27 de fevereiro de 2015

A arte de saber ser oposição

Por Larissa Rosevics



“A democracia se fragiliza se perdemos a capacidade de discordar,
a capacidade de tolerância, o respeito às diferenças.
A democracia necessita convivência entre os que pensam
 de maneira diferente, porque para pensar do mesmo
 jeito não é preciso uma democracia. Tem de haver tolerância
do governo e também da oposição.”

José Mujica, 28/02/2014


O fortalecimento da democracia passa tanto pela regularidade e lisura das eleições nos países, quanto pelo amadurecimento da arte de fazer oposição. Nem tudo está certo ou errado o tempo todo. Sem oposição corre-se o risco de ver o rei “andar nú” entre seus súditos, de que verdades absolutas sejam criadas e de que os erros passíveis na gestão pública nunca sejam admitidos, muito menos evitados.

A oposição tem um papel fundamental de mostrar ao governo quais são os seus limites, de que a sociedade é feita de opiniões distintas que devem ter seus direitos de expressão garantidos. A oposição deve ser acima de tudo, uma defensora da democracia e do bom governo.

Ser oposição não é fácil. O papel da oposição é o de, mesmo não tendo sido escolhida pela maioria, garantir que o governo eleito cumpra as suas promessas e represente efetivamente os interesses daqueles que o elegeram. No entanto, o que se observa em muitos casos é que os indivíduos (e até partidos) responsáveis por fazer oposição tendem a uma postura de ser “do contra”.

O “do contra” ao qual me refiro não se trata do personagem de histórias em quadrinhos criado por Mauricio de Souza para retratar uma postura comum entre crianças de determinada idade. Esse comportamento infantil de contrariar a tudo e a todos pode ser engraçado nos quadrinhos, mas na vida política ele toma uma proporção bastante diferente.

O “do contra” ao qual me refiro é aquele indivíduo, ou grupo de indivíduos, que acha que tudo está ruim o tempo todo, que não admite acertos por parte do outro e que só vê uma solução para os problemas: acabar com tudo. O “do contra” é intolerante por natureza, é paranoico e vê na sua posição de oposição a desculpa para atacar a todos, de ser o elemento desestabilizador sem medir as consequências dos seus atos. O desejo de destruir a situação faz da posição “do contra” completamente antidemocrática.

Toda ação gera uma reação de igual proporção e de sentido contrário, já dizia Newton. Quanto maior a intolerância da oposição, maior será a reação da situação. Enquanto isso perde a democracia e perde a sociedade como um todo. E vice e versa.
 
Sem oposição não há democracia. As palavras simples do ex-presidente José Mujica são de uma profunda sabedoria. Mas com políticos “do contra”, também não há.

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