23 de outubro de 2017

O racismo da mídia brasileira: a indiferença a Somália

Por Pablo Victor Fontes

FONTE( AGUIAR, 2015)

Há um espanto na sociedade brasileira, especialmente, através dos comentários nas redes sociais, quanto à indiferença da mídia brasileira em relação ao recente atentado na Somália no último sábado, dia 14 de outubro de 2017, onde aproximadamente, cerca de 300 pessoas foram mortas e mais de 200 feridos (número parcial). Mas, o que há de tão espantoso? A indiferença? A não cobertura midiática devida? Por ser o maior atentado da história pós-11 de setembro? A não campanha: Rezem pela Somália? Não há nada de novo, pelo contrário, a história da mídia brasileira é caracterizada pelo racismo, pelos múltiplos preconceitos, por visões alinhadas aos grandes circuitos comunicacionais dos países europeus e norte-americano.

A maneira como opera a mídia brasileira, em sua grande maioria, está alinhada a cooperação Norte-Sul (numa visão crítica: imperialismo cultural), principalmente, a partir das agências de notícias internacionais (contexto do capital monopolista, cuja produção e o sistema operacional têm como alicerce o sistema fordista - ou seja, de produção em massa), onde há uma pasteurização e uma retroalimentação das notícias, das reportagens produzidas, exportadas e compradas por nossas mídias (AGUIAR, 2015).


As linhas editoriais dos veículos de comunicação têm como origem uma visão colonial, em certa medida, um complexo de vira-lata. A visão colonial que impera nos meios de comunicação, permite que as imagens, os discursos e as narrativas que circulam sistematicamente exerçam diferentes formas de violência (psíquica, simbólica etc). Há uma constante despersonificação, desumanização a partir das escolhas seletivas de seus respectivos personagens, ângulos, enquadramentos.

Nossas mídias (mainstream) são sectárias, patrimonialistas, coronelistas, clientelistas. Em grande medida, a maioria das mídias surgiu a partir das iniciativas dos governos e das instituições vinculadas ao aparato estatal onde não há independência editorial, financeira. Além disso, a região tem tradições autoritárias e apresenta uma democracia liberal recente, e em grande parte oriunda do século XX. Os veículos de comunicação impresso, sobretudo, apresentam baixos níveis de circulação. Seu funcionamento e atuação estão vinculados aos cânones da propriedade privada onde o jornalismo é visto como uma profissão “autônoma” com alta tendência a tecer comentários e opiniões.

As narrativas construídas pelas mídias buscam por um lado espetacularizar, ou seja, estimular o conflito, a violência e por outro ângulo, os meios de comunicação se mostram indiferentes, desumanos, principalmente, quando o país em questão (Somália) não segue e/ou não aplica, a difusão de normas que a arquitetura do Sistema Internacional aplica de modo Top-Down, a partir de um lógica racional-legal (como se não houvesse patologias, disfuncionalidades e irracionalidades), visões desenvolvimentistas cujos alicerces estão calcados numa visão de mundo moderna, ocidental, patriarcal (NGUGI WA THIONG’o, 1986; SHAPIRO, 2010; MAMDANI, 2011).

A população local, negra e muçulmana é desqualificada, desumanizada, desconfigurada, um objeto, uma coisa que se vende numa prateleira de qualquer loja/botequim. A pele negra é um adjeto que as mídias produzem, reproduzem transvestidas, por vezes, de um “sentimento” de solidariedade e em sua maioria por um sentimento de pena (lástima) (ARENDT, 2009). As Áfricas (especificamente Somália) permanecem, por meio de suas “histórias”, numa relação padronizada e hierarquizada, feitas por brancos de uma determinada classe social- geralmente burguesa (CAMPBELL, 2003; GALLAGNER, 2014).

