1 de setembro de 2016

Olimpíadas e política internacional

Por Bernardo Salgado Rodrigues


Fonte: Reprodução - Exame
Com o fim das Olimpíadas Rio 2016, permanece a nostalgia dos dias em que os melhores atletas do mundo disputavam o espaço mais alto no pódio, representando seus países (e até mesmo na condição de refugiados, pela primeira vez na história das Olimpíadas) através de uma estratégia de política internacional.

Obviamente que as glórias e louros olímpicos, para os atletas, são majoritariamente fruto de seu esforço pessoal e competitivo. Entretanto, a Olimpíada é, historicamente, uma das arenas de disputa internacional entre Estados mais simbólica e elucidativa, em que os atletas disputam pelos seus países na busca de acumulação de glória e força. 


A disputa pelas medalhas olímpicas são moedas de persuasão e prestigio no cenário internacional, que buscam demonstrar a virilidade dos respectivos Estados nacionais através do desempenho de seus atletas nativos. A relação entre influência global e número de medalhas é diretamente proporcional: mais medalhas, maior prestígio internacional; menos medalhas, menos prestígio e impressão de decadência em termos político-econômicos. 

Tanto as potências ocidentais, especialmente os EUA e a Grã-Bretanha, quanto a China, a Rússia e os países do antigo bloco socialista possuem ciência deste fato, e investiram/investem o máximo que podem para conseguir o maior número de medalhas em jogos olímpicos, inclusive voltando seus investimentos tradicionalmente para os esportes individuais, que rendem mais medalhas. A formação de atletas de alto rendimento é um projeto político-estratégico no cenário internacional, ensejando retorno simbólico muito maior que o investido.

Realizando uma cronologia dos três primeiros colocados em cada Olimpíada dos Tempos Modernos (1896-2016), observa-se a relevância de fatos históricos que confirmam a estratégia de política internacional das Olimpíadas. Em 1896, Estados Unidos, Grécia (país sede) e Alemanha figuraram nas três primeiras colocações. Entre 1900-1912 (período que antecede a Primeira Guerra Mundial e conhecido pelo imperialismo das grandes potências na partilha do mundo), países como França (1º em 1900), Estados Unidos (1º em 1904 e 1912), Reino Unido (1º em 1908) e Alemanha (2º em 1904, 3º em 1896) consistiam o rol de vencedores na arena internacional. No período pós 1ª Guerra Mundial, os Estados Unidos foram os grandes vitoriosos entre 1920-1932, tendo a Alemanha vencido os Jogos em Berlim de 1936, buscando demonstrar a suposta força e superioridade alemã no cenário internacional. No período da Guerra Fria (1948-1992), a força militar necessitava também ser demonstrada nos esportes: Estados Unidos (1º em 1948, 1952, 1964, 1968 e 1984) União Soviética (1º em 1956, 1960, 1972, 1976, 1980, 1988 e 1992[1]) e Alemanha Oriental (2º em 1976, 1980 e 1988) se revezaram nas duas primeiras colocações do quadro de medalhas, com exceção dos anos em que existiram boicotes de uma das partes (1980, em Moscou, por parte dos Estados Unidos, e em 1984, em Los Angeles, por parte da União Soviética e Alemanha Oriental). No período de 1996-2004, os Estados Unidos foram os vencedores, sendo seguido por antigas potências (como Alemanha, França e Japão) e países emergentes (como Rússia e China), tendo sido superado pela China nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, o mais novo país a contestar a hegemonia unipolar estadunidense no sistema internacional.

Se analisarmos o top 10 das últimas três Olimpíadas (Pequim 2008, Londres 2012 e Rio 2016), temos um quadro das grandes potências internacionais (Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido, Alemanha, Austrália, Coreia do Sul, Japão, Itália, França) no cenário político e econômico que reverberam nos esportes e refletem o investimento e a vontade política dos Estados em buscar prestígio internacional através das Olimpíadas. 

A própria colocação do Brasil no quadro de medalhas na Rio 2016 é prova desta hipótese, tendo sua melhor colocação em Olimpíadas em grande medida devido a projetos políticos, como o Programa Segundo Tempo[2] e o Programa Bolsa Atleta[3]. Estes indicam uma importância crescente do país no investimento ao esporte, ainda que insuficiente e possivelmente intermitente. 

O sucesso em Olimpíadas e na projeção internacional de um país consiste numa combinação de investimentos com vontade política; sem essa simbiose, não há resultados.




[1] Com o desmembramento da URSS em 1991, as ex-repúblicas soviéticas (exceto Lituânia, Estônia e Letônia) participaram dos Jogos Olímpicos de 1992 como Equipe Unificada (Comunidade dos Estados Independentes). A CEI ficou em primeiro lugar no quadro de medalhas em sua primeira e única participação nos Jogos Olímpicos de Verão. Os atletas da Equipe Unificada conquistaram 112 medalhas (45 medalhas de ouro, 38 medalhas de prata e 29 medalhas de bronze). Nas Olimpíadas de 1996 as 12 nações competiram em separado.
[2] http://portal.esporte.gov.br/snee/segundotempo/
[3] http://www2.esporte.gov.br/snear/bolsaAtleta/sobre.jsp

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