27 de março de 2017

Atentado em Londres

Por Suellen Lannes


By Diliff - Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=564795

Independente das correntes de pensamento seguidas, um atentado terrorista necessita de uma agenda política, ou seja, precisa ser um meio de conseguir um objetivo político, na melhor concepção maquiavélica do termo. Sem ter uma organização terrorista por trás, que desenhará e propagará esse ideal político a partir do ato de terror empreendido, o ato perde o seu véu político e passa a ser considerado um ato solitário de terror. Da mesma forma, para se manter a agenda política de terror é necessário a um grupo a manutenção de suas ações terroristas.

Seguindo a linha adotada pelos Estados Unidos pós-11 de setembro, o Estado Islâmico (ISIS) tem procurado adotar um discurso universalizante e genérico que respalda qualquer tipo de atentado empreendido por pessoas que estejam ou não ligadas ao grupo. Por meio de sua agência de propaganda (Amaq), o atentado empreendido em Londres no dia 22 de março de 2017 foi realizado por um dos seus soldados, colocando em prática um chamado para se atingir cidadãos de nações pertencentes à coalizão que atua contra o Estado Islâmico. 


Investigado pela agência de inteligência britânica (MI5), Khalid Masood foi considerado uma figura periférica, apesar de ter um histórico de delitos graves, anteriores a própria existência do ISIS. Esse contexto não deixa claro a existência de uma relação entre ele e o ISIS. A investigação sobre ele foi por causa dos seus atos extremistas violentos, não por uma possível relação com o grupo. A atual ligação de Massod com o ISIS é afirmada, somente, pelo próprio ISIS.



A morte do autor dos atentados deixará algumas perguntas sem resposta, principalmente, a real motivação dos atentados e a verdadeira ligação do autor com o Estado Islâmico e sua agenda política. Essa ausência de respostas favorece o discurso político generalista desse grupo, colocando em sua “conta” um atentado no coração não só de Londres, mas, também, ao simbolismo da política britânica, o Parlamento. 

Observando os últimos retrocessos do Estado Islâmico e os impasses na guerra na Síria, pode-se constatar a necessidade de se contra-atacar do grupo, principalmente, contra membros da coalizão em seus territórios, ato menos frequente e onde ganharão uma mídia muito maior do que um atentado na Síria, onde já ocorrem diariamente. Nesse contexto, qualquer ato aos membros da coalizão é uma ação política do Estado Islâmico, mesmo não tendo a atuação direta do grupo, comprovada. Nesse contexto, a questão levantada por Kenan Malik: como distinguir violência direcionada por ideologia de surto sociopata[1], suscita outros pontos interessantes para se compreender como e porque esses atentados “low-tech”[2] acontecem e as dificuldades de prevê-los. Além disso, poderia ajudar a diferenciar uma real ação do Estado Islâmico de um mero oportunismo e separar todo um arcabouço religioso de atos extremistas, os quais só gera mais vítimas e coloca toda uma comunidade em xeque.

[1] Artigo publicado no jornal “The Guardian” sob o título: “How can distinguish violence driven by ideology from sociopathic rage?” Extraído de: https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/mar/26/distinguish-violence-driven-by-ideology-from-sociopathic-rage

[2] O termo “low-tech terrorism” refere-se a atos perpetrados utilizando armas e planos de baixo orçamento, simples e menos elaborados. Os principais exemplos desse tipo de terrorismo foram os atentados em Nice (julho, 2016), na boate em Orlando (junho, 2016) e na estação de trem em Düsseldorf (março, 2017).

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