5 de setembro de 2016

NARCOS e a retórica conservadora na narrativa da guerra às drogas

Por Licio Caetano do Rego Monteiro


Cartazes da série Narcos, da Netflix.
Fonte: CineComPipoca
A série Narcos é como um caminhão cheio de mercadorias importadas dos EUA para o público latino-americano que tenta passar a fronteira no sentido norte-sul. Mas entre mercadorias lícitas e de qualidade, o motorista escondeu a carga mais valiosa: substâncias que prometem entorpecer o público para aceitar uma versão enlatada da história da guerra às drogas na América Latina.

A sinopse diz que é sobre Pablo Escobar. Mas é sobre a guerra às drogas. E a julgar pelo fato de que alguns meses depois de seu lançamento o governo do Estado do Rio de Janeiro solicitou à DEA que abrisse uma representação na cidade do Rio de Janeiro em 2015, parece que o filme é parte ativa na propagação dos mecanismos que mantêm a falida guerra às drogas ainda ativa na América Latina, alimentando os clichês que inibem qualquer reflexão mais crítica sobre a questão das drogas na América Latina.

O presente artigo enfoca a narrativa anticomunista típica da Guerra Fria inserida na narrativa da Guerra às Drogas e atualizada pela série Narcos, em exibição no Netflix.




A narrativa do narco-comunismo e a soma de todos os medos

Na década de 1980, a Guerra às Drogas ultrapassou as fronteiras dos EUA, mas a preparação para atravessar a fronteira se inicia na década anterior, no governo Nixon. Nos anos 1970 o objetivo da guerra ainda era interno, para defender a “família americana” da contracultura hippie associada também ao pacifismo contrário à guerra do Vietnã. O principal vilão era a heroína. O aumento significativo do consumo e aprovação de severas leis antidrogas engendram a criação do Drug Enforcement Administration (DEA) em 1973. A exportação do discurso jurídico-político e do estereótipo político-criminoso da droga dá seus primeiros passos nos anos 1970, com efeitos em praticamente toda a América Latina, onde ocorrem mudanças de legislação para controle de drogas.

Na década de 1980 o combate às drogas ganha ares de cruzada internacional, deslocando-se o combate para os países de produtores de drogas de origem orgânica, principalmente a cocaína, cujo consumo é incrementado nos EUA a partir da metade da década anterior. É o que Rosa Del Olmo chamou de discurso jurídico transnacional sobre as drogas. A Guerra Fria ainda estava quente na América Latina, com guerrilhas ativas nos Andes e na América Central e ditaduras apoiadas pelo governo norte-americano. O degelo, no entanto, era eminente. A política externa dos EUA no período Carter havia começado a lançar sinais de que a estratégia de sustentação das ditaduras estava se desgastando. O recurso a retóricas nacionalistas exacerbadas de alguns generais, como no Peru e na Argentina, poderia levar a efeitos não-desejados pelos EUA, como ocorrera com a Guerra das Malvinas, em 1982. E se a crise do bloco socialista ainda não estava evidente, já era possível notar a perda de fôlego da URSS em fomentar uma revolução internacional no quintal norte-americano. Portanto, o prosseguimento da guerra suja contra os comunistas na América Latina cada vez mais se mostrava como uma operação imperial de controle político e militar dos súditos revoltosos, e não como uma defesa do hemisfério ocidental contra o avanço do comunismo e muito menos uma aliança para o progresso, formulações típicas dos anos 1960 pós-Revolução Cubana.

