11 de julho de 2014

Porque o futebol brasileiro é o retrato do Brasil

Por Larissa Rosevics
...eu apostei no bolão que a Alemanha ganhava do Brasil.


O Brasil é um país especialista em exportar commodities. Para quem não sabe, commodities são produtos que não sofreram grandes transformações para serem comercializados, ou seja, produtos primários com cotação internacional. Entre as principais commodities exportadas pelo Brasil estão: a soja, a laranja, o petróleo, os minérios e os jogadores de futebol.


Vender commodities tem seu lado positivo. O custo geralmente não é alto, não exige uma tecnologia avançadíssima (fora o petróleo, mas ai é outra conversa), e o lucro tende a ser alto. Durante quase toda a história da humanidade, as commodities foram responsáveis por 70% do comércio internacional. Para obter mais lucros, bastava produzir mais.

Na década de 1950 um argentino (sim, um argentino) chamado Raul Prebisch já alertava para os perigos das economias baseadas nas exportações de commodities. Segundo Prebisch, o desenvolvimento tecnológico estava transformando o mercado internacional, causando cada vez mais a queda no preço das commodities, denominado por ele de deterioração dos termos de troca. No final do século XX, os produtos agrícolas não chegavam a 10% das exportações mundiais.

Agora você deve estar se perguntando: por que raios ela falou que os jogadores de futebol brasileiros são commodities. O mundo esportivo pode ser altamente lucrativo, basta tomar como exemplo o futebol americano. O football, como eles chamam, é um esporte praticado majoritariamente por norte-americano e que tem uma das ligas com maior renda e número de fãs do mundo, a NFL. Os times de futebol americano funcionam como verdadeiras empresas, com seus próprios estádios e marcas valorizadas. As partidas da NFL são altamente lucrativas e a final, denominada Super Bowl é o evento esportivo com maior arrecadação do mundo, a frente da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Detalhe: a Super Bowl acontece TODO ANO! Os shows que acontecem nos intervalos, as brincadeiras pré e pós jogo, os comerciais e as estatísticas dos apresentadores são tão ou mais legais que os próprios jogos. A experiência de assistir uma partida de futebol americano é única, mesmo para aqueles que não apreciam o esporte.

Pois bem, enquanto isso, nossos clubes e escolinhas de futebol estão preocupados com apenas uma coisa: revelar jogadores e vendê-los para times no exterior. Poucos são os times brasileiros que tem seus próprios estádios e as suas marcas são invariavelmente ligadas ao banditismo. O campeonato brasileiro é completamente desinteressante, pois o campeão pode ser definido, através de um arranjo de pontuação, quase um mês antes do final dos jogos. Os estádios (mesmo os mais novos e reformados) e os jogos de futebol não oferecem condições para uma verdadeira experiência de entretenimento. Poucos são os recursos tecnológicos disponíveis nos estádios, a alimentação é cara, o conforto é quase inexistente, assim como eventos pré e pós jogo. O custo de um ingresso é um roubo e a violência é um show de horror a parte. Isso para não tratar da falta de profissionalismo na administração dos times. Técnico de futebol bom é técnico que ganha jogo e que revela craques.

E ai você vê o jogo da seleção brasileira contra a Alemanha nesta copa e se pergunta: o que foi que aconteceu? É simples, o futebol alemão tem um dos campeonatos mais difíceis do mundo em que praticamente todos os jogadores da seleção participam. O técnico Joachim Low está a frente da seleção alemã desde 2006, e antes disso foi assistente técnico por dois anos. A técnica refinada é aprendida e praticada em casa, criando um sentido coletivo.

No Brasil, não há preocupação em tornar os jogos de futebol eventos lucrativos, com times altamente competitivos, com técnicas avançadas e dispostos a apresentar um grande espetáculo. A preocupação é encontrar um menino de no máximo 19 anos e que possa render ao clube dinheiro suficiente para sustenta-lo por quase um ano. Ai na Copa do Mundo, um técnico brasileiro, inserido no contexto exportador e de alta rotatividade do futebol nacional, precisa montar um time com jogadores excelente, mas que pouco ou quase nunca jogaram juntos e que foram formados tecnicamente em realidades táticas completamente distintas.

Enquanto o Brasil continuar a reproduzir em todas as áreas o mesmo modelo ultrapassado baseado em exportação de commodities, lavadas como a de 7 x 1 serão recorrentes em nossa história.

***

Os dados do comércio internacional foram extraídos do livro "Economia e política das Relações Internacionais" do professor Eiiti Sato, editora Fino Traço.

5 comentários:

  1. Sou "zero à esquerda" especialista em futebol... mas faço algumas considerações...
    - Certo, Prebisch explicou a deterioração dos termos de troca, nesse momento, no Brasil, Vargas já iniciara um processo de industrialização, outros seguiriam e a Cepal, com seu cabedal de especialistas tentariam igualmente gestar um mercado comum, base do desenvolvimento conjunto e acelerado que se esperava... mas não foi bem isso que aconteceu... passado um período de crescimento, novos problemas e novas estratégias assumiram e em todo o tempo a commodities esteve lá... pelo tamanho do território e pq tudo dá nessas terras...
    - Deve ser esclarecido que o “Brasil” não produz e exporta commodities, quem produz é o dono da terra e ele exporta e lucra com isso. O Petróleo, como vc disse, é outro assunto... (que também fique claro que nos nossos hermanos, não só argentinos, a “produção” em si é, em parte, substituída pela “extração”...)
    - O histórico do futebol não é o histórico dos desenvolvimentos nacionais... não somos nem considerados desenvolvidos e ainda assim somos pentacampeões, logo, a lógica apresentada no calor da emoção de um derrota vexaminosa não funciona. Talvez a lógica reversa... quanto mais desenvolvido menos futebol jogue... e tenha que estudar muito para entender a jogar... e talvez até jogue com eficiência e pegue um dia daqueles e faça uma goleada...
    - Uma breve olhada na internet me disse que Brasil e Alemanha já jogaram 22 vezes (de forma geral, sem ser necessariamente Copa), sendo 12 vitórias para o Brasil, 5 vitória para a Alemanha e 5 empates. Vitórias de lavada não são/serão recorrentes. Há que se encontrar outros fatores explicativos.
    - Por não entender de futebol (olha que na escola eu li muitos livros para aprender, que também ocorreu com vôlei ou basquete - que consegui aprender as regras - e até tentei praticar o futebol, mas foi impossível compreender impedimento, por exemplo... acho que o bloqueio era o futebol mesmo...) e não ter time, desconheço os meandros do processo seletivo - sei o que sabe o senso comum - e ouço falar das podridões que ocorrem nos times... o fato é que os interesses em recrutamento, treinamento, sustentação e aposentadoria (jogador é profissão?) não são relacionados ao interesse nacional de um país... o salário que o Neymar Jr. ganha não é pago pelo governo espanhol...
    - sobre salários astronômicos, se o produto é escasso e a demanda é alta... o valor sobe... mas o que credencia esse produto para ser bom? Ser brasileiro? Fazer gol? Driblar? Essas considerações, entretanto, são esquecidas no momento em que o jogo não é individual.. . é coletivo... pela lógica, colocar pessoas capacitadas juntas fará com que elas alcancem o objetivo com facilidade... será? Mas ainda tem a culpa do chefe... do controle, da hierarquia... que se soma com a vaidade, com o dinheiro, com o lucro... enfim...
    - não faço aqui defesa de ninguém... até pq perdi no bolão... kkkk mas um jogo como foi aquele, ao meu ver, mostra erros de escalação e treinamento, e não tem relação com a qualidade individual e com os interesses ou defesa da camisa e da nação...
    - Bom... futebol é negócio / commodities são negócios... se for bom tudo vai bem... se for mal tudo vai mal... nenhuma delas guarda relação com o governo fora os salários e impostos que pagam (espero que paguem...).... no primeiro o “Brasil” ainda continuará melhor do que TODOS (afinal ninguém vai ser penta... correto? Não é isso que vale?) e no segundo a torcida não é deixar de produzir, mas tentar produzir e incorporar valor ao mesmo tempo, fazendo crescer a cadeia do desenvolvimento para dentro e não para fora...
    - resumindo... diferente de vc... espero que a Argentina ganhe!!! Kkkkkkkkkkkk
    - salve Prebisch!
    bjssss

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    1. Sim, meu amigo, você tem toda razão em contextualizar a discussão. Sem deixar o objetivo ilustrativo e despretensioso do post, vale destacar que:

      “A produtividade média na produção de grãos entre o início dos anos 1950 e o final dos anos de 1960 cresceu em 56% nos países industrializados e 22% nos países em desenvolvimento, isto é, os países industrializados estavam se tornando grandes produtores de alimentos: no início dos anos 1980, os doze países da CEE, mais os Estados Unidos, Canadá e Austrália, já eram responsáveis por 38% da produção mundial de trigo. O protecionismo dos países mais ricos tinha, pois, o objetivo de proteger mercados e empregos domésticos. [...] O fato é que, na ordem econômica da globalização, as commodities passaram a não representar mais do que ¼ do comércio mundial.” (Eiiti Sato, p.178).

      Seguindo o tom jocoso e provocativo do post, a questão não é a exportação de commodities, mas o pouco investimento na manufatura. Sem dúvida, o problema não é do governo e no caso futebolístico, fica evidente que o problema é da iniciativa privada, que pensa no alto lucro a curto prazo e não nos pequenos e consolidados ganhos a longo prazo. As gloriosas 5 copas dos exportadores de jogadores (ou os tempos em que commodities representavam ¾ do comércio mundial) pode se transformar em um passado amargo frente a um presente desastroso (em que elas representam ¼ do comércio mundial).

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    2. Mas minha gente, os comentários estão quase um post a parte!!! rsrs

      Gostei da ideia da associação do texto da guria! Entendi mesmo mais como uma brincadeira e menos preocupada com as precisões acadêmicas. Acho legal aqui também ter esse espaço mais "descontraído"...

      Entendi a ideia de que ainda tendemos, em geral, a escolher o caminho mais fácil com resultados imediatos, do que realizar investimentos de médio e longo prazo para construirmos, seja no futebol (mesmo que seja gerido pelo setor privado), seja na economia, e isso acaba reforçando a submissão ao "primeiro mundo".

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  2. Primeiro, desculpe o tempo pra ler e comentar, as coisas ficaram corridas nos últimos tempos. Agora sobre o post, o que eu acho é que o modelo nacional "funcionou" bem por muito tempo, até porque para produzir commodities o investimento é bem menor. A questão é que o resto do mundo (no futebol e no resto) se preparou, enquanto o Brasil continua confiando na força da camisa. Parabéns pelos artigos, o blog está ótimo!

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    1. Exatamente Ney. Não podemos seguir confiando na "força da camisa", porque o "jogo" está cada vez mais difícil e competitivo.

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