18 de setembro de 2017

Jogando pelo futuro: as mudanças no cenário esportivo mundial e a consequente ampliação das trocas culturais.

Por Mariana Reggiori


Imagem do site Shift Delete.net
 
 
A modalidade competitiva para jogos eletrônicos vem crescendo de maneira exponencial dentro do cenário mundial. O que antes era apenas diversão, acabou tornando-se um campo de intenso investimento e incentivo financeiro, além de trazer consigo uma nova interação cultural entre populações de diversos países por meio dos jogos. Ainda que poucos estudos tenham se desenvolvido nessa área, algumas informações são de extrema importância para entender como essa nova modalidade esportiva vem ligando pessoas do norte ao sul do planeta e, principalmente, como vem dando para Brasil uma nova cara dentro dos esportes.

League Of Legends, hoje o jogo mais jogado no mundo[1], é um grande exemplo de foco desse crescimento. O jogo que é classificado como moba (Multiplayer Online Battle Arena), permite que o jogador assuma um personagem específico para competir em tempo real com outros jogadores. O LOL, como é chamado pelos seus usuários, consiste em uma batalha estratégica entre 5 jogadores em cada time, que tem como objetivo principal destruir as torres inimigas até chegar na base adversária e destruí-la derrubando o seu nexus. As partidas duram, em média, de 30 à 50 minutos, oferecendo a opção de jogar com amigos ou com pessoas aleatoriamente escolhidas pelo jogo.

Criado em 2009, na Califórnia, pela empresa norte-americana RIOT Games, o jogo League Of Legends rapidamente caiu no gosto de jogadores de todas as idades. Além de ser um jogo que pode ser consumido de graça, ele ainda oferece um grande suporte por parte do servidor da RIOT, tanto em incentivar os jogadores a melhorarem, quanto punir os que agem de maneira agressiva, machista, racista, homofóbica, xenofóbica ou que tomem qualquer atitude que possa prejudicar o ambiente do jogo em si. Constantemente são lançadas campanhas na plataforma do jogo para incentivar a entrada de jogadores que não são tão comuns no cenário, como a campanha #FightLikeAGirl, incentivando mulheres a entrarem no jogo, mesmo que a maioria dos jogadores ainda sejam homens[2].

A Riot desenvolve e organiza eventos de competição em quase todo o mundo, tendo campeonatos oficiais nacionais, continentais e mundiais, tendo o último prêmio oferecido para o time campeão mundial ultrapassado o valor de US$ 5 milhões[3]. O time que atualmente é bicampeão mundial e possui os melhores jogadores de LOL do mundo é a SK Telecom T1, time sul-coreano que conta com um imenso suporte financeiro e possui o jogador mais bem pago do cenário competitivo, onde recebe cerca de US$ 2,5 milhões por ano[4].

Visto as possibilidades disponíveis nessa área, diversos times de futebol e pessoas importantes no mundo dos esportes começaram a montar times de LOL, promovendo ainda mais esse crescimento do esporte eletrônico, ou Esports, que é o termo utilizado para denominar essa atividade. Times internacionais, como Paris Saint-Germain e Baskonia, já possuem hoje times de League Of Legends, além de times brasileiros, como o Santos, e até mesmo jogadores de outros esportes, como o ex-jogador da NBA, Rick Fox[5].

Além destes, no ano de 2016, o ex-jogador de futebol Ronaldo comprou ações de um time brasileiro de League Of Legends, a CNB, e acabou atraindo ainda mais atenção para essa área no Brasil[6]. Isso resultou em duas grandes vitórias para o cenário competitivo brasileiro. Primeiro, foi a entrada da transmissão ao vivo das partidas do Campeonato Brasileiro de League Of Legends (CBLOL), em canais da SporTV[7] e ESPN[8], tornando mais acessível acompanhar os jogos brasileiros do campeonato. A segunda conquista foi o Brasil sediar, em maio de 2017, o MSI – Mid Season Invitation 2017 –, o segundo campeonato mais importante no jogo, recebendo os melhores jogadores do mundo, em território brasileiro[9]. O campeonato aconteceu em São Paulo e no Rio de Janeiro, e contou com a participação de diversos times, sendo alguns deles a equipe chinesa, Team We; o time brasileiro, Red Canids; a equipe norte-americana, TSM; e ainda os campeões da edição e atuais campeões mundiais, a SK Telecom T1. Com isso, ao receber o campeonato no Brasil, acabou sendo consolidada a participação do país dentro do Esports, atraindo a atenção do mundo para o cenário competitivo brasileiro[10].