Nesse contexto, a Guerra às Drogas se beneficia da legitimidade da cruzada anticomunista diante da opinião pública norte-americana, mas ao mesmo tempo renova a retórica anticomunista predominante atribuindo às guerrilhas e governos socialista o rótulo de serem narcotraficantes. Essa fusão discursiva pode ter ocorrido ora de forma intencional e estratégica, ora de forma meramente oportunista. Mas não precisamos recorrer a uma “teoria da conspiração” para dizer que essa vinculação foi conveniente para alimentar uma razão de Estado que justificasse a presença militar e a manipulação política do países latino-americanos mesmo após o fim da Guerra Fria. Desde a Doutrina Monroe, em 1823, sucessivas ameaças foram utilizadas para legitimar a ação “protetora” e “benevolente” dos norte-americanos na América Latina através da deposição de governos legítimos, operações e invasões militares, assassinatos, conspirações, bloqueios econômicos, instalação de bases, espionagem, corrupção de governantes, financiamento de grupos armados, etc. A Guerra às Drogas é só mais uma a fazer parte da soma de todos os medos. E dentro dessa soma, não se pode negar que a Guerra às Drogas tenha se tornado um dos principais elementos do discurso de ameaça nessas últimas três décadas.

Essa construção artificial promovida pela política norte-americana é citada no filme nas cenas dos bastidores na Embaixada norte-americana na Colômbia, em que três agências, o DEA, a CIA e o grupo militar (Comando Sul) trocam informações, cooperando ou disputando prioridades. O momento chave ocorre no episódio em que a embaixadora norte-americana parabeniza os agentes do DEA por terem descoberto a “conexão narco-comunista”, ao apreenderem, com um ex-agente da CIA que estava trabalhando para Pablo Escobar, fotografias dos traficantes carregando drogas numa pista de pouso da Nicarágua, então governada pela Frente Sandinista de Libertação Nacional. Os sandinistas haviam chegado ao poder em 1979 e governo era formado por uma frente de nove organizações de diferentes matizes ideológicos, que convergiam numa política nacionalista e popular. O fato de um assessor de um membro de uma das organizações que compunham o governo sandinista ter sido identificado na foto apreendida foi levado por Reagan à televisão como uma comprovação do vínculo entre traficantes de drogas e os sandinistas.

Embora a fusão entre a retórica anticomunista e antidrogas possa ter funcionado para alguns objetivos norte-americanos, sua importância não foi tão grande no fim da Guerra Fria. A Guerra às Drogas já começava a andar com as próprias pernas, enquanto as guerrilhas socialistas eram derrotadas militarmente ou abriam mão da luta armada para se inserirem nas disputas eleitorais, perdendo assim o apelo emocional para mobilizar uma razão intervencionista. Mas a retórica da ameaça narco-comunista ganha especial importância nas décadas de 1990 e 2000 justamente para rotular as guerrilhas ainda ativas nos Andes, casos do Partido Comunista do Peru (Sendero Luminoso), no Peru, e das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP) na Colômbia.

A série Narcos não problematiza a versão norte-americana da “conexão narco-comunista”. Pelo contrário, agrega à fala do narrador-personagem a descrição de fatos fictícios ou descontextualizados que conduzem a uma narrativa para reforçar a retórica anticomunista com base nas acusações de vinculação com o tráfico de drogas. Ao mesmo tempo, não mencionam em nenhum momento o papel da CIA no estímulo ao tráfico de drogas na América Central como fonte de financiamento dos contras que combatiam os sandinistas na Nicarágua nem o chamado Baile Rojo, que resultou na morte de 5 mil militantes de esquerda na mão de narcos e paramilitares colombianos na década de 1980, nem tampouco a proteção da CIA a Montesinos no Peru na década de 1990, homem forte do governo Fujimori comprovadamente envolvido com o tráfico de drogas.

Chile à beira do caos em 1973?

A estratégia discursiva anticomunista do filme se inicia logo na primeira cena após os créditos do primeiro episódio. O narrador-personagem Steve Murphy, agente norte-americano do DEA, conta sobre uma operação policial em que ele fornece informações que permitem à polícia colombiana atacar um sicário de Escobar chamado Poison. A cena violenta mostra uma chacina numa boate, com muitos mortos. Murphy então pede que não o julguem como vilão, pois o bem e o mal se confundem numa guerra como aquela em que ele estava metido. E então começa a narrar a história do Cartel de Medellín dizendo que vilões podem fazer coisas boas. A cena se desloca então para um deserto chileno onde se dá a seguinte narração:
Nixon achou que um general chileno era um dos mocinhos, porque ele odiava os comunistas. Então, nós ajudamos Pinochet a tomar o poder. Depois Pinochet acabou matando milhares de pessoas. Talvez ele não seja um dos mocinhos. Mas, às vezes, os vilões fazem coisas boas. Ninguém sabe, mas em 1973 o Chile estava a caminho de se tornar o maior centro processador e exportador de cocaína do mundo. Havia desertos para esconder laboratórios e quilômetros de litoral não patrulhado para despachar o produto. Mas Pinochet estragou a festa. Ele fechou 33 laboratórios e prendeu 346 traficantes. Depois, sendo Pinochet, mandou matar todos eles.


