2 de abril de 2018

A Crimeia e o mapa meteorológico da TV ucraniana: o poder simbólico dos mapas

Por Larissa Rosevics


Do site da BBC, reproduzido da UA TV


No início do mês de março de 2018, uma simples previsão do tempo no telejornal da UA (National Public Broadcasting Company of Ukraine), o canal de televisão público da Ucrânia, causou debate nas redes sociais. Durante a transmissão ao vivo do telejornal nacional, a imagem do mapa da Ucrânia que se via atrás da repórter do tempo excluía a região da Crimeia da divisão política do país. No mesmo dia, o canal de televisão privado ucraniano STB também utilizou a imagem do mapa da Ucrânia sem a Crimeia em seu telejornal. E tudo isso aconteceu às vésperas das eleições presidenciais na Rússia, na qual Vladmir Putin concorreu como franco favorito.

A Crimeia é uma península que fica ao sul da Ucrânia, em uma região estratégica no mar Negro. Por conta da posição que ocupa, ela já foi povoada por diferentes grupos ao longo da história, como gregos, romanos e otomanos. Com a expansão do império russo no século XVIII, a região tornou-se parte do império e importante base naval, despertando a atenção das demais potências europeias. A Guerra da Crimeia (1853-1856) entre a Rússia e a coalizão da França, Inglaterra, Sardenha e o Império Otomano teve como objetivo frear o ímpeto expansionista russo e garantir, assim, o equilíbrio de poder europeu no século XIX.



Por Maximilian Dörrbecker (Chumwa) - Obra do próprio, usingOpenStreetMap datathis file for the orientation map inset, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=31518890


Com a Revolução Bolchevique de 1917, a Crimeia foi declarada como região autônoma da União Soviética e, após a Segunda Guerra Mundial foi rebaixada a Província da URSS. Durante o governo de Nikita Krhushchov (1953-1964), a Crimeia foi doada à Ucrânia. Com a fragmentação da URSS, a Crimeia tornou-se um dos contenciosos mais complexos das relações entre Rússia e Ucrânia.

Com uma população de cerca de 60% russos e 25% ucranianos, em que o russo é o idioma mais falado entre os seus habitantes, a Crimeia proclamou a sua independência da Ucrânia em 1992, estabelecendo uma constituição própria. No mesmo ano, o Supremo Soviet da Rússia revisou a decisão de cessão do território à Ucrânia e decidiu pela sua anulação, reafirmando o status de cidade federal da Rússia a Sevastopol, onde está localizada a base naval russa e a sua Frota do Mar Negro. A solução parcial para a região veio em 1997 com o Tratado Russo-Ucraniano de Amizade, no qual a Crimeia ficaria com a Ucrânia e a Rússia com a maior parte da Frota do Mar Negro e o direito de arrendar Sevastopol da Ucrânia por 20 anos, com possibilidade de prorrogação.

A indefinição em relação ao destino da Crimeia ganhou contornos dramáticos no início do século XXI, devido as negociações para a entrada da Ucrânia na OTAN e na União Europeia. Durante o governo do presidente Bill Clinton, os Estados Unidos buscaram inserir na OTAN diversos países do entorno estratégico da Rússia, que faziam parte da sua zona de influência. A adesão à OTAN também passou a ser considerada como obrigatória a todos os países que tivessem interessem em fazer parte da União Europeia. Apesar das críticas internas nos Estados Unidos, que viam a expansão da OTAN como belicosa (BANDEIRA, 2017), aos poucos países importantes para a segurança russa, como Polônia, Letônia, Lituânia, Estônia, foram inseridos na organização. O último espaço estratégico almejado pelos Estados Unidos é a Ucrânia.

Contudo, como aponta Bruno Hendler (2014), a Ucrânia tem uma importância geopolítica diferente dos demais países. Além da questão da Crimeia, conforme apontado anteriormente, a região de Kiev é considerada o berço da cultura eslava e do antigo império Rus de Kiev, que deu origem a Rússia, além de ser um centro econômico e industrial importante para a economia russa e território de passagem de gasodutos russos. As dívidas que a Ucrânia tem com a Rússia também são significativas, especialmente no setor energético.

O auge do contencioso aconteceu em 2014, com o aumento da pressão para a entrada da Ucrânia na União Europeia e o ressurgimento da possibilidade da entrada do país na OTAN. A Revolução Ucraniana pró União Europeia, que depôs o presidente Víktor Yanukóvytch, pró Rússia, foi o estopim para que os russos ocupassem a Crimeia e a considerassem como parte de seu território, definitivamente.

Moniz Bandeira (2017) destaca que a entrada da Ucrânia na União Europeia e na OTAN é mais relevante para a estratégia geopolítica norte-americana do que para o desenvolvimento do país. Para fazer parte das duas organizações, a Ucrânia teria que abrir mão de importantes subsídios recebidos da Rússia na importação de gás, recurso energético essencial ao país, além de fazer ajustes fiscais que prejudicariam ainda mais a sua economia, debilitada pelas crises econômicas internacionais. Os empréstimos realizados pela União Europeia e pelo FMI seriam insuficientes para liquidar as dívidas do país e não proporcionariam o desenvolvimento econômico e social esperado.

Após serem bombardeadas com críticas em suas redes sociais, a UA e a STB vieram a público pedir desculpas pelo ocorrido. Informaram aos seus telespectadores de que o mapa fora confeccionado as pressas e que se tratava de um erro técnico. Enquanto isso, mesmo sem a participação dos eleitores russos que vivem na Ucrânia, Vladmir Putin foi reeleito para o quarto mandato, com 76,67% dos votos (DW, 2018).



Referências


BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A desordem mundial: o espectro da total dominação. 4.ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2017.

BELL, Chris; ZOTSENKO, Dmytro. Anger as tv broadcast exclude Crimea from Ukraine map. BBC, 19 mar.2018. Disponível em: http://www.bbc.com/news/blogs-trending-43457754

PINTO, Maria João. Putin reeleito: "A Rússia está condenada ao êxito". Deutsche Welle - Internacional. 19 de mar.2018. Disponível em: http://www.dw.com/pt-002/putin-reeleito-a-r%C3%BAssia-est%C3%A1-condenada-ao-%C3%AAxito/a-43034573

HENDLER, Bruno. A crise na Ucrânia: causalidades globais, regionais e inter-regionais de uma crise (quase nada) doméstica. Mundorama, 26 fev.2014. Disponível em: https://www.mundorama.net/?p=13784

2 comentários: