15 de outubro de 2014

:: Quarta do Especialista :: Como explicar o inesperado sucesso eleitoral de Aécio?

Autor convidado: Tiago Nasser Appel


Um grande amnésia coletiva.
Foto: Debate na Band em 14 de outubro de 2014.
 De Nelson Almeida/AFP para o site Uol Eleições 2014

O resultado das eleições de 5 de outubro – quando Aécio Neves fez 8 pontos percentuais a mais do que o apontado pelas pesquisas imediatamente anteriores à eleição – pegou muitos de surpresa. Em conversa com meu pai, nos perguntávamos por que um terço do eleitorado votou no candidato da oposição, já que a avaliação amplamente favorável dos governos PT em relação aos governos tucanos deveria ter dado no mínimo uma vantagem maior à Dilma, no final do primeiro turno. 


Em texto recém publicado, Cesar Caldas [1] traça um exaustivo quadro comparativo entre os dois governos. Nos quase 12 anos de PT, a dívida do setor público caiu (junto com o custo de seu serviço), as exportações aumentaram sobremaneira, o desemprego foi cortado pela metade, grandes campeões nacionais foram erguidos (com destaque à Petrobrás), a dívida externa deixou de ser um problema, a desigualdade foi reduzida, acompanhando a valorização real do salário mínimo, mais escolas técnicas foram criadas do que em toda a história pregressa do Brasil Republicano, a extrema pobreza foi reduzida em dois terços, o número de falências anuais de empresas caiu 70%, o combate a corrupção foi fortalecido, com mais de 1000 operações da polícia federal, as Varas da Justiça Federal quintuplicaram, etc.

Com efeito, tem-se como quase um pleonasmo que o PSDB de Fernando Henrique é o partido das elites, dos bancos e do grande capital “sem pátria”. No entanto, também sabe-se que os bancos nunca lucraram tanto como no governo PT [2]. O mesmo pode ser dito das empresas de mídia, telecomunicações e construção civil. Claro, o crescimento econômico maior e o aumento do crédito como proporção do PIB ajudam em muito a explicar o grande incremento nos lucros. Igualmente, a falência de vários bancos no primeiro mandato de FHC e a venda das massas falidas para o capital privado, num período de “reestruturação” conhecido como a era das privatizações, devem ter sem dúvida colaborado para um rendimento médio sobre o patrimônio líquido menor. Paralelamente, não agrada nenhum esquerdista o fato de os bancos brasileiros terem consolidado sua solidez e adentrado o rol dos mais eficientes do mundo no governo Lula, que manteve muito da política econômica ortodoxa do período FHC, batizada pelo PSOL de bolsa banqueiro.

O que queremos dizer é que, malgrado a clara correlação positiva entre nível de renda e apoio a Aécio [3], os ricos deste país nunca ganharam tanto dinheiro como nos governos de Lula e Dilma. De fato, segundo dados arrolados por Cesar Caldas, 93% das categorias (profissões) tiveram aumentos reais de renda durante o governo PT. Tirando, então, o argumento – que beira o ridículo em sociedades civilizadas – de que a classe média brasileira se ressente do governo porque agora tem que pagar mais pelos serviços da classe trabalhadora, isto é, de que ela se ressente da inclusão social, fica difícil explicar a generalizada rejeição da classe média ao PT. Claro, amiúde a rejeição se traduz em fadiga, fadiga em relação ao PT, o que seria mais compreensível se o candidato da oposição não fosse do partido que mais abocanhou os rendimentos da classe média, durante os anos de crise e “reestruturação” da década de 1990. É neste contexto que o “Fora PT” revela uma grande amnésia coletiva, e o Aécio do PSDB traveste-se de “candidato da mudança”.

Mas ainda acreditamos na civilidade da classe média brasileira e que a possível amnésia coletiva não seja suficiente para explicar o inesperado sucesso eleitoral de Aécio. Isto porque até agora não consideramos o imenso peso do chamado PIG, expressão popularizada pelo jornalista Paulo Henrique Amorim ao chamar a grande mídia brasileira de verdadeiro “Partido da Imprensa Golpista”. Durante os últimos 12 anos, veículos como a Veja, a Emissora Globo e jornais como O Globo e O Estadão exibiram um grande sentimento de ódio contra o PT, escancarando denúncias sem casos concretos apurados com uma militância raramente encontrada no período FHC, quando escândalos como a compra de votos para a aprovação da reeleição e a privataria e mensalão tucanos não “chamaram a mesma atenção”.

A grande pergunta é: por que a mídia golpista apoia de maneira pouco dissimulada o PSDB, sendo que nunca ganhou tanto dinheiro como no governo PT? No mesmo sentido, por que as ações de estatais e empresas do setor financeiro subiram em média 6% após o resultado do primeiro turno das eleições mostrar o candidato Aécio mais forte do que o previsto? Acredito que o nosso texto aponte para – talvez – uma única resposta lógica. A resposta é que – apesar de uma economia mais sólida, com redução das desigualdades e desemprego, aumento do consumo das famílias e do nível médio de educação e qualificação dos trabalhadores ser bom para a classe média e para os ricos como um todo – os grandes grupos econômicos que atuam “nos contra-mercados” de Fernand Braudel acreditam que os seus vested interests (“interesses estabelecidos”) no Estado, isto é, o seu status quo, esteja mais garantido com um governo ideologicamente mais próximo da direita. Por exemplo, estes grupos acreditam que um possível governo tucano aumentará a taxa básica de juros (Selic) – aumentando assim o “bolsa banqueiro” –; que um governo tucano pensará mais que duas vezes antes de desafiar o quase monopólio de comunicação da Globo, que recebe dinheiro público na forma, por exemplo, de gastos do governo com publicidade; acreditam que a direita poderá abrir o pré-sal a estrangeiros, como Serra queria fazer na campanha de 2010, etc.

Em outras palavras, os grandes grupos econômicos que apoiam o PSDB não o fazem porque acreditam que o partido “criará um ambiente de mercado melhor para os negócios” (sic!). Ambiente relativamente melhor par a os negócios foi criado no governo PT com juros mais baixos, demanda mais aquecida, etc. Agindo nos contra-mercados, estes grandes grupos sabem que o neo-liberalismo do PSDB não significa um “mercado mais livre”, e sim esplêndidas oportunidades econômicas junto ao Estado. E é assim que chegamos à conclusão lógica de que o governo do PSDB foi e será – caso Aécio seja eleito – necessariamente mais corrupto: os grandes grupos que o apoiam, escorados na sócia mídia golpista, sabem que o governo tucano significa uma menos transparente apropriação privada de fundos públicos, o que é o mesmo que dizer que uma vitória tucana significará que menos recursos públicos serão destinados a genuínas políticas públicas, que será, portanto, um governo menos democrático.


Referências



[2] No governo Dilma, o lucro médio dos bancos caiu um pouco, mais ainda ficou muito superior à rentabilidade média dos bancos durante a Era FHC. Ver http://veja.abril.com.br/noticia/economia/bancos-lucraram-8-vezes-mais-no-governo-lula-do-que-no-fhc
[3] De modo geral, nos Estados mais ricos da Federação Aécio levou mais votos que Dilma, e nos mais pobres, o contrário.


Tiago Nasser Appel possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Paraná (2009) e mestrado em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Federal do Paraná (2012). Atualmente, é doutorando em Economia Política Internacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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