Esse pequeno trecho inicial já guarda em si o mote anticomunista da narrativa de Murphy. Um fato ou acontecimento – a existência de laboratórios de refino de cocaína no Chile no início da década de 1970 – é superdimensionado para caracterizar a essência de uma situação: o vínculo entre narcotráfico e comunistas. O Chile, então governado pelo socialista Allende, estava a caminho do caos (argumento usado pelos direitistas chilenos para justificar o golpe em 1973), que era se “tornar o maior centro processador e exportador de cocaína do mundo”, pois tinha desertos (!) para esconder laboratórios e um litoral não patrulhado (considerando que a droga deveria sair principalmente por embarcações).

A construção carece de sentido. Em primeiro lugar, o consumo de cocaína em 1973 ainda era muito baixo em seu principal mercado consumidor, os EUA, para engendrar a criação de um grande “centro processador e exportador de cocaína”. Em segundo lugar, desertos nunca foram os melhores lugares para se esconder nada, muito menos laboratórios de cocaína. Em terceiro lugar, o próprio filme demonstra posteriormente a importância das rotas aéreas do Cartel de Medellín para o litoral norte-americano para a consolidação do “império” de Escobar. As vantagens logísticas da Colômbia em relação à produção de coca e à exportação via rotas aéreas e marítimas para o principal mercado consumidor são extremamente superiores às do Chile, com a estreita e militarizada fronteira com Peru e Bolívia e a distância física em relação aos EUA. Portanto, a ideia de que o Chile pudesse estar chegando na década de 1970 a uma situação caótica similar à Colômbia dos anos 1980 só se justifica como uma reinvenção do passado à luz dos medos presentes, esse procedimento recorrente no filme de Padilha que podemos chamar de intrusão de medos externos ao tempo diegético da narrativa.

Mas a narrativa ainda nos brinda com o elogio das “coisas boas” que o vilão Pinochet fez ao “acabar com a festa” (como se o Chile de Allende fosse o Club Medellín de Escobar), fechando 33 laboratórios e matando 346 traficantes chilenos (logo depois de dizer que Pinochet havia matado milhares de pessoas, implicitamente socialistas e comunistas). Além do recurso à “conta de mentiroso”, citando números exatos para dar credibilidade ao fato, a narrativa deixa no ar a possível associação entre o massacre perpetrado por Pinochet contra milhares de militantes de esquerda, a execução sumária extrajudicial de traficantes de drogas no deserto chileno e a operação policial colombiana contra um sicário de Escobar que resulta numa chacina dentro de uma boate. É esse o convite do narrador-personagem para deixar de lado as distinções entre o bem e o mal e reconhecer as coisas boas que os vilões fazem.

Na intenção de mostrar o “lado bom” de Pinochet, esqueceram de colocar no roteiro as graves denúncias, feitas por um general chileno ex-comandante da DINA, de que o filho de Pinochet, sob sua proteção, havia organizado um laboratório para a produção de cocaína que era exportada para a Europa durante meados dos anos 1980.