Com ressalta Bhabha (2010), as histórias contadas e transmitidas pelos meios de comunicação também (re) afirmam a segregação na medida em que o branco é visto como um herói (protetor salvacionista), enquanto que o negro é retratado como demônio, vítima (por vezes) necessitando de proteção. A estética imagética dos (as) negros (as) somalis não há rostos, são apenas massas amorfas, famintas, vulneráveis, desprotegidas e impotentes.

Considerado o maior atentado da história pós-11 de setembro, a Somália continua tendo suas histórias contadas de modo estereotipado, desumano. Há, apenas, uma diferença na maneira que as histórias são contadas durante a década de 1990 e pós-anos 2000, especificamente, pós-11 de setembro. Durante os anos de 1990, as histórias e personagens apontavam para as temáticas sobre a fome, a miséria. Após o atentado do 11 de setembro, suas histórias não são tratadas tão somente a partir da fome e da miséria, mas a partir das múltiplas formas de se exercer o terrorismo.

Lene Hansen (2011) já nos ressaltava que as mídias através da securitização das imagens buscam produzir ambiguidades. Por intermédio dos gêneros visuais ironia, sátira e humor, diversas representações das imagens podem ser geradas. Uma das formas de securitização visual dá-se pelo discurso tradicional da segurança, no qual o Outro é estigmatizado como demônio, bárbaro, malígno e ameaçador (somali). Por fim, “concluo”, que não há nada de espantoso na maneira que as mídias refletem por meio de suas notícias suas violências, anseios, preconceitos, racismo, xenofobia etc. Elas apenas refletem em certa medida muito da nossa realidade, na maneira como nos comportamos e no modo, como exercemos nossas seletividades e idiossincrasias.



Referências

AGUIAR, Pedro. “Marx Explica a Reuters: a economia política das agências de notícias”. In. SILVA JR, José Afonso da; ESPERIDIÃO, Maria Cleidejane; AGUIAR, Pedro (Org.). Agências de Notícias: Perspectivas Contemporâneas. Recife: Editora UFPE, 2015.

BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2004.

CAMPBELL, David. Salgado and the Sahel- Documentary Photography and the Imaging of Famine In DEBRIX, Francois; WEBER, Cynthia. Rituals of mediation: international politics and social meaning. USA: University of Minnesota Press, 2003.

GALLAGHER, Julia. Theorising image: a relational approach. In GALLAGHER, Julia. Images of Africa: Creation, negotiation and subversion. Manchester University Press 2015.

HANSEN, Lene. Theorizing the image for Security Studies: Visual securitization and the Muhammad Cartoon Crisis. European Journal of International Relations, 17: 51, 2011.

MAHMOOD, Mamdani. When victims become killers: colonialism, nativism, and the genocide in Rwanda. New Jersey: Princeton University Press, 2001.

NGUGI WA THIONG’o. Decolonizing the Mind. The Politics of Language in African Literature, London: James Currey, Nairobi: Heinemann Kenya, New Hampshire: Heinemann, 1986.

SHAPIRO, Michael. Cinematic Geopolitics. London: Routledge, 2009.

Pablo Victor Fontes é Doutorando em Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI/PUC-RIO). Mestre pelo Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGRI/UERJ)- 2017. Bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) - 2012. Bacharel em Comunicação Social - Audiovisual pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) -2011. Fui Professor Colaborador da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2015-2017). Fui o primeiro colocado no Prêmio FUJB em Extensão Universitária UFRJ-2011. Fui assistente de pesquisa pelo LABMUNDO- Laboratório de Análise Política Mundial (2013-2016). Fui pesquisador do LEMEP - Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (2015-2016) e pesquisador pelo grupo de pesquisa Integração Sul: autonomia e desenvolvimento (UFRJ). Vice -Coordenador do Laboratório dos Estudos de Mídia e Relações Internacionais (LEMRI/UFRJ). Filiado à Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), a Latin American Studies Association (LASA) e a International Studies Association (ISA).Temas de Interesse: Segurança Internacional, Questões Humanitárias, Pós-Colonialismo, Mídia, Estética, Cultura e Relações Internacionais.

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