22 de agosto de 2016

Maquiavel deveria ter conhecido Serra

Por Glauber Cardoso Carvalho


Estátua de Nicolau Maquiavel, em Florença.

As Olimpíadas do Rio 2016 foram tão criticadas antes, quanto festejadas ao final. Cerca de 15 dias de esportes em diversos locais da cidade, de alegrias e festas. Transporte e turismo que funcionam, obras terminadas, não teve uma notícia sobre problema em aeroporto e a zica deve ter tomado aquele famoso chá... de sumiço... o mesmo aconteceu com outros temas... Os jogos esconderam denúncias e delações premiadas que envolvem diretamente nossos atuais líderes políticos. Também abafaram a repercussão da votação dos senadores em levar a presidenta eleita ao julgamento político. Sobretudo, submergiram na Babel carioca as notícias acerca da crise da nossa região, da nossa integração.

Não fossem interinos, nossos governantes, as atitudes da diplomacia se justificariam, a médio prazo, na necessidade da reconstrução liberal da imagem do Brasil, da reinserção internacional do país, conforme já foi discutido por Bernardo Rodrigues aqui no blog. Não tivessem a certeza da continuidade e do sucesso do processo que corre no nosso Senado Federal, não mostrariam todas as cartas do baralho, como em um jogo de iniciantes. Mas têm.


O atual governo, que é interino, tem a certeza não ser. Seus construtores agem com a propriedade e a altivez como se tivessem ganho a eleição por maioria absoluta. E a rapidez dos que tem medo. A memória do brasileiro médio, creem, é curta e as Olimpíadas foram ajustadas como ópio do povo. A camiseta do Brasil usada para desfilar o “Fora Dilma” ou o “Fora Todo Mundo” foi lavada e usada para ir nas arenas olímpicas. Não se questiona na mídia nativa como os atletas viveram nos últimos anos, como conseguiram treinar, financiados que eram pelas diversas bolsas do governo. Tudo faz parecer que Deus e suas forças pessoais os levaram até a festa atual. Talvez assim é que vai ter que ser, pelo visto, pois bolsas e incentivos serão cortados mesmo.

Bom, mas voltando ao tema da integração, a festa acontece no Maracanã e o Mercosul sangra. Alguns dirão que não é novidade. O atual chanceler, José Serra, enquanto ainda pré-candidato à presidência pelo PSDB, em 2010, declarou abertamente que era desfavorável ao bloco regional. Durante sua permanência no Senado, também fez questão de enfatizar sua percepção de desagrado com o processo de integração do Cone Sul. Seu próprio site possui todos os seus pronunciamentos e está repleto de citações. Em 2015, dizia o senador:

“Nós temos – este Senado, esta Legislatura – que revogar o Tratado do Mercosul tal como ele está posto hoje. O Mercosul foi um delírio megalomaníaco, e olha que atravessou vários governos, que pretendeu promover uma união alfandegária entre Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. Sabe o que é uma união alfandegária? É uma renúncia à soberania da política comercial. [...] O Mercosul paralisou a política de comércio exterior brasileira.”[1]

Hoje, com a possibilidade real de atuação à frente do Itamaraty, se posiciona contra a presidência pro-tempore da Venezuela. A ação foi tal que o próprio chanceler uruguaio se queixou por uma possível tentativa de compra de apoio do governo de Tabaré Vazquez, como descreveu o chanceler Rodolfo Nin Novoa no último dia 10 de agosto, conforme afirmou o El Pais, de Montevidéu.[2]

"Não gostamos muito que o chanceler (José) Serra tenha vindo ao Uruguai para nos dizer que (tinha) a pretensão de que fosse suspensa a transferência (do comando do Mercosul à Venezuela) e que, além disso, se (a transferência) fosse suspensa, nos levariam em suas negociações (comerciais) com outros países, como que querendo comprar o voto do Uruguai."

O resumo dessa história é que, sem cerimônia oficial, Maduro assumiu o Mercosul, com a oposição do Brasil e do Paraguai, que o acusam de antidemocrático. Pois sim. A ver como isso vai se desenrolar.

Relembra Emir Sader que “a proximidade entre Lula e Kirchner foi um marco a partir do qual se fortaleceu o Mercosul e se expandiram os processos de integração regional com a Unasul, o Banco do Sul, o Conselho Sul-Americano de Defesa e a Celac.”[3] E que a restauração conservadora que se processa no século XXI recebe apoio entusiasmado de Washington, já com visitas oficiais. Cientes os americanos da importância do eixo Argentina-Brasil para o destino na América Latina, regozijam-se na manutenção de governos favoráveis com Macri e Temer na cabeça.

Assim, enquanto os Estados Unidos se declaram nossos parceiros naturais, relembrando nossa política externa de 100 anos atrás, o Brasil avisa que começaremos uma nova fase de aprofundamento das relações bilaterais... carnais? Qualquer compêndio da história diplomática nacional mostrará que essa atitude nunca encontrou razão de sustentação, pois depois de alguma euforia inicial o país do Norte não persevera nessa aliança não escrita.