M-19 e o Escobar bolivariano

O relatório final da Comissão da Verdade sobre os Acontecimentos do Palácio de Justiça, publicado em 2010, indica a confirmação de um possível pacto entre Cartel e M-19 para a tomada do Palácio, ocorrida em novembro de 1985. Em 1979, o M-19 havia iniciado sequestros dos chefes do tráfico. Como resposta, os narcos criaram o MAS, Morte aos Sequestradores, grupo que serviu basicamente para promover assassinatos de guerrilheiros. Em 1982, o M-19 aceita liberar a irmã de Uchoa. Dali em diante é que se especula possíveis acordos do M-19 com o Cartel de Medellín, como indicam os depoimentos de ex-traficantes colhidos por ocasião da Comissão da Verdade iniciada em 2008. O acordo entre o M-19 e o Cartel de Medellín pode ter ocorrido no período entre 1982 e 1985, ou se estendido até depois disso. A aliança é conjuntural e específica com uma das organizações armadas de esquerda existentes na Colômbia. Mesmo após a desmobilização do M-19, em 1989, os narcos, através do MAS, continuaram perseguindo lideranças do M-19, tendo assassinado o candidato a presidente Carlos Pizarro Leóngomez em 1991. Isso depois de o M-19 ter tentado negociar diretamente com o MAS o fim dos assassinatos. A mesma trajetória de hostilidade e aproximação entre o Cartel e o M-19 não se aplica a outras guerrilhas colombianas e aos partidos de esquerda, que foram sistematicamente combatidas pelos narcos na década de 1980.

O episódio da espada de Bolívar doada a Escobar parece fictício. De fato, o M-19 havia assaltado o museu e roubado a espada, que foi devolvida ao governo em 1989, no processo de desmobilização. Mas não há qualquer registro histórico que aponte essa entrega da espada de Bolívar a Pablo Escobar, numa cena de capitulação em que o líder guerrilheiro se ajoelha diante do chefe do Cartel de Medellín. Os roteiristas devem ter catado a ideia na autobiografia do filho de Escobar, em que consta que ele brincava com a espada de Bolívar quando era criança, donde se deduz que a espada esteve sob a posse de Escobar. Faltou explicar como a espada foi parar novamente nas mãos do M-19 para que o grupo a devolvesse ao museu em 1989.

O exagero da cena está dentro da linha narrativa da série que busca em vários momentos vincular a imagem do tráfico à dos guerrilheiros e governos de esquerda na América Latina. A própria simbologia da espada de Bolívar, à qual o próprio narrador-personagem faz referência, passa a funcionar como uma intrusão do passado (a libertação da América Espanhola) e do futuro (o bolivarianismo propagado por Hugo Chávez na Venezuela) num contexto do tempo presente diegético do filme, que simbolicamente “rouba” a espada de Bolívar como signo de libertação, associando-a ao “maior criminoso” da história recente da América Latina.

A questão do M-19 não se encerra por aí. A guerrilheira Elisa, namorada do líder do M-19, fica tão horrorizada com o acordo entre a guerrilha e Pablo Escobar que resolve desertar do grupo, buscar proteção com uma colega de trabalho norte-americana (esposa do agente do DEA, que havia dito à Elisa que seu marido era chefe de limpeza da Embaixada norte-americana), denunciar o perigo eminente (que ela ainda não sabia, mas seria a tomada do Palácio da Justiça) e ainda se apaixonar pelo outro agente do DEA (no melhor estilo bondgirl). Quando a colega a confronta por ter mentido ao não dizer que era uma comunista, Elisa responde (sem nem questionar a mentira da colega de que o marido faxineiro da Embaixada era agente do DEA): “Eu não sou uma comunista. Eu luto contra as injustiças, a corrupção, as desigualdades. Eu me apaixonei por um homem”. Ou seja, a mulher guerrilheira não é comunista, ela luta contra injustiças, desigualdades (como se isso estivesse em oposição ao comunismo), mas também não por vontade própria, mas por ter se apaixonado pelo guerrilheiro. Faltou pouco para o filme não acusar o M-19 de aliciamento de mulheres vulneráveis. Mas a benevolência dos americanos é tão grande que os agentes arriscam a própria reputação (o agente Peña nega ter transado com a comunista, pois, em suas palavras, seria “antiamericano”) e o emprego (darem abrigo a uma fugitiva comunista sem autorização) para proteger a única prova que ligaria Escobar ao ataque do M-19 no Palácio da Justiça.

