22 de agosto de 2014

Uma IPA, por favor! [1]

Foto de : Dieraecherin. 
Banco de imagens:MorgueFile.
Por Suellen Lannes

 


“Eu mataria todos nesse quarto por um gole de cerveja”
Homer Simpson






Pode-se dizer que existe quatro grandes escolas de cerveja: belga, alemã, inglesa e estadunidense. Cada uma apresenta suas peculiaridades, as quais tem uma certa relação com sua história e cultura específica. No escrito em questão vamos nos ater à escola estadunidense.



Na década de 1960 haviam cerca de 70 cervejarias no território dos Estados Unidos. Esse cenário contrasta com as 2.700 cervejarias que existiam em 1876. Dessas 70 cervejas cerca de 40 eram muito parecidas e era difícil distinguir alguma diferença entre elas, ou seja, a maior parte delas produzia uma cerveja, digamos, massificada.

Na década de 1970 o cenário começa a mudar, pessoas que haviam tido contato com a comidas europeias trouxeram novidades para o território estadunidense. Novos restaurantes surgem com novas temáticas, principalmente na Califórnia. Essa influência também adentra no âmbito das bebidas, como o vinho e a cerveja.  O resultado foi a criação da primeira microcervejaria pós-Lei Seca, a New Albion, em 1976 [OLIVER, 2012, P. 417-418].

Apesar dessa cervejaria ter durado pouco tempo, o estrago já estava feito e a vida cultural e gastronômica dos Estados Unidos não voltariam a ser o que eram. Antigas cervejarias que haviam sobrevivido foram sendo resgatadas e acompanhando a nova tendência de se tentar algo novo, procurando nas tradições europeias algo que pudesse ajudá-las a se reerguer. Começaram a surgir restaurantes que faziam a sua própria cerveja, conhecidos como brew pubs. Seguindo o pensamento do professor Fiori, podemos dizer que foi um grande big bang nas cervejarias [2], uma explosão inicial que gerou todo o cenário cervejeiro atual.

Com farta matéria-prima (os Estados Unidos é um dos principais produtores de lúpulo, a matéria-prima mais cara e nobre da cerveja) e a típica ganância empreendedora dos estadunidenses, o movimento de cervejarias artesanais se alastrou e se diversificou.

Usando uma engenhosa mescla de know-how publicitário e marketing de guerrilha, Jim Koch e sua Samuel Adams Boston Lager levaram o sabor da verdadeira cerveja a milhões de americanos que nunca sequer tinham percebido o que estavam bebendo [OLIVER, 2012, p. 419] 

Foram sendo produzidas cerveja de alta qualidade e vendidas em todo território estadunidense, o sucesso e o diferencial desses empreendimentos criaram uma nova escola, que poderia competir facilmente com as outras existentes. A diferença dessas escolas residia no diferencial econômico do país, sua diversidade.

Diferente das escolas inglesa, belga e alemã, na escola estadunidense não haviam regras, tudo podia ser utilizado na cerveja, diversos lúpulos, frutas, sementes, não era necessário seguir a lei alemã da pureza da cerveja [2], a ordem do dia era inovar.

As cervejas artesanais americanas [...] são inspiradas nos estilos de cerveja europeus, mas tendem a ser mais ousadas, ostentosas e extravagantes, como os americanos. A palavra de ordem a cerveja artesanal americana é mais. Mais lúpulo, mais malte, mias sabores caramelizados, mais sabores torrados, mais aroma e, às vezes, mais álcool. Algumas delas viraram novos estilos, gerando seus próprios imitadores [OLIVER, 2012, p 420]

Essa ordem do dia também reinava nas finanças. Até 1971 imperou os acordos estabelecidos nas conferências de Bretton Woods. Um dos pontos formalizados nessa conferência é a adoção do padrão ouro-dólar como referência das transações internacionais, ou seja, até essa época, o preço oficial da relação entre o dólar e o ouro era mantido fixo. No momento da implementação desse acordo, os Estados Unidos apresentam um saldo corrente positivo, muito favorecido pelo papel de exportador realizado desde o século XIX e intensificado com o Plano Marshall. Com a continuação da Guerra Fria, o resgate das economias europeias e o custo de se manter o esforço militar e econômico da Guerra Fria fizeram com que os saldos comerciais e de conta corrente dos Estados Unidos se tornassem negativos na entrada da década de 1970 [SERRANO, 2002, p.245].