A notícia de que o Brasil receberia o MSI gerou uma imensa expectativa em jogadores e analistas de todo o mundo. Os players internacionais publicaram diversos comentários nas redes sociais manifestando a felicidade em vir para o Brasil e conhecer a torcida brasileira, que possui uma grande fama de ser a mais apaixonada do mundo[11].

Recebendo os melhores jogadores do mundo, a torcida brasileira teve a chance de jogar, fora do campeonato, com os melhores jogadores do mundo dentro do servidor br, proporcionando um outro nível de jogabilidade para os players brasileiros[12]. Além disso, foi possível também não só a felicidade na interação dos fãs brasileiros com os seus ídolos, mas também a surpresa dos próprios jogadores internacionais frente a energia brasileira, que acabou superando as expectativas dos mesmos. Isso rendeu imensos elogios à torcida vindos do jogador Faker – atual melhor jogador do mundo-[13], e também do jogador da equipe japonesa Rampage, YutoriMoyashi, que se encantou com a força que a torcida direcionou ao seu time durante os jogos, declarando que os brasileiros deram coragem para que o time melhorasse profissionalmente[14].

O cenário dos jogos competitivos, não só com o League of Legends, que hoje já conta com cerca de 100 milhões de jogadores[15], mas também com outros jogos como Dota 2, CS: GO e Fifa, vem proporcionando cada vez mais essa conexão entre jogadores de todo o mundo, o que acaba facilitando a interação entre culturas que não costumam ter um contato direto. Os jogadores da SKT que vieram ao Brasil, declararam a felicidade deles por terem tido contato com o ex-jogador de futebol Ronaldo, que ficou responsável pela entrega dos prêmios na final do MSI. O jogador sul-coreano, Bang, disse em entrevista que ficou maravilhado em poder ter tido contato com o ex-jogador, enquanto Faker, seu companheiro de equipe, declarou ter ficado muito feliz por conhecer Ronaldo, que era o único jogador de futebol que ele conhecia quando criança e que tem muito respeito por ele por ser uma lenda do esporte[16].

É perceptível nisso, as proporções que essa nova modalidade de esporte vem tomando, tornando acessível o contato de jogadores de culturas e esportes bem diferentes, mas que tem muito o que acrescentar dentro do cenário esportivo regional de cada um. Usando como exemplo a própria cultura sul-coreana, os jogos eletrônicos já são uma parte extremamente importante da vida dos jovens. O que vem crescendo no Brasil hoje em relação a visibilidade nos jogos eletrônicos, já é algo muito presente na Coreia do Sul, onde os campeonatos são intensamente acompanhados por parte da população, as notícias são divulgadas em jornais tradicionais, os jogadores são extremamente cobrados em relação aos resultados e possuem uma imensa quantidade de torcedores e jogadores amadores[17].

A possibilidade de receber no Brasil jogadores como esses da Coreia do Sul ou de Taiwan, Japão, entre outros times que não sejam de esportes tradicionais como o futebol, acabaram abrindo espaço para a adaptação da cultura brasileira para incentivar ainda mais o crescimento dessa modalidade esportiva em relação ao apoio da população, crescimento de investimentos, entrada nos sites de notícias e no aumento do número de jogadores profissionais. Essa influência já pôde ser sentida a partir do começo de 2017, dado o exemplo de faculdades brasileiras que passaram a oferecer bolsas para jogadores profissionais, como a FUMEC, em Belo Horizonte[18], ou ainda times como o Flamengo, que já estão planejando entrar no cenário competitivo[19].