O acordo entre Escobar e uma guerrilha socialista e a carinhosa proteção dos americanos à guerrilheira desertora devem ser vistas em contraste com o massacre promovido pelos narcotraficantes e forças paramilitares a eles ligado contra os militantes de esquerda de diversas organizações durante toda a década de 1980. A Colômbia estava à beira de se tornar o Chile de Pinochet, dado o alto grau de repressão política que resultou na morte de cinco mil militantes de esquerda, incluindo dois candidatos à presidência, senadores, deputados, sindicalistas, professores, advogados, jornalistas e toda a sorte de pessoas. Para a narrativa ficar coerente, o confronto do Cartel de Medellín se dá unicamente com os candidatos liberais Galán e Gaviria, apoiados e protegidos pelos norte-americanos enquanto a guerra suja contra os comunistas prosseguia.

Noriega comprado pela esquerda para traficar cocaína?

A passagem mais nonsense da série ocorre no episódio em que os agentes do DEA acusam o ditador panamenho Manuel Noriega de ser narcotraficante. Estamos em 1989, no período que precede o assassinato do candidato liberal Luiz Carlos Galán. A essa altura, Noriega já havia sido descartado pelos norte-americanos e, apesar dos serviços prestados à CIA, assim como Saddan Hussein, Bin Laden e Montesinos, deixou de ser caçador para virar a caça. A acusação de narcotráfico foi a causa belli da invasão do Panamá em dezembro de 1989, que resultou na prisão e deportação de Noriega para os EUA. O diálogo entre os agentes do DEA e da CIA na Colômbia não pode ter acontecido em 1989, quando Noriega já era formalmente acusado de tráfico de drogas pelos EUA desde 1988 e isso não seria nenhuma novidade trazida pelo DEA. Mas tirando esse detalhe, relevado pela necessidade de condensar o tempo na narrativa cinematográfica, o choque entre o DEA e a CIA é algo recorrente nessas décadas de 1980 e 1990, quando a Guerra às Drogas se fundia com as ações de contra-insurgência. Então quando os agentes do DEA acusam Noriega de ser traficante, a reação do comandante militar e do agente da CIA é de surpresa. Afinal, sendo ele um aliado norte-americano, conclui-se que não era metido com o tráfico. A falácia vem então na seguinte lógica: Noriega é “meu amigo”, mas se foi pego com drogas, então é, na verdade, “amigo do meu inimigo”. Para o espectador desatento que já aceitou todas os absurdos anteriores, entubar mais essa não é difícil, mesmo com o seguinte diálogo (Episódio 5, minuto 5:40 a 7:15):

MURPHY (agente do DEA) – Embaixadora, isso é informação de escuta não oficial. Nós interceptamos uma conversa entre traficantes.
EMBAIXADORA – O quê? Quais traficantes?
MURPHY - “Parecia Pablo Escobar”
PEÑA (outro agente do DEA) – “Temos quase certeza. Era difícil saber. A ligação estava ruim. Estavam ligando do Panamá”
EMBAIXADORA - “Do Panamá?” (surpresa)
MURPHY - “Eles [os traficantes] sabem que Galán [candidato a presidente da Colômbia] vai vencer, sabem que ele apoia a extradição e não vão ficar parados, esperando serem mandados de volta aos EUA”
PEÑA - “Embaixadora, dizem que Manuel Noriega está dando refúgio aos traficantes e possivelmente pontos de remessa para cocaína”.
GENERAL – “Estão transferindo as operações para o Panamá?” (riso de deboche) “Isso é bobagem, Peña... Desculpe, Embaixadora. Por um lado, você diz que Escobar está negociando com comunistas. Agora diz que ele negocia com Manuel Noriega. Não pode afirmar as duas coisas”.
OWEN (agente da CIA) – “Manuel Noriega nos ajudou a lutar contra o comunismo em toda a América Latina nas últimas duas décadas. Considero uma ofensa a tentativa do DEA de sujar o nome dele”.
Narração do Steve Murphy: “Eu não podia deixar de rir. Direita, esquerda... Para Manuel Noriega, o importante era o dinheiro. Quando Bush [pai] era chefe da CIA, Noriega fingia odiar o comunismo para que os EUA ignorassem o fato de que ele estava envolvido com o tráfico. Quando Noriega percebeu que poderia ganhar mais dinheiro transportando drogas com a ajuda dos comunistas, ele mudou de time. Então, invadimos o Panamá e prendemos o ‘Cara de Abacaxi’. Mas isso foi só depois [dezembro de 1989]. Por enquanto, o amigo de confiança e aliado era um agente da CIA de direita que estava ganhando dinheiro com Bush e com os traficantes”.



