6 de março de 2017

China e a (des)integração da América do Sul

Por Bernardo Salgado Rodrigues

Pixabay



A partir de meados da década de 2000, mais precisamente após as visitas de Estado de Hu Jintao (2004-2008) à região, a estratégia going global[1] e o documento China’s Policy Paper on Latin America and the Caribbean[2] (2008), a China se apresenta como um dos maiores parceiros estratégicos de todos os países da América do Sul.

Em termos geopolíticos, o “pouso do dragão” em território sul-americano se justifica por uma série de fatores: 1 – vácuo de poder relativo dos Estados Unidos na região desde o início da war on terror, relegando a América do Sul um segundo plano ao realizar guerras/intervenções diretas/indiretas no Afeganistão (2001), Iraque (2003), Líbia (2011), Ucrânia (2014), Síria (2016) em apenas quinze anos[3]; 2 – enfraquecimento da unipolaridade estadunidense e ascensão da multipolaridade, tendo como maior exemplo os BRICS ao buscarem maior participação nas relações internacionais e propor uma nova arquitetura financeira mundial que traduza a nova configuração econômica e política internacional e reduza as assimetrias participativas; 3 – estratégia do Estado chinês de going global, que visa assegurar recursos estratégicos e mercados potenciais para as futuras etapas de seu desenvolvimento nacional, no qual a América do Sul se configura como uma das regiões principais, devido as potencialidades de externalização do modelo chinês para a região; 4 – convergência entre a estratégia comercial chinesa e a estrutura econômica sul-americana, uma vez que a configuração histórica de exportadores de commodities veio a complementar uma etapa específica do desenvolvimento chinês, fato constatado no boom dos anos 2000; e 5 – nova fronteira econômica para os investimentos e financiamentos chineses, sendo a segunda região com maior IED chinês no mundo, depois do Sudeste Asiático (RODRIGUES; MOURA, 2016)


A entrada da China na América do Sul consiste em um dos vetores da sua política externa. Para os países sul-americanos, tal processo vem se configurando tanto benefícios em termos estruturais e econômicos, como, concomitantemente, desafios políticos e estratégicos.

Segundo dados UN Comtrade - International Trade Statistics Database[4], a China é um dos principais parceiros comerciais de todos os países sul-americanos, tanto no que se refere às exportações quanto às importações. Entre 2001 e 2013, o comércio bilateral multiplicou-se por vinte e duas vezes, o saldo comercial em commodities latino-americanas foi de 2,3 bilhões de dólares para 62,6 bilhões de dólares, e o déficit em bens industrializados alcançou 130,7 bilhões de dólares em 2013, contra 7,5 bilhões de dólares em 2001[5]. Ainda, teve-se uma expansão do consumo e do mercado interno nos anos 2000; aumento dos fluxos comerciais, de investimentos e financiamentos (no qual os créditos chineses à região mostram-se superiores ao total das carteiras do Banco Mundial, BID e Eximbank dos Estados Unidos para os países latino-americanos a partir de 2010); maior convergência político-estratégica com participação da China nos fóruns da CELAC[6] e até mesmo na configuração dos BRICS.

Entretanto, alguns desafios são pertinentes de serem avaliados pelos países sul-americanos e que culminariam numa hipótese de desintegração, tais como: intensificação da condição de dependência primário-exportadora sem contrapartidas de internalização de ganhos dinâmicos no longo prazo, como transferência tecnológica ou incentivo à produção de bens de maior valor agregado; investimentos infraestruturais voltados para os interesses imediatos da China (maior país investidor em projetos de infraestrutura na região), em detrimento de uma integração física e energética que intensifique e priorize o desenvolvimento intrarregional; alteração de parceiros estratégicos no entorno geopolítico sul-americano, no qual os próprios países sul-americanos diminuem suas relações intra-comerciais com a ascensão chinesa; modelo chinês de "cooperação pragmática", estabelecendo parcerias no âmbito bilateral, ou seja, entre cada país individualmente, o que diminui o poder de persuasão e os ganhos para os países sul-americanos se atuassem em conjunto; perda do papel do Brasil como “motor da integração regional”, com relativo afastamento brasileiro nos projetos regionais, possuindo um papel secundário na integração econômica e política sul-americana, se comparado com as iniciativas chinesas; renegação do Banco do Sul, por parte do Brasil, por conta do Banco dos Brics e da não ratificação por parte do Congresso brasileiro do projeto de criação da instituição.

