27 de fevereiro de 2019

Breves apontamentos sobre a escatologia cristã dispencionalista e as transferências de embaixadas a Jerusalém

Por: Simone Kawakami Gonçalves Costa 

EBC


O sistema internacional está dando mostras de que vem sofrendo de um abalo. A ascensão de governos de direita na América do Sul, dentre os quais se destaca o resultado recente do pleito eleitoral brasileiro, está abrindo um momento de incertezas renovadas em distintos aspectos, incluindo a geopolítica regional. A busca do governo brasileiro chefiado por Bolsonaro pela aproximação com os Estados Unidos, e as renovadas juras de lealdade política, econômica e ideológica, atinge um patamar até então inédito na história recente. Isso ocorre em uma conjuntura marcada pela tentativa de imposição de uma nova agenda estadunidense, com a guerra comercial contra China, a crise interna pela tentativa de construir o muro na fronteira com o México, e o anúncio de uma cruzada direitista patrocinada por Steve Bannon, ex-assessor de Trump que anuncia o intento de unificar a ultradireita mundial, em uma espécie de “Internacional da Reação”. Um dos efeitos imediatos dessa conjunção de fatores foi a adoção de contraditórias pautas de política externa no Brasil, como a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. 

O tema segue dividindo as alas internas do atual governo. O setor militar, na figura do vice-presidente general Hamilton Mourão, seguido pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, reiteraram que a transferência da embaixada brasileira, uma das primeiras declarações dadas logo que o novo governo subiu ao poder, ainda está sendo estudada. Os efeitos econômicos que a medida possivelmente traria, como uma retaliação por parte dos países árabes a quem o país exporta grande parte de sua produção de carne, rapidamente foram lembrados pelos grandes meios de comunicação. No entanto, a controversa proposta foi entusiasticamente saudada por outros membros do governo, sobretudo àqueles ligados à Frente Parlamentar Evangélica. As motivações do apoio entusiástico desse setor a uma medida tão controversa se revestiu como um tema digno de interesse, e que traz novas interrogantes.


A primeira é o que reside detrás desse apoio da bancada evangélica, que na política nacional se constituiu como um dos “poderes de fato” responsável pela ampliação do Estado no sentido gramsciano, à transferência da embaixada a Jerusalém, um tema de política externa alheio à agenda cultural e dos costumes pela qual essa bancada se orienta. Evidentemente, a bancada evangélica tomou para si a norma da nova direita, de se constituir como liberal na econômica e conservador, ou ultraconservador, nos costumes, apoiando a aliança com os Estados Unidos, e por uma via indireta com Israel. No entanto, a reivindicação desses setores ao apoio e cooperação com Israel no plano internacional é direta.

As razões geopolíticas contidas na nova publicadas na nova doutrina de Segurança Nacional dos Estados Unidos, em que pela primeira vez “abandonam a ideia do sistema mundial como o lugar de uma luta global entre o bem’ e o ‘mal’, (...)reconhecem que seus valores não são universais” (FIORI, 2018, p.12). Do ponto de vista econômico, a competição com a China tem impelido os EUA a buscarem se desvencilhar de uma intervenção contínua, e às vezes em muitas frentes simultâneas, no Oriente Médio. Isso renova a aposta para em seus aliados locais, como mantenedores da ordem regional de modo que assim se possibilite aos Estados Unidos uma rearticulação política e militar à Ásia Oriental. 

Se as motivações acima são os fundamentos de fato da retomada dos debates em torno da transferência da embaixada norte-americana, e agora brasileira, para Jerusalém, tais objetivos têm sido defendidos mediante o uso da escatologia cristão-sionista inclusive no Brasil. Marx afirmava que a “religião é apenas um sol fictício que se desloca em torno do homem enquanto este não se move em torno de si mesmo” (MARX, 1843, sp). Mesmo em sua fantasmagoria a religião serve como nexo que possibilita a adesão, nesse caso da base evangélica, a uma agenda aparentemente a ela externa e estranha. 