Nosso vizinho platino também se aproxima explicitamente ao Big Brother, como Menem que quis ser da OTAN. Macri já teria liberado dois espaços estratégicos para os EUA implementarem bases militares, uma em Ushuaia, na Tiera del Fuego, e outra na Tríplice Fronteira.

O que tudo isso realmente significa, caso procuremos entender as linhas de política externa brasileira de forma crítica? Significa retrocesso. Mas não é de se esperar retrocesso em um governo que assume o poder de forma não democrática e que implementa uma gestão de homens ricos, brancos e heterossexuais, com a maioria citada em corrupção, e cujo próprio chefe do executivo é inelegível?

Caso não esperássemos tal coisa, diria que a busca de autonomia regional que foi a marca tanto da PE do Brasil quanto de outros países sul-americanos nos últimos anos está sendo interditada ou mesmo foi suplantada pela visão de mundo, que estava apenas amortecida, que nos coloca como o eterno emergente, como aquele país que se insere na divisão internacional do trabalho como exportador de commodities não beneficiadas. Ponto. Parágrafo. Essa posição o país e a elite conhecem bem. A elite também conhece bem como fazer para suplantar a crise, importar o que lhe aprouver (por isso não há necessidade de termos múltiplas indústrias e muito menos há funcionalidade num banco de apoio ao desenvolvimento nacional) e sabem também reinventar a exploração da força de trabalho até o limite (desgastando conquistas de tanto tempo).

A visão da autonomia é realmente muito nova e talvez não tenha se enraizado. Ela vem da percepção de governos que tentaram e chegaram a conseguir reverter anos de dilapidação do desenvolvimento regional produzidos pela implementação de ajustes ditados... sim... pelas grandes potências e seus organismos internacionais. Essa nova experiência sul-americana de autonomia, consubstanciada na União de Nações Sul-Americanas, que de forma original a partir da multiplicidade de conselhos temáticos tentaria agir em todos os campos da integração, foi abortada com o movimento conservador que paralisou a organização. Hoje, incapaz de emitir uma declaração “contra” o Brasil, revela a a importância do nosso país na criação e no encaminhamento da instituição, e, portanto, a acefalia e inépcia em contradizer seu criador.

Ter autonomia para decidir o seu caminho, para desdizer quem afirma que você não pode agir como você pensa que deve, não é algo que está arraigado no espectro político brasileiro. Fato. A maioria dos nossos políticos hoje são originários da década de 60, atuantes na ditadura em prol dela. Saudosos. Também há a classe de filhos e filhos de filhos. Todos conhecem e passam hereditariamente sua vaga, seu salário e seus privilégios para as outras gerações. Poucos são aqueles que surgiram de movimentos sociais, praticamente inexistentes são os vocacionados. 

Se não está no político, dificilmente e infelizmente, creio, a autonomia está no povo. Uma parcela da população não entendeu ou não foi esclarecida do processo de 13 anos de mudanças, por mais que suas próprias vidas tenham mudado. Outra parcela não conseguiu compreender porque não se conseguiu mudar tudo o que foi planejado. A primeira parcela, talvez falha do próprio governo, não entendeu que a melhoria de vida foi parte de um plano geral de desenvolvimento nacional com justiça social e, atribuindo a si próprio os méritos gerais, se tornaram facilmente massa de manobra de uma classe concupiscente e consciente de que uma mudança neste momento há de beneficiar a sua viagem à Disney (esta classe é a massa de outra que persegue a necessidade de proteger suas contas na Suíça ou em Cayman). A segunda parcela acomodou suas esperanças e se deixou levar mesmo quando ajustes recessivos foram implementados por um governo progressista. Além de nossa empatia com o problema dos outros usando hashtags em prol de uma causa, deveríamos concluir que #somostodosculpados. 

Diria Maquiavel que os homens caminham por caminhos já andados, aludindo ao necessário conhecimento do passado para programar o futuro que é feito de um acúmulo de experiências... progresso, desenvolvimento ou o que queiram chamar...

Mas retrocesso é diferente... Maquiavel deveria ter conhecido Serra.





[1] SERRA, José. Pronunciamento do Senador José Serra na Tribuna do Senado. Brasília: Senado Federal, 04/03/2015. Disponível em: http://www.joseserra.com.br/pronunciamento-do-senador-jose-serra-na-tribuna-do-senado/. Acesso em: 20/08/2016
[2] Cf.Rede Brasil Atual. Chanceler acusa José Serra de tentar 'comprar voto do Uruguai' contra Venezuela. 16/08/2016. Disponível em: http://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2016/08/chanceler-uruguaio-acusa-jose-serra-de-tentar-comprar-voto-do-uruguai-contra-venezuela-2159.html. Acesso em: 20/08/2016.
[3] SADER. Emir. América Latina irá para onde forem Brasil e Argentina. Rede Brasil Atual. 20/08/2016. Disponível em: http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2016/08/america-latina-ira-para-onde-forem-brasil-e-argentina-1869.html Acesso em: 20/08/2016

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