19 de janeiro de 2016

Um ataque que virou notícia – não, não foi na Europa nem tampouco nos Estados Unidos

Por Julia Monteath de França







É de (ou era para?) chamar atenção a seletividade da cobertura internacional em grande parte dos meios de comunicação a que temos acesso. O exemplo aqui mencionado é apenas um dentre tantos outros.

Burkina Faso, uma república semipresidencialista da África Ocidental, que tem o francês como língua oficial em decorrência da ocupação colonial imperialista da França que teve início em 1896 e só teria fim em 1960, quando a República do Alto Volta (que até então era chamado de Alto Volta francês, devido à presença da parte alta do Rio Volta em seu território) se tornou independente. Foi apenas em 1984, após o golpe militar que levou ao governo Thomas Sankara ao poder, que o país recebeu o nome com origem nos dialetos dos grupos étnicos de maior representatividade na região. Em uma tradução bruta, Burkina Faso significaria algo como “terra das pessoas íntegras” ou “terra das pessoas incorruptíveis”.


Pois bem, Burkina Faso, mesmo tendo eleito um novo presidente ao final do ano passado, Roch Marc Kaboré, passa atualmente por uma séria crise política, como tantos outros países irmãos. Da mesma forma que eles, suas questões são abordadas muito pouco - ou quase nada – pelos nossos meios de comunicação. São muito menos contextualizadas em uma história milenar ou problematizadas nas análises econômicas, que enxergam o país como o 212º lugar em PIB per capita [fonte] e com problemas de tráfico infantil e de mulheres. Há alguns meses, instituições com maior atuação na área, como são os casos da União Africana e da ONU, já vêm alertando para a crise vivida no país e para as atrocidades que vêm sendo sistematicamente cometidas em seu território, tanto politicamente com a desestabilização do processo eleitoral com tentativas de golpes, quanto socialmente com a persistência de focos de trabalho escravo.

A despeito da contínua violência local, Burkina Faso só passa a se justificar como notícia quando os ataques acertaram um alvo específico, ou alguns, em geral envolvem brancos europeus. A ofensiva ocorreu na última sexta-feira (15 de janeiro de 2016) no distrito financeiro da capital do país, Ouagadougou. Primeiro um café e, do lado deste, o Hotel Splendid, um hotel internacional, ambos os estabelecimentos têm como clientes estrangeiros, inclusive, muitos funcionários da ONU. Neste ataque, 126 pessoas foram feitas de refém, inclusive um ministro de Estado, e foram mortas pelo menos 26 pessoas, de pelo menos 18 diferentes nacionalidades – sem contar com os 4 “terroristas” que morreram no local ou nas proximidades, porque esses não contam mesmo. A Al-Qaeda do Magrebe Islâmico reivindicou a autoria da atividade e os analistas internacionais que noticiaram seguem o raciocínio de uma cruzada contra a França, que possui base das Forças Aéreas perto da capital do país africano.

Esse foi um, entre tantos outros que não chegam a merecer serem noticiados, segundo os critérios estabelecidos pela seletiva mídia global. Esta parece não estar muito preocupada com qualquer tragédia humana vivida nas margens do sistema por pessoas à margem do sistema. 





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