3 de abril de 2017

A mídia e o Estado Islâmico: as revistas de divulgação do grupo

Por Jessika Cardoso de Medeiros

Latuff Cartoons


Com sua origem no início dos anos 2000, o grupo intitulado Estado Islâmico foi se moldando e alterando suas estruturas até chegar ao que se conhece atualmente. Se diferenciando dos grupos anteriores o Estado Islâmico se destaca na mídia internacional, seja no tocante à atuação ou no uso das ferramentas digitais como veículos de propaganda.

Desde 2014, com a declaração do Califado, a atuação do grupo se tornou mais ostensiva com constantes atividades de combatentes no Oriente Médio e expansão para fora desse território. A atividade midiática do grupo também tomou forma e força, com a utilização de um eficiente aparato propagandístico que permite difusão mundial das ideias, objetivos e realizações.

O uso de redes sociais, tais como o Facebook e Twitter, são frequentes para disseminar o ódio contra xiitas, mas também falar das “maravilhas” que o ingresso no EI vai proporcionar ao novo combatente. Enquanto que o Youtube é usado para espalhar vídeos, tanto amadores quanto profissionais, com mensagens e imagens violentas que chocam pelo teor de brutalidade usada, mas também funcionam como elemento de dissuasão política. O Telegram é um aplicativo de conversas utilizado pelos integrantes para se comunicar entre eles e com futuros combates, a escolha especificamente desse aplicativo é devido à utilização de criptografia nas conversas. (COCKBURN, 2015;NAPOLEONI, 2015)

Para ter uma maior abrangência, o Estado Islâmico possui meios de propagandas próprios, os quais praticamente todos eles são difundidos em outros idiomas além do árabe. Antes de entrar no tema dessa postagem, que são as revistas, vale citar os outros meios de transmissão de ideias do grupo. Na Síria e no Iraque existe uma rádio (Al-Bayan)que transmite boletins diários, a Al-Naba que é um relatório semanal do grupo, o último foi divulgado em 23 de março de 2017, esse é um dos poucos meios que são publicados somente em árabe. Também existe um aplicativo oficial do EI, chamado Dawn, nele são divulgadas notícias e atualizações sobre o grupo jihadista e um aplicativo voltado para a alfabetização de crianças, Alphabet Teacher. (BBC, 2016; NAPOLEONI, 2015)

Voltando as revistas, elas compartilham do objetivo propagandístico de todo o aparato midiático do grupo, contudo adquirem uma diversificada gama de pautas. Tais são relacionadas com os feitos e conquistas, podendo ser militares ou não, divulgação do califado e califa nas regiões atuantes, diversas mensagens religiosas, veiculação de fotos e vídeos, além de seções de operações militares, com o detalhamento de onde e como ocorreram e como o grupo é visto nas palavras do “inimigo”. A diversidade de revistas também mostra os diferentes públicos o qual o grupo busca alcançar, já que cada uma delas é publicada em um idioma diferente.
     
O grupo até ano passado possuía cinco diferentes publicações:
A primeira a ser lançada foi a Dabiq Magazine em julho de 2014, essa foi a primeira revista em língua inglesa. As publicações começaram de maneira bimestrais, após um ano e meio tornaram-se trimestrais, foram quinze edições lançadas até julho de 2016, o qual após essa data não é divulgado uma nova.

A segunda revista que foi publicada é a Dar al-islam que saiu no final de 2014 e buscava atingir o público-alvo de língua francesa. Essa revista não possuía uma periodicidade certa, tiveram edições mensais, outras bi ou trimestrais. A mesma alcançou dez publicações, e tal como aconteceu com a Dabiq desde agosto de 2016 não é publicada uma nova edição.

Seguindo, em maio de 2015 foi introduzida a versão russa chamada Istok. Tal foi trimestral até a terceira edição, a quarta e última foi lançada  seis meses depois, em maio de 2016. Essa revista em russo alcançou somente quatro volumes. 

Em junho de 2015 o grupo lançou a Konstantiniyye (Constantinopla), a versão em turco. Como a versão francesa, as edições não possuíam uma periodicidade fixa, e em agosto de 2016 não há uma nova edição. O número de volumes lançados se limitou a sete.