Não dá pra deixar de rir mesmo, mas é de chorar. Como alguém consegue escrever uma narração destas? Não bastasse desconsiderar a comprovada ligação da CIA com o tráfico de drogas, denunciada pelo senador John Kerry em 1986, na triangulação para financiar armas para os Contras (grupos que lutavam contra a guerrilha sandinista na Nicarágua), o narrador ainda inverte a acusação, dizendo que Noriega, agente da CIA durante duas décadas, “transportava drogas com a ajuda dos comunistas”. Aí o narrador já chega ao ponto de considerar o Cartel de Medellín como sendo sinônimo de comunistas.

Para ser coerente com a narrativa que busca transcender o bem e o mal, o roteiro poderia incluir esses dados que evidenciam as contradições da guerra às drogas e da contra-insurgência comandadas pelos EUA na América Latina. Mas não há transcendência alguma, o bem ou é americano, ou não é o bem.


O fardo do homem branco

A trajetória do narrador-personagem Steve Murphy é bastante significativa a respeito da auto-imagem que os artífices da Guerra às Drogas buscam criar. 

Uma série televisiva não é feita para o espectador refletir racionalmente sobre cada fato histórico narrado. O espectador deve ser capturado pela emoção. Os personagens despertam empatia do público, empatia cujo radical se origina no grego pathos, tem a ver com a paixão, ou seja, algo que prende, comove, mas geralmente também cega – e pode, como no sentido do termo inglês “pathetic”, nos tornar um tanto patéticos. Quando pegamos detalhadamente os fatos históricos e suas inserções na trama de Narcos, numa leitura mais atenta do roteiro, algumas informações aparecem mais claras, algo que o ritmo acelerado que conduz o espectador envolvido com o filme não permite fazer.

Outro fator também contribui para aceitação imediata do discurso que entremeia a saga do DEA na América Latina: o narrador-personagem e a maneira como ele é caracterizado. Steve Murphy é o narrador, e ele fala em nome da visão norte-americana sobre a Guerra às Drogas, mais até do que a visão do DEA, que talvez revelasse algumas fissuras mais profundas na relação entre as agências dos EUA, principalmente no que se refere ao papel da CIA no tráfico de drogas. Cada palavra do que diz é dita como verdade. Como ele é bom, logo representa o bem e diz a verdade. Veja a cena em que ele se apresenta. A narração diz “Meu nome é Steve Murphy, agente do DEA. Como pode ver, estou profundamente envolvido na Colômbia”, enquanto aparece a imagem de Steve abraçando uma criança ao lado de sua esposa. Compare por exemplo com o narrador-personagem de House of Cards, Frank Underwood. A primeira cena apresenta Frank matando à sangue frio um cachorro com suas próprias mãos. É a senha para o espectador entender que se trata de um cara mau e aceitar sua narração cínica – o que não impede de gostarmos do protagonista. Já Murphy não migra para Colômbia sem o seu gatinho de estimação, que por pouco não é retido no aeroporto pelos malvados burocratas colombianos. Ou seja, o cara é o bem, toda hora, em todos os sentidos. A cena do gatinho é a mais apelativa nesse sentido.

