29 de outubro de 2014

:: Quarta do Especialista :: A ascensão do ISIS e o jogo geopolítico global

Autor convidado: Ricardo Zortéa Vieira
 
Middle East Monitor. Cartunista Latuff.

Em junho desse ano, o mundo se surpreendeu com a tomada da segunda maior cidade do Iraque, Mossul, uma metrópole de 1,8 milhões de habitantes, pelos insurgentes sunitas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, conhecido pela sigla em inglês ISIS. Em seguida, os militantes do ISIS proclamaram um novo califado islâmico, e tentaram avançar sobre a capital iraquiana, Bagdá, movimento que até agora foi frustrado pelas forças aéreas anglo-americanas e pelo apoio iraniano ao governo iraquiano.


Apesar do ISIS ter sido entendido na mídia estrangeira e nacional como um movimento terrorista, ou um exemplo da barbárie religiosa, sua ascensão na realidade reflete diversos elementos da disputa geopolítica regional e global atualmente em curso.

O surgimento do ISIS é parte da instabilidade no Oriente Médio que se seguiu a invasão do Iraque pelas forças americanas em 2003. Até aquele momento, boa parte da estabilidade regional era garantida por regimes laicos baseados ou derivados do Nacionalismo Árabe, com Kadafi na Líbia, o regime militar no Egito e o Partido Baath na Síria e no Iraque. Nesse último país, os baatistas de Saddam Hussein, apesar de majoritariamente sunitas, haviam mantido a paz através de uma política que misturava violência e conciliação, entre essa etnia e os árabes xiitas, bem como com os curdos. O regime laico e conciliatório de Saddam também funcionava no plano regional como uma espécie de tampão entre as duas principais potências do Golfo, a teocracia sunita da Arábia Saudita e a xiita do Irã.

Depois da guerra do golfo, Washington começou a procurar alternativas a esse equilíbrio, eventualmente optando, com a ascensão dos neoconservadores à presidência em 2001, por um sistema baseado em regimes diretamente implantados e mantidos pelo poder militar estadunidense. O primeiro alvo foi o Iraque, mas estava claro que Síria e Irã também sofreriam intervenções caso a guerra contra Hussein atingisse seus objetivos. Entretanto, não foi isso que ocorreu. Após a invasão, ao invés de uma democracia estável administrada da embaixada americana em Bagdá, os EUA tiveram que lidar com uma insurgência xiita apoiada pelo Irã que absorveu os recursos militares do país e esgotou o capital político do presidente Bush, com isso inviabilizando a reorganização geral do Oriente Médio projetada pelos neocons. Em outras palavras, no lugar de transformar o Iraque em uma plataforma para intervir no Irã, o que a invasão logrou foi uma ampliação da influência iraniana na região, situação que ficou clara com a chegada ao poder em Bagdá de um governo xiita próximo de Teerã. Para complicar ainda mais as coisas, os EUA foram confrontados durante os governos Bush e Obama no plano global com uma Rússia ressurgente sob Putin e uma China em ascensão. Nessa situação, do ponto de vista de Washington, um Irã hostil aos EUA poderia muito bem se aliar a Moscou e Pequim, garantindo a essa última acesso a energia por terra, o que livraria os chineses da dependência das importações marítimas de petróleo que estão sob constante ameaça da marinha estadunidense.

O fracasso em conter pela força a insurgência xiita, juntamente com a ascensão chinesa, deixou claro para a nova administração Obama que a paz regional e os interesses globais dos EUA só poderiam ser alcançados com alguma espécie de entendimento com o Irã. É isso que Obama tenta fazer desde 2009, ofertando a retirada das sanções em troca da paralisação do programa nuclear iraniano. Ocorre, todavia, que uma aproximação entre Teerã e Washington necessariamente é vista como ameaça pela Arábia Saudita, sempre temerosa de ter que lidar com o rival regional central sem apoio americano.

Simultaneamente à détente iraniano-americana surge, então, uma série de insurgências sunitas na Síria e no Iraque, contra os governos Assad e Maliki, ambos aliados de Teerã. No primeiro caso, a Arábia Saudita apoiou abertamente os insurgentes, e pressionou pela intervenção militar americana no país que o governo Obama, sofrendo oposição russa, mas também não querendo arruinar as negociações com os iranianos, se recusou a realizar. A insurgência síria é ligada diretamente ao Iraque, sobretudo pelo próprio ISIS, que tem divisões em ambos os países, e que foi recentemente repudiado pela Al-Qaeda, tradicional inimiga do governo saudita. E o próprio governo iraquiano, apoiado pelo Irã, não tem dúvidas sobre quem está por trás dos militantes do ISIS, fornecendo a eles dinheiro e armas: A Arábia Saudita.

Se de fato, como parece, o ISIS representar um instrumento saudita (ou de uma fração do governo saudita) para sabotar a distensão Irã-EUA, até agora ele foi mal sucedido, estando Washington e Teerã efetivamente colaborando contra a insurgência. Ou seja, estão agindo como aliados apesar de oficialmente não o serem, do mesmo modo que China e EUA cooperaram nos anos 1970 contra vietnamitas e soviéticos, seus aliados da véspera. As chances de continuidade da parceria entre Irã e EUA é ainda facilitada por ser esse o último elemento que poderia salvar a política externa de Obama, até o momento considerada um fracasso em praticamente todas as frentes. Entretanto, é igualmente possível que a insurgência sunita, somada com a pressão política que Arábia Saudita e Israel são capazes de exercer em Washington, e a atuação da Rússia, que com a crise ucraniana tem todos os motivos para descarrilar a política americana para o Oriente Médio, impeçam que a relação entre EUA e Irã se consolide. Nesse caso, estaria aberta, com a recente aproximação entre China e Rússia, a possibilidade de uma articulação tríplice entre essas potências e o Irã de modo a controlar completamente a Ásia Central, com suas vias de comunicação terrestres e recursos energéticos. E em um cenário como esse, a balança de poder na Eurásia estaria em vias de pender fortemente para uma aliança contrária aos EUA, o pesadelo de todo geopolítico americano desde a II Guerra Mundial.


Ricardo Zortéa Vieira é mestre e doutorando em Economia Política Internacional pela UFRJ, graduado em Ciências Sociais pela UFPR e membro do grupo de pesquisa Poder Global e Geopolítica do Capitalismo.

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