O que se poderia pensar que fosse o fim das revistas do grupo, surgiu na forma de uma nova publicação, a Rumiyah (Roma). Em setembro de 2016 foi lançada a primeira edição e desde então, mensalmente uma nova é divulgada, sendo a sétima nesse mês de março. Embora as revistas sejam muito parecidas entre si, seja na estética, seja na proximidade de conteúdo, a Rumiyah tem uma média de páginas menor que as outras.

Esse número médio de páginas menor que as publicações anteriores pode ser um fator que facilita a periodicidade mensal, consequentemente tornando a propaganda intensa. Embora possa restringir à quem compreende o idioma inglês, enquanto as outras possibilitavam um leque de abrangência maior.

Uma última característica que podemos destacar é o nome em si, Rumiyah (Roma), cidade que tem um enorme valor simbólico para o ocidente, visto que é um dos berços do catolicismo. Dessa maneira, esse nome para a publicação do Estado Islâmico deixa implícito (ou não) que o grupo tem pretensões de conquista sobre a cidade, visando abalar o ocidente pela via religiosa.
   
Com essa visualização dos meios de propaganda e disseminação de ideias do grupo, podemos avançar e relacionar com o ataque ocorrido em Londres no dia 22 de março. Executada por Khalid Masood, cidadão britânico, as ações se desenvolveram de duas maneiras distintas, primeiro com o uso de veículo e seguido com o manuseio de faca.

Um ataque não é planejado do dia para noite, é necessário algum tempo antes que a ação em si seja executada. Assim, se pegarmos as edições da revista Rumiyah de outubro, novembro e dezembro de 2016 (de três à cinco meses antes de Londres), notamos uma seção denominada “Just Terror Tatics”¹ . Nela são passados conhecimentos táticos e operacionais de como executar um ataque com determinado tipo de objeto².

Nas edições de outubro e dezembro são apresentadas táticas de como usar uma faca para executar ataques e como escolher alvos. Enquanto da edição de novembro são passados táticas para a utilização de veículos como armas, como por exemplo, quais tipos de veículos usar e quais não, alvos em potencial, preparação e planejamento.

Por mais que existam dúvidas quanto a relação entre Khalid e o Estado Islâmico, o material publicado pelo grupo pode ter sido de extrema influência quanto ao planejamento das ações perpetradas  em Londres.

***

[1]  Destacando que aqui o termo “just” não significa somente, e sim no sentido de justo, visto que o grupo vê os ataques feitos contra o ocidente como justiça sendo feita sob a bênção de Allah e do Califa.
[2] - O uso do termo objeto é em razão que, não necessariamente, um carro é uma arma.


 

Referências:

BBC. How Islamic State uses media as key propaganda tool. 2016. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-middle-east-35263644>. Acesso em: 27 mar. 2017.

BBC. London atack: What we know so far. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/uk-39355108?SThisFB>. Acesso em: 27 mar. 2017. 

COCKBURN, Patrick. A Origem do Estado Islâmico: o fracasso da guerra ao terror e a ascensão jihadista. São Paulo: Autonomia Literária, 2015.

NAPOLEONI, Loretta. A fênix islamista: o Estado Islâmico e a reconfiguração do Oriente Médio. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015.

RUMIYAH MAGAZINE. Al- Hayat Media Center, v. 2, 2016. Disponível em: <https://azelin.files.wordpress.com/2016/10/rome-magazine-2.pdf>. Acesso em 27 mar. 2017.

RUMIYAH MAGAZINE. Al- Hayat Media Center, v. 3, 2016. Disponível em: <https://azelin.files.wordpress.com/2016/11/rome-magazine-3.pdf>. Acesso em 27 mar. 2017.

RUMIYAH MAGAZINE. Al- Hayat Media Center, v. 4, 2016. Disponível em: <https://azelin.files.wordpress.com/2016/12/rome-magazine-4.pdf>. Acesso em 27 mar. 2017.

Jessika Cardoso de Medeiros é Bacharel em Defesa e Gestão Estratégica Internacional, UFRJ. Trabalhou como pesquisadora no Laboratório de Simulações e Cenários (EGN/LSC/MB) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Segurança Internacional e Defesa Nacional (LABSDEN/ESG). Cursa graduação em Direito na Faculdade Nacional de Direito (UFRJ).

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