brando. (KORYBKO, 2018, p. 8)

Consequentemente, caso as Revoluções Coloridas não sejam suficientes para a derrubada e substituição de governos não-alinhados, existe o avanço para o estágio de guerra não convencional, combatidas por forças não regulares e que constituem o denominado golpe rígido. Tais guerras não-convencionais são atividades conduzidas e previamente estabelecidas por forças não oficiais envolvidas num combate assimétrico contra um adversário tradicional (KORYBKO, 2018, p. 13), a fim de conformar movimentos de insurgência visando coagir, abalar e derrubar um governo ou poder em exercício. Ao atuar como um multiplicador de forças, "ela apodera-se de uma infraestrutura política, militar e social pré-existente e a apoia com vistas a acelerar, estimular e incentivar ações decisivas baseadas em ganho político calculado e nos interesses nacionais dos EUA." (KORYBKO, 2018, pp. 71-72) Assim, 

[...] ao se prepararem para uma Guerra Não Convencional em um Estado alvo, os EUA normalmente fazem um estudo de viabilidade para averiguar as chances de sucesso da operação. Eles podem fazer isso ou se encontrando com representantes contra o governo, que viajam aos EUA ou a um país terceiro, ou enviando diretamente um especialista militar a campo. Uma vez tomada a decisão de implantar uma Guerra Não Convencional, os EUA "prestam suporte através de um parceiro de coalizão ou de um país terceiro" quando "o apoio manifesto dos EUA ao movimento de resistência é [...] indesejado" (a estratégia de Liderança velada). (KORYBKO, 2018, pp.82-83)

Deste modo, ao constituir-se como a evolução orgânica da Revolução Colorida, a guerra não-convencional não é espontânea, e sim a continuação de um conflito já existente na sociedade; “ela é não linear, dinâmica e caótica, introduzindo uma mescla de táticas em constante transformação que são desenvolvidas para desequilibrar as autoridades.”(KORYBKO, 2018, p.77) Além disso, ao utilizar forças por procuração compostas, principalmente, por atores desvinculados do Estado, seu êxito consiste em abalar o inimigo e mantê-lo em contínuo desequilíbrio, até que a oportunidade para um ataque decisivo se apresente. (KORYBKO, 2018, p.80)

Fiori (2018) é outro autor que se debruça sobre o tema, resumindo-o brilhantemente:

Uma sucessão de intervenções que transformou este tipo de guerra, na segunda década do século XXI, num fenômeno quase permanente, difuso, descontínuo, surpreendente e global. Trata-se de um tipo de guerra que não envolve necessariamente bombardeios, nem o uso explícito da força, porque seu objetivo principal é a destruição da vontade política do adversário através do colapso físico e moral do seu Estado, da sua sociedade e de qualquer grupo humano que se queira destruir. Um tipo de guerra no qual se usa a informação mais do que a força, o cerco e as sanções mais do que o ataque direto, a desmobilização mais do que as armas, a desmoralização mais do que a tortura. Por sua própria natureza e seus instrumentos de ‘combate’, trata-se de uma ‘guerra ilimitada’, no seu escopo, no seu tempo de preparação e na sua duração. Uma espécie de guerra infinitamente elástica que dura até o colapso total do inimigo, ou então se transforma numa beligerância contínua e paralisante das forças "adversárias". (FIORI, 2018, pp.402-403)

Em suma, “a conexão entre as Revoluções Coloridas, a Guerra Não Convencional, os objetivos de troca de regime dos EUA e os atores desvinculados do Estado oferece ainda mais provas para confirmar a teoria da Guerra Híbrida.” (KORYBKO, 2018, p.75) É papel dos pesquisadores em relações internacionais se debruçarem mais atentamente sobre esta nova modalidade de guerra, principalmente na América do Sul do século XXI.


Referências

CLAUSEWITZ, Carl Von. Da Guerra. Tradução do inglês para o português CMG (RRm) Luiz Carlos Nascimento e Silva do Valle, 1832.

