5 de setembro de 2014

Fazendo o dever de casa #1: o que os candidatos à presidência programaram para a área internacional?

Por Glauber Cardoso Carvalho e Larissa Rosevics


Caros leitores, as eleições estão a todo vapor. Daqui a um mês exatamente estaremos todos nós em frente à urna eletrônica, prestes a digitar dois números que podem mudar os rumos de nosso país. Apesar da demora no lançamento dos Programas de Governo de alguns candidatos e de outros decidirem reformulá-los aos 45 minutos do segundo tempo, hoje todas as propostas dos presidenciáveis já estão disponíveis na internet para que possamos ler.



A nós, interessa o que cada um dos candidatos propõe em relação à área internacional e esse será nosso exercício nas próximas semanas. Acreditamos ser impossível governar um país das proporções econômicas e políticas do Brasil, sem levar em consideração o ambiente internacional. As políticas nacionais precisam ser pensadas de maneira articulada com a política externa, caso contrário nós corremos o risco de termos políticas nacionais ineficazes e/ou, na pior das hipóteses, subordinadas as intemperes do sistema internacional.

O post de hoje, primeiro de uma série de três, pretende introduzir a importância crescente da política externa e da cena internacional nas campanhas eleitorais no Brasil, desde 1989, ciente de que foi nas eleições do novo século que a política externa foi incluída, de fato, como tema específico no debate. Isso não significa dizer que os candidatos e partidos anteriores as eleições de 2002 desconhecessem a importância da esfera internacional. O fato é que o debate econômico interno e a estabilidade monetária foram os problemas de frente das primeiras campanhas diretas depois da redemocratização.

Collor, em 1989, com seu discurso do novo, do diferente, do jovem, usou de exemplos das relações internacionais para desqualificar o seu oponente. Para Collor, o que “estava acontecendo com o Leste Europeu” (em referência à queda do Muro de Berlim e as consequências dos programas políticos e econômicos na União Soviética) mostrava que lá (ou seja, onde havia o “comunismo”) não havia liberdade e, logo, não havia felicidade (sic). Sua campanha relacionou Lula ao comunismo e a uma possível revolução, mas não houve debate de propostas para as relações internacionais do Brasil. Collor ganhou e entre os primeiros itens da pauta presidência estava à “atualização” conservadora da agenda internacional brasileira e o aprofundamento da submissão do país à globalização, tida como irreversível.

O governo de seu vice, Itamar Franco, conseguiu um feito que perdura até hoje: nele foi implantado o plano econômico que estabilizou a moeda, segurou a inflação e garantiu a eleição e reeleição de Fernando Henrique Cardoso, novamente sem discutir política externa. O que pontuamos claramente é que não se trata de reconhecer como se encontrava a situação internacional a época das eleições, sendo até óbvio dizer aqui que por muitas vezes FHC deixou claro seu pensamento sobre o aprofundamento da interdependência e seu posicionamento a favor da integração comercial, com o aprofundamento do Mercosul, mas o posicionamento para os seus eleitores dos planos de conduta da uma das feições da política de Estado, a externa, e a relevância que a definição desse posicionamento tomou nas eleições seguintes.

A eleição presidencial de 2002 foi, assim, emblemática para os estudantes e analistas de relações internacionais, pois, pela primeira vez, foi possível acompanhar a política externa e internacional do país como parte do debate eleitoral e das propostas de governos dos presidenciáveis. Em nossa opinião, claro, já era sem tempo. Ao eleger Lula da Silva presidente, a sociedade brasileira demonstrou estar insatisfeita não apenas com a política nacional do governante anterior, que pouco avançou na redução da pobreza e nas questões de educação, saúde, energia, emprego, e, sobretudo na não inclusão das classes baixas na economia, que se mantivera estável às custas de uma deterioração geral, mas também com sua postura em relação à política externa que esperou benesses de Washington e seu Consenso.

O interesse da opinião pública pela área internacional veio associado a uma série de eventos que demonstraram ser impossível um governo realizar suas propostas políticas nacionais sem articulá-las com o ambiente externo. Aos receios dos diferentes setores econômicos em relação a possível adesão do Brasil a ALCA somavam-se as incertezas com relação à política de segurança internacional dos Estados Unidos, depois dos ataques à Nova York, em 2001, e ao futuro do Mercosul, bloco que representava (e ainda representa) o principal consumidor de produtos manufaturados nacionais, mas que vinha reduzindo sua ação e interação.

Os debates eleitorais de 2005 e 2010 aprofundaram a clivagem partidária dicotômica entre dois projetos de Brasil inseridos nas visões de política externa. Os resultados, porém, mantiveram o enfoque, primeiramente, nas oportunidades que os temas prioritários já mostravam, como a integração sul-americana e a aproximação especial com o Sul do mundo, e, no segundo tempo, com os temas emergentes da crise econômica que pegou o mundo em 2008 (leiam o post da Patrícia Nasser de Carvalho).

Chegamos assim em 2014, os candidatos são diferentes, os contextos nacionais e internacionais também não são os mesmos, mas o fato é que a importância do cenário internacional para a política nacional não diminuiu. A crise na Argentina é uma ameaça à integração regional e à indústria nacional que tem no país vizinho o seu maior consumidor. A Aliança do Pacífico vem ganhando cada vez mais força na América do Sul e sua ótica comercialista associada à promessa do mercado oriental ganha cada dia mais adeptos. Por outro lado, acordos como os recentes firmados entre os países do BRICS e que podem dar novos rumos às finanças globais, como bem pontuou Hélio Farias aqui no blog, depende da continuidade do caráter estratégico da área para a política nacional.

Tudo isto posto, o simples exercício que a partir de hoje convidamos vocês a seguirem será, metodologicamente falando, o de identificação da temática internacional, enquadramento histórico e a busca de ligações com continuidades e/ou rupturas, nestas eleições que seguem enigmáticas. O balanço de avanços ou retrocessos, apesar de ficarem claros durante as apresentações dos programas, buscará não trazer juízo de valor e poderá ser concluído por cada leitor. Esse exercício será realizado nas próximas duas semanas, de forma seguida, nos nossos posts das sextas-feiras.

Nossa intenção é que você, leitor interessado, antes de decidir qual será o seu voto nas próximas eleições, procure se informar sobre os planos dos candidatos para além do Brasil: para a região e para o mundo, para as propostas de articulação das visões do Brasil no mundo e do mundo no Brasil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário