16 de novembro de 2015

Mídia e Relações Internacionais: o conceito de Diplomacia Midiática

Por: Caroline Rangel Travassos Burity 

Presidenta Dilma Rousseff durante abertura da 70ª Assembleia-Geral das Nações Unidas.
Blog do Planalto. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

O primeiro autor a estudar o tema da Diplomacia Midiática (Media Diplomacy) foi o norte-americano Eytan Gilboa, professor de Ciência Política da Universidade de Harvard. Gilboa (2002) argumenta que a diplomacia tradicional, fechada, voltada para um trabalho entre diplomatas e governo, com negociações completamente desconhecidas do público, deu lugar a uma nova forma de diplomacia – a diplomacia na era da mídia. Ela é fruto da revolução da informação do século XX, e constitui um exercício diplomático baseado no conhecimento das massas. 


Em seu artigo intitulado “Diplomacy in the media age: Three models of uses and effects”, publicado em 2001, Eytan Gilboa afirma que os estudos ainda incipientes sobre a mídia e as Relações Internacionais pecam pela confusão feita na definição de certos conceitos. Segundo o autor, a falta de modelos analíticos para o estudo da diplomacia midiática tem inibido o progresso nesse campo. Para tentar minimizar esse problema, Gilboa propõe nesse trabalho três modelos analíticos conceituais que promovem um estudo sistemático da mídia como o principal instrumento da política externa e das negociações. Esses três modelos são: o da diplomacia pública (public diplomacy), o da diplomacia na mídia (media diplomacy) e o da diplomacia feita pela mídia (Media-Broker Diplomacy). 

Gilboa (2001) ressalta que cada um dos modelos analíticos propostos por ele só é apropriado para análise quando certas características ou condições estão presentes, e cada um tem diferentes ramificações profissionais e éticas para os três principais atores envolvidos na diplomacia: funcionários, a mídia e a opinião pública.

A ideia central da Diplomacia Pública “é uma comunicação direta com os povos estrangeiros, com o objetivo de afetar o seu pensamento e, em última instância, de seus governos” (Gilboa, 2001, p. 6). A comunicação em massa, entretanto, é apenas um dos canais da diplomacia pública. Esta pode ser realizada pela própria população através de intercâmbios culturais, científicos, acadêmicos, artísticos etc. A diplomacia pública serve, entre outras coisas, para cultivar “imagens favoráveis no exterior” (Gilboa, 2001, p. 6). Segundo Frederick (1993 apud Valente, 2007) para que o trabalho da diplomacia pública seja bem feito, é necessário ter conhecimento prévio de como o público estrangeiro pensa e ter a capacidade de agir dentro de seu campo cultural, sempre com o objetivo final de influenciar o governo de seu país, principal e final alvo das ações. Nas últimas três décadas, contudo, o surgimento de novos atores não estatais e a interdependência entre estes e os Estados ofereceu uma definição mais ampla do que venha a ser diplomacia pública. Segundo Signitzer e Coombs (apud Gilboa, 2001, p. 8), “passou a ser a maneira como indivíduos do governo ou privados influenciam direta ou indiretamente as atitudes e opiniões públicas que afetam as decisões de política externa de outros Estados”. 

A Diplomacia na Mídia é um dos recursos contemporâneos menos estudados e mais importantes dentro da área temática da comunicação diplomática, e seu conceito é bastante confundido com o conceito de diplomacia pública. Valente (2007, p. 95), fazendo referência a Gilboa, diferencia Diplomacia Pública e Diplomacia na Mídia: na Diplomacia Pública, a arma principal é a propaganda; na Diplomacia na Mídia, o meio de comunicação não é um transmissor de propaganda, e sim um meio de negociação. Na maioria dos casos, a primeira antecede a segunda, preparando o público envolvido na questão para a negociação do impasse e de suas consequências. 

Gilboa (2001) explica que os dois conceitos apresentam duas formas diferentes de atuação. Na Diplomacia Pública, os lados empenhados estão em confronto e há uma preocupação na formação da imagem e da propaganda política. Já na Diplomacia na Mídia, tem-se a utilização dos meios de comunicação estabelecendo a ponte entre Estados e atores não estatais para construir confiança e avançar nas negociações, mobilizando o apoio público para acordos. A Diplomacia na Mídia é conseguida através de diversas atividades, como conferências, entrevistas, cobertura de visita de Chefe de Estado a determinado país e a presença de mediadores internacionais.

O terceiro e último modelo proposto por Gilboa (2001) entende a mídia não apenas como um instrumento de que o Estado se utiliza para alcançar seus interesses, mas como um ator nas Relações Internacionais, enxergando os meios de comunicação e os jornalistas como o quarto poder (Paillet, 1986), atuando nas negociações internacionais. Para Gilboa (2001), este terceiro modelo de Diplomacia Midiática é aquela em que os jornalistas e a mídia atuarão como mediadores de conflitos internacionais na fase de pré-negociação. Nessa fase, é importante obter informações sobre o Estado opositor, pois far-se-á uma análise das vantagens e desvantagens de um processo de negociação, e os meios de comunicação atuam exatamente como aquele instrumento que levará as mensagens de um lado para o outro.

Segundo Gilboa (2001), o modelo de Diplomacia Feita pela Mídia possui quatro efeitos diferentes: iniciativa, motivação, ações e consequências. Iniciativa e motivação, de acordo com Valente (2007), referem-se às posições de quem inicia esse processo: se são os jornalistas agindo independentemente, ou motivados por ideologias de agentes de política externa ou outras partes interessadas. Ações se referem às formas como os jornalistas promovem essa interferência diplomática, e consequências são os efeitos produzidos pela ação no cenário internacional.


Referências Bibliográficas:

GILBOA, Eytan. Diplomacy in the media age: Three models of uses and effects. Diplomacy & Statecraft, v. 12, n. 2, 2001, p. 1-28. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1080/09592290108406201>. Acesso em: 28 abr. 2012.

_______. The global news networks and U.S. Policymaking in defense and foreign affairs. Cambridge, MA: Harvard University, 2002.

PAILLET, Marc. Jornalismo. O quarto poder. Trad. Neca Jahn. São Paulo: Brasiliense, 1986.

VALENTE, Leonardo. Política Externa na Era da Informação. Rio de Janeiro: Revan, 2007.

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O livro “Diplomacia Midiática no Governo Lula” é fruto da minha pesquisa de Mestrado dentro da temática aqui apresentada. A obra buscou responder à seguinte questão: o governo Lula se utilizou dos recursos de diplomacia midiática? Para alcançar este objetivo, analisaram-se as mudanças referentes às estratégias de comunicação do governo Lula da Silva no âmbito do Ministério das Relações Exteriores (MRE/Itamaraty) e da Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom/PR), e como essa estrutura alterou a relação entre a formulação da Política Externa e a imprensa. Em seguida, foram analisadas as estratégias midiáticas de promoção da imagem do Brasil no exterior.

Sendo assim, convido os leitos do Blog a conhecerem esta obra que também aborda o contexto da Sociedade de Informação e possibilita discutir o papel das grandes redes de comunicação global como instrumentos de controle, constrangimento, intervenção e negociação no cenário internacional.

Para maiores informações e aquisição de exemplar, acesse: http://diplomaciamidiaticanogovernolula.blogspot.pt/


Caroline Rangel Travassos Burity é Doutoranda em Relações Internacionais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/UNL). Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Formada pela UFPB em Jornalismo e Direito. É Servidora Técnico-Administrativa da UFPB, lotada no Gabinete da Reitoria. Foi Professora substituta da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Pesquisa na área de Mídia, Relações Internacionais e Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

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