FIORI, José Luis. Epílogo - Ética cultural e guerra infinita. In: FIORI, José Luis (Org.). Sobre a guerra. Petrópolis: Vozes, 2018. 

KORYBKO, Andrew. Guerras híbridas das revoluções coloridas aos golpes. São Paulo: Expressão Popular, 2018. 

PECEQUILO, Cristina Soreanu. Os Estados Unidos e o século XXI. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

SHARP, Gene. From dictatorship to democracy: a conceptual framework for liberation. New York: The New Press, 2012. 

TZU, Sun. A arte da guerra. São Paulo: Golden Books, 2007. 





1“A guerra não é meramente um ato de política, mas um verdadeiro instrumento político, uma continuação das relações políticas realizada com outros meios. O que continua sendo peculiar na guerra é simplesmente a natureza peculiar dos seus meios. [...] O propósito político é a meta, a guerra é o meio de atingi-lo, e o meio nunca deve ser considerado isoladamente do seu propósito.” (CLAUSEWITZ, 1832, p.91)
2“A guerra é, portanto, um ato de força para obrigar o nosso inimigo a fazer a nossa vontade.” (CLAUSEWITZ, 1832, p.75)
3  “Consequentemente, quando estivermos capacitados para o ataque, é necessário aparentar incapacidade; quando estivermos perto, é necessário fazer o inimigo acreditar que estamos longe, e quando estivermos longe fazê-lo acreditar que estamos perto.” (SUN TZU, 2007, p.23)
4“Assim, o líder habilidoso subjugará as tropas inimigas sem nenhuma luta, capturará suas cidades sem sitiá-las; dominará seus reinos sem operações prolongadas no campo de batalha” (SUN TZU, 2007, p.36)
5“A guerra indireta será marcada por 'manifestantes' e insurgentes. As quintas-colunas serão compostas menos por agentes secretos e sabotadores ocultos e mais por protagonistas desvinculados do Estado que comportam-se publicamente como civis. As mídias sociais e tecnologias afins substituirão as munições guiadas como armas de 'ataque cirúrgico' da parte agressora, e as salas de bate-papo online e páginas no Facebook tornar-se-ão o novo 'covil dos militantes'. Em vez de confrontar diretamente os alvos em seu próprio território, conflitos por procuração serão promovidos na vizinhança dos alvos para desestabilizar a periferia dos mesmos. As tradicionais ocupações militares podem dar lugar a golpes e operações indiretas para troca de regime, que são muito mais econômicos e menos sensíveis do ponto de vista político.” (KORYBKO, 2018, p.12)
6Nonviolent struggle is a much more complex and varied means of struggle than is violence. Instead, the struggle is fought by psychological, social, economic, and political weapons applied by the population and the institutions of the society. These have been known under various names of protests, strikes, noncooperation, boycotts, disaffection, and people power. [...] Political defiance, unlike violence, is uniquely suited to severing those sources of power.” (SHARP, 2012, p.45)
7 Na ausência de um inimigo após a Guerra fria, foram criadas duas categorias de Estados que passaram a representar focos de ameaça no sistema internacional: os rogue States (Estados párias ou bandidos) e os failed States (Estados falidos). "Em linhas gerais, os Estados párias são entidades políticas organizadas, governadas de forma autoritária, com pretensões de hegemonia regional, apoio a grupos radicais e desenvolvimento de programas de armas de destruição em massa, e que não respeitam as normas da comunidade internacional (o Irã e a Coreia do Norte são exemplos atuais). Por sua vez, os Estados falidos referem-se a Estados fragmentados social, étnica e socialmente, com graves problemas humanitários, e que podem servir de santuário a grupos fundamentalistas. No pós-Guerra Fria, a estabilidade e contenção dessas nações é prioridade para os Estados Unidos, visando a mudança de regime em direção à democracia por meio de meios político-econômicos." (PECEQUILO, 2012, pp.15-16) 


Como citar:

RODRIGUES, Bernardo Salgado. O conceito de Guerra Híbrida e as ações políticas veladas. Diálogos Internacionais, vol. 6, n.65, out.2019. Acessado em [07/10/2019]. Disponível em:  http://www.dialogosinternacionais.com.br/2019/10/o-conceito-de-guerra-hibrida-e-as-acoes.html

2 de setembro de 2019

Resenha do texto "As três versões do Neo-Institucionalismo" de Peter Hall e Rosemary Taylor

Volume 6 | Número 64 | Set. 2019


Por Hellora Canedo Raibolt




HALL, Peter A.; TAYLOR, Rosemary C. R. As Três Versões do Neo-Institucionalismo. Lua Nova, nº58, 2003.