Para dar credibilidade à sua narração, Murphy é apresentado como um sujeito íntegro. Nenhum detalhe permite ao espectador pensá-lo de forma diferente. Ninguém sente empatia por uma instituição como o DEA, ou por um Estado, como os Estados Unidos. Mas o espectador deve sentir empatia por Steve Murphy, que ali funciona como a correia de transmissão de valores morais superiores, conectando os atos mais íntimos do personagem à política externa norte-americana. O roteirista é de uma fidelidade canina à narrativa da benevolência norte-americana, comparável àquela que o sicário Poison dedica a Pablo Escobar.

Steve Murphy não é só o agente do DEA mais íntegro, incorruptível, inteligente e corajoso, mas é também um cara que o espectador médio gostaria de apresentar à própria filha, ele é belo, recatado e do lar. Steve Murphy fica se sentindo mal por ter atirado e matado um traficante em fuga quando ainda atuava em Miami. Steve age por um dever maior, enfrentar a cocaína que invade os EUA, como outrora seu pai fez na II Guerra quando invadiram Pearl Harbor. Steve salva um bebê que seria morto por um sicário e o adota. Steve recrimina o policial que tortura. Até a mulher de Steve é uma santa. Não é cleptomaníaca como a mulher do também agente da DEA Hank Schrader, de Breaking Bad. A mulher de Steve vai para a Colômbia trabalhar como enfermeira num serviço médico para a população pobre. Ela aceita a adoção da criança encontrada numa favela de Medellín. Ela protege a guerrilheira desertora.

Vamos então demonstrar essa construção do agente Murphy como o mito da benevolência norte-americana. Os EUA são atacados em seu território, o narrador diz que a cocaína de Pablo invadiu o país (talvez tenham criado um dispositivo para obrigarem compulsoriamente os americanos a cheirarem o pó), que entre 1979 e 1984 foram 3.245 pessoas assassinadas em Miami (donde se presume que foram todos homicídios causados pelo tráfico de drogas e, mais ainda, por colombianos). “Os cretinos pisaram em nossa terra”, diria o pai de Steve sobre Pearl Harbor. A frase é citada para justificar que a guerra contra a cocaína da Colômbia era a sua guerra, seu dever. Interessante formulação, o pai de Steve teve que ir à guerra no Pacífico para defender sua pátria, Steve teve que ir à Colômbia, pois o consumo de drogas nos EUA seria o equivalente a uma invasão japonesa.

Então o americano sai do seu conforto para vingar a violação da qual foi vítima. Ele vai até o quinto dos infernos, que no caso fica em algum país da América Latina, para cumprir sua missão. Mas essa defesa dos EUA se transforma num valor a ser difundido, ele vai também salvar a Colômbia de si mesma. Porque a guerra às drogas é uma forma de livrar a Colômbia de sua sina.

Essa narrativa é a reedição do fardo do homem branco, aquele poema criado na passagem do século XIX para o século XX para mostrar o quanto é trabalhoso para os heróis homens brancos civilizados terem que dominar e explorar os malditos selvagens para o bem dos próprios selvagens, sem nem mesmo esperar destes um agradecimento pelo ato civilizatório que representa o exercício do poder imperial. “Tomai o fardo do Homem Branco - Envia teus melhores filhos / Vão, condenem seus filhos ao exílio / Para servirem aos seus cativos (...)” Aliás, a narrativa central da guerra às drogas pressupõe essa atualização do discurso neocolonial.

Em sua primeira temporada a série já conseguiu uma indicação para o Globo de Ouro. A caixa de ressonância dos senhores da guerra às drogas está muito bem avaliada pelos próprios senhores. A segunda temporada começou em 2 de setembro de 2016, aguardemos o festival de besteira que ainda teremos que assistir. Mas pior mesmo é ter que assistir ao vivo à abertura do escritório da DEA no Rio de Janeiro, a convite do próprio secretário de segurança, dois meses depois da estreia da série no Netflix e do enorme sucesso obtido no Brasil. Nenhuma campanha publicitária seria tão eficiente para a DEA quanto a série Narcos.

Licio Caetano do Rego Monteiro é Professor Adjunto do Departamento de Geografia e Políticas Públicas (UFF/Angra)

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