27 de março de 2018

O que é a geopolítica?

Por Bernardo Salgado Rodrigues


Fonte: StarFlames/PixaBay



A palavra geopolítica está na moda. O termo é rotineiramente utilizado nos meios de comunicação, discursos políticos e trabalhos acadêmicos, muitas vezes como sinônimo (ainda que equivocadamente) de relações internacionais. A sua popularização é desejada na medida em que os fenômenos internacionais carecem de análises geopolíticas consistentes; entretanto, paradoxalmente, sua banalidade não deve ser incentivada, uma vez que é um termo de complexa definição e utilização. 

A conceituação da geopolítica pode parecer uma tarefa simples, mas, como veremos, sua sistematização de modo homogêneo é impedido por sua própria natureza. Em outras palavras, a geopolítica só pode ser considerada se levar em consideração que os diferentes interesses nacionais no sistema internacional são assimétricos, hierárquicos e competitivos, e, concomitantemente, diferentes visões geopolíticas são desenvolvidas a fim de estabelecer relações causais em distintos espaços e tempos. Ela oferece uma proposta/visão/representação específica de mundo, que são distintas entre si, relacionadas com as condições materiais e históricas, dinâmicas e cambiantes.

A própria geografia é essencialmente um saber político, estratégico, um saber pensar o espaço com a finalidade de agir eficazmente. Segundo Spykman (apud KAPLAN, 2013, p.31), “a geografia é o mais fundamental dos fatores da política externa dos Estados, por ser o mais permanente”, e dessa relação entre geografia e política, espaço e poder, que distintos autores buscaram definir a geopolítica: "é o estudo do Estado como organismo geográfico, isto é, como fenômeno localizado em certo espaço da Terra, logo do Estado como país, como território, como região, ou, mais caracteristicamente, como Reich" (KJELLEN apud BACKHEUSER, 1952, p.56); "é o estudo dos processos políticos que ocorrem em dependência do solo dos Estados" (BACKHEUSER, 1952, p.67); "geopolítica es la doctrina del espacio vital" (VIVES, 1950, p.79); "es la ciencia que estudia cuál es la influencia ejercida por los factores geográficos e históricos en la vida y evolución de los Estados, a fin de extraer conclusiones de carácter político" (UGARTE, 1974, p.42); "os raciocínios geopolíticos, isto é, tudo aquilo que mostra a complexidade das relações entre aquilo que sobrevém da política e as configurações geográficas" (LACOSTE, 2012, p.218); "geopolitics can be defined as the science of the relation of politics to geography […] which includes the relationship between geography and military strategy, national development, expansion, and imperialism" (CHILD, 1979, p.89); "is the impact on foreign security policies of certain geographic features […] might also be described as the relationship between power politics and geography" (KELLY, 1997, p.4-5); "a geopolítica é a influência da geografia sobre as divisões humanas" (KAPLAN, 2013, p.62).

No tocante à sistematização da geopolítica, os autores costumam realizar a distinção entre geografia política e geopolítica. A primeira consistiria numa disciplina da Geografia Geral que apresenta características estáticas e estuda os aspectos geográficos de determinado território, consistindo numa análise descritiva das fronteiras, rios, serras, planícies, etc. Quanto à geopolítica, seria uma ciência política que se relaciona com esses fatores físicos descritivos buscando uma aplicabilidade na formulação de políticas estratégicas; é, portanto, uma teoria do poder e dinâmica (MIYAMOTO, 1981, p.76) que "estudia la influencia de los factores geográficos en la vida y evolución de los estados." (TRIAS, 1969, p.11)

O primeiro autor a realizar essa diferenciação foi Rudolf Kjellén. Em sua visão, a geopolítica era um ramo do direito público, e não da Geografia; deste modo, a geografia política estudava a Terra como moradia das populações humanas em suas relações com as propriedades do espaço, enquanto que a geopolítica era a melhor compreensão da existência do Estado (VIVES, 1950, p.60). Como atesta Costa (1992, p.16):

Parte da tradição no setor identifica como geografia política o conjunto de estudos sistemáticos mais afetos à geografia e restrito às relações entre o espaço e o Estado, questões relacionadas à posição, situação, características das fronteiras, etc., enquanto à geopolítica caberia a formulação das teorias e projetos de ação voltados às relações de poder entre os Estados e às estratégias de caráter geral para os territórios nacionais e estrangeiros, de modo que esta última estaria mais próxima das ciências políticas aplicadas, sendo assim mais interdisciplinar e utilitarista que a primeira.     

Segundo Lautensach, em seu artigo Wesen und Methode der Geopolitik (1925), a atitude mental do geopolítico era "dinâmica", enquanto do geógrafo político era "estática". (UGARTE, 1974, p.40) Assim sendo, a "Geografía Política era como una 'instantánea fotográfica' del momento temporal en la circunstancia espacial determinada; mientras que la Geopolítica era la 'cinta cinematográfica' del mismo proceso general." (VIVES, 1950, p.61-62) 

A busca de uma definição do termo geopolítica se justifica para o que "a geopolítica pode ser, conceitualmente, e o desdobramento que esse instrumento pode apresentar na realidade da política internacional." (HAGE, 2016, p.3) Assim, a geopolítica é considerada um método de estudo dinâmico da influência de fatores geográficos no desenvolvimento dos Estados com a finalidade de orientar suas políticas internas e externas. Ou seja, como método que estuda a política derivada de fatores geográficos, como posição, espaço, relevo, clima, topografia e recursos, é uma ferramenta de análise de política externa que busca compreender, explicar e prever o comportamento político internacional, principalmente em termos de variáveis espaciais.

Desta assertiva incorre-se que a geopolítica é dinâmica porque as variáveis temporal e relacional modificam a importância da variável geográfica; é complexa na medida em que é mutável a relevância dos Estados ou arranjos internacionais, dos avanços científico-tecnológicos e das configurações econômico-militares em determinados momentos específicos da humanidade; é imprescindível para auxiliar os Estados em seus planejamentos estratégicos, políticos e econômicos na competitiva estrutura internacional de poder.



Referências

BACKHEUSER, Everardo. A geopolítica geral e do Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1952.
CHILD, John. Geopolitical Thinking in Latin America. Latin American Research Review, Pittsburgh, v. 14, n. 2, p.89-111, 1979.
COSTA, Wanderley Messias da. Geografia política e geopolítica. São Paulo: Hucitec; Editora da Universidade de São Paulo, 1992.
HAGE, José Alexandre Altahyde. Alguns aspectos conceituais da geopolítica: breve investigação entre o clássico e o moderno no pensamento geopolítico. Meridiano 47, Brasília, v. 17, p.1-11, 2016.
KAPLAN, Robert D.. A vingança da geografia: A construção do mundo geopolítico a partir da perspectiva geográfica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
KELLY, Philip. Checkerboards and Shatterbelts: The geopolitics of South America. Austin: University Of Texas Press, 1997.
LACOSTE, Yves. A geografia - isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. 19. ed. Campinas: Papirus, 2012.
MIYAMOTO, Shiguenoli. Os estudos geopolíticos no Brasil: uma contribuição para sua avaliação. Perspectivas, São Paulo, v. 4, p.75-92, 1981
TRIAS, Vivian. Imperialismo y geopolítica en América Latina. Buenos Aires: Editorial Jorge Alvarez, 1969.
UGARTE, Augusto Pinochet. Geopolítica. 2. ed. Santiago: Editorial Andres Bello, 1974.
VIVES, J. Vicens. Tratado general de geopolítica. Barcelona: Editorial Teide, 1950.

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