Com o objetivo de prover respostas acerca do neo-institucionalismo, visto que tal corrente não oferece uma via de pensamento unificado, Peter Hall e Rosemary Taylor examinaram trabalhos relevantes dentro da temática entre os anos 1980 e 1990, encontrando diferentes métodos de análise que se enquadravam no neo-institucionalismo. O texto foi primeiramente apresentado em 1994 no Congresso da American Political Science Association e foi originalmente publicado em 1996, em inglês. A versão utilizada para esta resenha foi a publicada em 2003, traduzida para o português. Peter A. Hall, quando escreveu o presente artigo era Professor de Ciência Política do Center for European Studies da Harvard University. Rosemary Taylor era Professora de Saúde Pública e Sociologia na Tuffs University e também era pesquisadora do mesmo Centro na Harvard University. 

Três métodos foram elucidados pelos autores, sendo eles: institucionalismo histórico, institucionalismo da escolha racional e institucionalismo sociológico. Os três métodos surgem como uma reação às perspectivas behavioristas que tinham muita força nas décadas de 1960 e 1970 e buscam aclarar o papel das instituições nos resultados políticos e sociais. Uma questão comum a todos os métodos é: como as instituições afetam o comportamento dos indivíduos? E, para esta pergunta os neo-institucionalistas oferecem duas respostas, uma na perspectiva calculadora e uma na perspectiva cultural, que dialogam sobre três tópicos principais: como os atores se comportam, o que fazem as instituições e por que as instituições se mantêm. A perspectiva calculadora tende sempre a responder dando destaque ao comportamento humano como instrumento para um cálculo estratégico, já a perspectiva cultural percebe que o comportamento humano jamais é inteiramente estratégico e é limitado à visão de mundo daquele próprio indivíduo.

16 de agosto de 2019

“Não sei se vou ou se fico”: o destino do Reino Unido e o Brexit

Volume 6 | Número 63 | Ago. 2019

Por Ana Paula Moreira Rodriguez Leite 
Mônica Leite Lessa



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Em meados de 2016, um referendo abriu mais um capítulo do que aprofundaria a crise política no Reino Unido. O resultado positivo referendava a saída desta região da União Europeia, conhecido como Brexit, e que teve imediata relação com a crise econômica e com o sentimento de xenofobia aprofundado pelo aumento exponencial do fluxo de refugiados na maioria de países da UE. Nas linhas que seguirão, faremos uma breve análise de conjuntura dos fatores que levaram ao que, à época, fora considerado um Cisne Negro nas relações internacionais.

Na década de 1970, inicia-se um novo arranjo de caráter mais abrangente ampliando-se as relações interestais para a construção de uma arquitetura global da economia. Redefiniu-se, a partir de então, o locus dos Estados e suas atribuições, seja na gestão dos problemas internos ou internacionais. Na contramão do projeto neoliberal que vinha se definindo, a União Europeia adotava medidas protecionistas em diversos âmbitos, porém, na esfera financeira se consolidou diversas agências reguladoras compondo o futuro sistema financeiro internacional.

Em contrapartida, os Estados que compõem a UE empreenderam investimentos maciços em infraestrutura, sobretudo, aqueles localizados mais ao sul com o objetivo de reduzir as assimetrias entre os parceiros, objetivo principal de um processo de integração regional. A criação e o atendimento à uma amplitude de mercados confere um proeminente potencial econômico exigindo o fortalecimento institucional e eficiência na cooperação entre os atores.