O resultado foi uma década de 1960 em que existe uma falta de lastro em ouro do dólar e a precariedade da conversibilidade se torna mais evidente, além de tudo o estadunidense ingeria uma cerveja, digamos, sem gosto. A solução encontrada pela economia estadunidense foi decretar a inconversibilidade do dólar em ouro em 1971 [SERRANO, 2002, p. 249], seguindo da seguinte desvalorização da moeda. A solução da cerveja foi diversificar, antecedendo o que viria acontecer nas finanças.

Por meio da inconversibilidade, os Estados Unidos desmantelam o sistema Bretton Woods gerando uma crise na economia mundial. Como as taxas de juros americanas eram baixas, ocorre um processo de alta especulação, que somado a uma crise de confiança com relação aos Estados Unidos gera uma elevação do preço do petróleo, acirrando ainda mais a crise. Em resposta a esse contexto conturbado, em 1979, Paul Volcker, presidente do Banco Central estadunidense (FED) decreta o aumento da taxa de juros e começa um processo de desregulamentação financeira [TAVARES, 1985, p. 6].

Com o decorrer do tempo, os Estados passam a aceitar esse novo padrão monetário, do dólar flexível, caracterizado pelo fim da limitação existente, até então, ao dólar. A partir de agora, os Estados Unidos podem incorrer a déficits na balança de pagamentos de forma crescente, e financiá-los com ativos emitidos na sua própria moeda, ou seja, os Estados Unidos podem fazer dívida e definir os juros dessa dívida. Além disso, a ausência de conversibilidade dá ao dólar a liberdade de variar sua paridade em relação a moedas de outros países conforme a sua conveniência por meio de mudanças em sua taxa de juros [SERRANO, 2002, p. 250]. Essas atitudes geraram um efeito em cadeia marcado pela crescente liberalização e globalização do sistema financeiro, que se tornaram a norma do sistema internacional.

Se na década de 1970 parecia que os Estados Unidos chegavam ao abismo, as décadas seguintes demonstram que tal observação não se concretizou. As características do capitalismo anglo-saxão e o poder militar, econômico e político conquistado pelos Estados Unidos, no século XX, garantiram que esse país continuasse a dominar o contexto internacional, agora sem um adversário à altura, como a União Soviética. Isso foi favorecido pelas inovações e liberalizações que aconteciam não só na economia, mas também na vida cultural e gastronômica, as quais evidenciam um dos lemas do capitalismo estadunidense: “sempre mais”.

Ein prosit!

[1] A IPA (India Pale Ale) é um tipo de cerveja criada pelos britânicos no século XVIII. Os britânicos enviavam cervejas para as seus soldados nos domínios ultramarinos, principalmente a Índia. Em decorrência do tempo de viagem, a cerveja acabava estragando. Um cervejeiro resolveu esse problema aumentando o teor de lúpulo e de álcool, inventando um novo estilo de cerveja, a Ipa. Esse novo estilo vai influenciar fortemente a nova escola norte-americana. 
[2[ Fiori usará a ideia do big bang para explicar a formação do sistema interestatal atual. Uma explosão inicial na Europa teria gerada o contexto atual, caracterizado pelos Estados-nações e pela hegemonia estadunidense. Da mesma forma podemos pensar a explosão das cervejas a partir da década de 1970. 
[3] Lei da pureza alemã ou Reinheitsgebot foi criada na Alemanha, em 1516, que estabelecia que toda cerveja deveria ter apenas quatro ingredientes, o malte, o lúpulo, a cevada e a água. 

Referências bibliográficas

OLIVER, Garret. A mesa do mestre-cervejeiro: Descobrindo os prazeres das cervejas e das comidas verdadeiras. São Paulo: Senac, 2012.

SERRANO, Franklin. Do ouro móvel ao dólar flexível. Economia e sociedade, Campinas, v. 11, n. 2 (19), p. 237-253, jul./dez. 2002.

TAVARES, M.C. A retomada da hegemonia norte-americana. Revista de Economia Política, vol. 5, n°2, abril-junho, 1985.

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