10 de julho de 2017

Interesses nacionais à frente do bem global

Por: Lavínia Cruzal

Pixabay


 O Presidente norte-americano, Donald Trump, seguiu mais uma vez sua doutrina America First, ao retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, dia primeiro de junho.

Com o discurso de proteger a América e seus cidadãos[1], Trump deixa de ser um aliado do planeta, abandona a luta de um dos mais sérios e graves desafios atuais da humanidade, "vira as costas" para a ciência e mostra que, como líder da nação mais importante do sistema internacional, está disposto a focar apenas nos interesses nacionais e seguir um modelo de governo isolacionista.

Com esse discurso de cunho nacional econômico, patriótico e xenofóbico que o levou à Casa Branca, Donald Trump não nos surpreende com a sua ação. Apesar dos EUA ser o segundo maior emissor global de gases de efeito estufa, ele sempre mostrou seu descaso quanto as mudanças climáticas, muitas vezes alegando que o único problema que ela traz é gastar bilhões de dólares no desenvolvimento de tecnologias desnecessárias.



 Sua resistência quanto ao Acordo de Paris também nunca foi um segredo, classificando-o como "uma redistribuição maciça da riqueza dos EUA por outros países", para ele, o pacto nada mais é do que um acordo comercial, que só oferece vantagens a Índia e a China e sendo assim "um castigo para os EUA".

 Trump ao bater de frente contra a comunidade internacional e o multilateralismo, deixa claro que está mais do que disposto a prosseguir com a política  e visar em primeiro lugar, não o meio ambiente global, mas sim os futuros acordos para a ampliação da indústria de carvão e petróleo, que gerariam novos postos de trabalho, sem as tais restrições ambientais.

O presidente norte-americano disse ainda que pretende negociar a reentrada no Acordo climático de Paris ou na criação de um novo acordo sobre as mudanças climáticas em que os interesses e as exigências estadunidenses sejam respeitados. A saída do Acordo (que será feita em um prazo de quatro anos, seguindo os procedimentos definidos no quadro das Nações Unidas), deixa os Estados Unidos da América isolados de diversos aliados internacionais que durante anos negociaram o Acordo alcançado em dezembro de 2015 de combate ao aquecimento global.

A ONU não demorou para se posicionar sobre o assunto, afirmou que não é possível fazer qualquer renegociação, tendo em vista o pedido de um único país. Além da Organização das Nações Unidas, em um comunicado conjunto, o presidente francês Emmanuel Macron, a chanceler alemã Angela Merkel e o primeiro ministro italiano Paolo Gentioli também se pronunciaram[2], afirmando que consideram o momento gerado em Paris em 2015, irreversível, e que acreditam firmemente que o Acordo de Paris não pode ser renegociado, por ser tratar de um instrumento vital para o planeta, nossas sociedades e economias.

O pacto que foi criado em 2015 com a liderança europeia e estadunidense agora está nas mãos de uma união dos Estados europeus para preencher o vazio deixado pelo seu então principal parceiro neste campo.

Entretanto, a crítica a saída dos Estados Unidos em relação ao Acordo, não foi algo unanime, ao contrário da Europa, China, Índia, ONU, além de muitos outros órgãos e países, o presidente russo Vladimir Putin, não lamentou a decisão de Trump de "virar as costas" para o pacto internacional[3] – também assinado pela Russia, porém ainda não ratificado, alegando que a assinatura havia sido apoiada por Obama, seu antecessor na Casa Branca, mas que  todavia ainda visualiza possibilidades de entendimento com o país norte-americano. Após a saída americana, os outros 194 países que assinaram o Acordo de Paris criaram um grupo para buscar uma estratégia para salvá-lo.

Apesar do embasamento no discurso de Donald Trump ter sido sobre o negativo impacto econômico, ele também abordou em sua fala, as consequências diretas das medidas acordadas na temperatura global, onde afirmou "que apenas baixaria a temperatura em dois décimos de um grau celsius em 2100". Muitos cientistas questionaram as afirmações do Presidente dos EUA e ainda completaram, "Ele [Trump] escolheu o estudo que tem o menor impacto do Acordo de Paris no aumento global da temperatura", disse Niklas Höhne, professor que trabalha no Climate Action Tracker, que monitoriza os níveis de emissão. Para alguns cientistas, a saída dos Estados Unidos do Acordo climático, pode elevar a temperatura do planeta em até 0,3 graus.

A luta contra a mudança climática não pode depender dos resultados de uma eleição, um país ao assinar um tratado internacional tem que arcar com suas obrigações, independentemente de que quem esteja no poder. Seja um representante republicano ou um democrata.

Em apenas 100 dias, Trump desfez 23 regulamentações ambientais da era do ex-presidente americano democrata Barack Obama, é o que mostra um levantamento do jornal americano The New York Times[4].

O problema mais evidente da política de Donald Trump é que, apesar de seu nacionalismo, não existe um muro em sua fronteira que impossibilite que os efeitos na mudança de temperatura (que muito é contribuído pelo seu país, por se tratar do segundo maior emissor de gases do efeito estufa) se espalhe e gere efeitos por todo o planeta. Trump com o seu radicalismo em fazer a “América grande novamente” está deixando os EUA vulnerável aos impactos climáticos, em nome de empregos.

Ao sair do Acordo de Paris ele está mostrando que não se preocupa com essa responsabilidade e vai deixar seu país e sua população arcar com os impactos futuros que isso pode gerar. Os Estados Unidos abandonam a liderança nas negociações climáticas que conceberam durante anos e deixa o clima internacional sem lideranças por tempo indeterminado.


[1]http://edition.cnn.com/2017/06/01/politics/trump-paris-agreement-speech/index.html

[2]http://static.globalnoticias.pt/storage/DN/2017/medium/ng8565082.jpg

[3]http://abcnews.go.com/International/putin-trumps-withdrawal-paris-accord-dont-worry-happy/story?id=47790010

[4]https://www.nytimes.com/interactive/2017/05/02/climate/environmental-rules-reversed-trump-100-days.html


Lavínia Cruzal é graduanda em RI pela UFRRJ e Presidente do Diretório Acadêmico Souza Dantas (DASDAN).

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