Em meio a um cenário internacional que concentra intensos conflitos de opinião, desde fatores religiosos até questões políticas, o esporte tem sido desde sempre um fator que une os países em grandes eventos esportivos, seja na Copa do Mundo ou nas Olimpíadas, e que acaba colocando de lado, muitas vezes, momentos de extrema tensão mundial. O mundo está mudando, a tecnologia avançando e, como consequência, os focos de investimentos vão modificando-se também. Dito isso, apostas para o futuro do esporte internacional são grandes, mas, com toda certeza, visto a conjuntura apresentada do momento, os jogos eletrônicos estão recebendo, enfim, todos os holofotes.


[1]https://newzoo.com/insights/articles/played-core-pc-games-may-playerunknowns-battlegrounds-makes-impressive-debut-7/

[2]http://br.ign.com/league-of-legends/18505/news/riot-lanca-campanha-com-ilustradora-brasileira-para-o-dia-in

[3]http://mycnb.uol.com.br/noticias/4820-premiacao-do-campeonato-mundial-de-lol-passa-de-us-5-milhoes

[4]https://www.tecmundo.com.br/esports/112263-r-8-5-milhoes-salario-maior-estrela-league-of-legends.htm

[5]http://sportv.globo.com/site/games/noticia/2016/11/de-fifa-lol-gigantes-do-futebol-e-lendas-da-nba-investem-nos-e-sports.html

[6]http://mycnb.uol.com.br/noticias/5172-ronaldo-fenomeno-compra-parte-do-cnb-e-entra-para-os-e-sports

[7]http://sportv.globo.com/site/games/noticia/2017/01/sportv-acerta-parceria-e-vai-transmitir-toda-temporada-de-league-legends.html

[8]http://espn.uol.com.br/noticia/667668_espn-lanca-programacao-dedicada-a-esports-na-tv-e-transmitira-brasil-premier-league

[9]https://www.maisesports.com.br/msi-2017-sera-no-brasil/

[10]http://br.ign.com/esports/46675/interview/msi-de-league-of-legends-no-brasil-representa-amadurecimento

[11]http://espn.uol.com.br/noticia/670096_jogadores-e-casters-de-league-of-legends-pelo-mundo-ficam-animados-com-o-msi-no-brasil-confira

[12]http://espn.uol.com.br/noticia/692348_league-of-legends-descubra-quem-sao-os-jogadores-do-msi-nas-filas-ranqueadas-brasileiras

[13]http://br.ign.com/league-of-legends/48401/news/fas-brasileiros-sao-os-mais-empolgados-que-ja-vi-afirma-fake

[14]http://br.ign.com/mid-season-invitational/48048/news/msi-2017-torcida-brasileira-nos-deu-coragem-afirma-jogador-d

[15]http://mycnb.uol.com.br/noticias/4623-riot-diz-que-league-of-legends-tem-100-milhoes-de-jogadores

[16]http://mycnb.uol.com.br/noticias/5597-jogadores-do-sk-telecom-t1-exaltam-ronaldo-uma-lenda

[17]http://br.leagueoflegends.com/pt/news/esports/esports-editorial/surpreendente-cultura-de-esports-da-coreia

[18]https://jogos.uol.com.br/ultimas-noticias/2017/01/31/universidade-brasileira-da-bolsa-de-estudos-para-pro-players-de-lol.htm

[19]http://sportv.globo.com/site/games/noticia/2017/07/flamengo-planeja-entrar-no-league-legends-com-time-proprio-ja-em-2017.html

Mariana Reggiori é estudante da Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

2 comentários:

  1. Parabéns, texto leve, bem escrito e o melhor, para quem não entende do assunto consegue acompanhar a leitura e dentro das possibilidades se
    Ambientar com a linguagem.
    Encantada!!!!!

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