Dessa forma, a prerrogativa da entrada na China na região pode ser interpretada como um dos fatores da reprimarização ou especialização regressiva do padrão comercial dos países latino-americanos, agravando inclusive a desindustrialização e encorajando o aumento da financeirização. Entretanto, cabe salientar que não há uma imposição ideológica ou condicionalidades econômicas e políticas strictu senso, e sim prerrogativas que se baseiam no próprio desenvolvimento econômico-político da China, baseado principalmente no comércio quando se refere às relações internacionais, em função de especificidades da sua resiliente política externa e também de sua dependência em recursos naturais.

Essa correlação de forças pode ser avaliada a partir de critérios que visualizem os efeitos secundários, como a própria desintegração da América do Sul, conquanto tenha crescente relevância a falta de interesse estratégico de determinadas políticas dos Governos sul-americanos num projeto de integração soberano e autônomo. Caberia aos governos, portanto, não serem meros figurantes de um roteiro criado do outro lado do Pacífico, atuando de maneira menos fragmentada e mais propositiva, convergindo os diversos padrões de inserção externa (num contexto de ausência de uma efetiva perspectiva integracionista), de modo a vislumbrarem efetivamente um novo perfil de desenvolvimento, com inclusão social concomitantemente a uma inserção internacional soberana. Em outros termos, ainda que se visualize um processo de desintegração sul-americana engendrada pela ativa participação da China na região, essa ascensão pode ser visualizada como uma janela de oportunidade para a América Latina ao compreender sua potencialidade em termos integracionistas/estratégicos e as características de seus vínculos com a China ao definir sua inserção global.



Referências bibliográficas

RODRIGUES, Bernardo Salgado; MOURA, Rafael Shoenmann de. América "LaChina": nova etapa da dependência latino-americana? 40º Encontro anual da ANPOCS, 2016, Caxambu. 32 p. 2016. Disponível em: <http://www.anpocs.org/index.php/papers-40-encontro/st-10/st27-4/10421-america-lachina-nova-etapa-da-dependencia-latino-americana/file>. Acesso em: 20 dez. 2016.


[1] A partir dessa estratégia, foram elaboradas diretrizes para o investimento externo, que podem ser resumidas em três principais objetivos: acessar recursos naturais escassos no país, fomentar a industrialização e o desenvolvimento tecnológico das empresas nacionais, e aumentar a competitividade das empresas chinesas por meio da promoção de marcas no exterior e da construção de uma rede global de produção e fornecimento.

[2] Também conhecido como Livro Branco sobre a América Latina e o Caribe, o documento pauta as diretrizes do Governo chinês referentes a futura cooperação potencial com países em desenvolvimento que desempenham um papel cada vez mais importante em assuntos internacionais e regionais, visando aprofundar a cooperação comercial, energética e de defesa.

[3] Ainda assim, a América do Sul continua a fazer parte do perímetro de segurança geoestratégica estadunidense, haja vista o interesse no Atlântico Sul com a reativação da IV Frota (simultaneamente as descobertas do pré-sal brasileiro), os Tratados de Livre Comércio com países da região, assim como a instauração da Aliança do Pacífico e a iniciativa do TransPacific Partnership.

[4] https://comtrade.un.org/

[5] http://brasilnomundo.org.br/analises-e-opiniao/china-e-america-latina-parceria-sul-sul/#.WFlB0FMrLIU

[6] Plano de Cooperação entre a China e a Celac para o período 2015-2019 e assinada a Declaração de Pequim.

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