Para apreender alguns elementos de modo a lançar luzes sobre essa relação, é preciso retomar aspectos contidos no movimento de organizações de cristãos pré-milenistas nos Estados Unidos, onde se deu a unidade entre esses setores e parte do movimento sionista político e religioso. Tais correntes cristãs são conhecidas como dispencionalistas, tem como marca uma escatologia marcada pela “distinção entre Israel e a Igreja, o arrebatamento pré tribulacionista, o retorno dos judeus para a Palestina, a reconstrução do templo, a ascensão do Anticristo, os sete anos da Grande Tribulação, a salvação nacional dos judeus, o retorno de Cristo para Jerusalém e o reino de mil anos de Cristo na terra”.(WILKINSON, 2007, p. 13). Assim, a própria fundação do Estado de Israel em 1948 foi encarada por esses setores como parte do cumprimento de profecias contidas em sua escatologia, que já defendia a fundação de um Estado judeu na Palestina pelo menos desde o fim do século XIX, quando William Blackstone, um teólogo dispencionalista impulsionou um abaixo-assinado em 1891 endereçado ao presidente norte-americano, Benjamin Harrison, defendendo a imigração de judeus à Palestina. Após a Guerra dos Seis Dias em 1967 os cristãos dispencionalistas passaram a assumir para si de maneira ainda mais evidente a defesa política do Estado de Israel, e sua agenda, entendendo a expansão da ocupação israelense como mais uma profecia que se cumpria. (REINKE, XX, pg. 76). Desde então, se fortalece o lobby cristão-judaico no interior dos Estados Unidos para eleger membros alinhados com suas crenças, que traduzidas em política externa levaria ao realinhamento da aliança entre o governo estadunidense e Israel, tendo seu ponto culminante coincidido com a escalada neoliberal e o Consenso de Washington. Portanto, durante o governo de Ronald Reagan os dispensacionalistas encontraram uma via de acesso mais direta ao poder. Cabe lembrar inclusive que Reagan por mais de uma ocasião usou a retórica religiosa para realizar a ofensiva neoliberal durante sua campanha presidencial de 1980, mencionando que poderia fazer parte da geração que veria o Armagedom. 

É nesse momento que o apoio aberto a Israel e a questão da embaixada em Jerusalém se transforma em parte da agenda protestante, junto com a ofensiva neoliberal. No ano de 1980 o parlamento israelense declarou Jerusalém como capital de Israel. Mas a resposta da maioria dos países foi a negativa em seguir a votação do parlamento israelense de transferência das embaixadas para Tel Aviv, seguindo a Resolução 478 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, não vinculativa, votada com abstenção dos Estados Unidos.

No entanto, isso não reverteu as intenções dos dispencionalistas em apoiar a transferência das embaixadas para Jerusalém. Também no ano de 1980, no dia 30 de setembro, foi fundada a Embaixada Cristã Internacional em Jerusalém, com o intuito de seguir promovendo o lobby sobre a questão. Desde então, várias organizações protestantes e pentecostais e contrárias às demandas palestinas foram criadas para defender os sionistas e a ida da embaixada dos EUA para Jerusalémao longo do final das últimas décadas. Dentre elas podemos destacar a Unity Coalition for Israel fundada em 1991, que é um dos lobbys judaico-cristãos mais ativos, Christian Friends of Israeli Communities fundada em 1995 e ligada a cerca de 40 igrejas estadunidenses, que apoiou a expansão colonial israelense em territórios palestinos levando para lá mais de 220 mil judeus, a Christian for Israel (Cristãos por Israel) de 1979 que publica artigos contrários à causa palestina, e a mais recente e uma das mais beligerantes Christians United for Israel (Cristãos Unidos por Israel) fundada em 2006, que se auto define como a maior congregação pró-israelense dos EUA, e diz defender uma estratégia inspirada nas forças militares de Israel para combater aqueles que consideram oponentes de sua causa. 

A relação dos governos estadunidenses com essas organizações foi variada. O presidente George Bush foi notoriamente próximo a esses setores, e manteve uma política de colaboração aberta em relação a Israel. Bill Clinton seguiu uma agenda de apoio menos ruidoso, mas George Walker Bush retomou fortemente o sentimento e a relação com as organizações protestantes pró-Israel. Já no governo de Barack Obama o apoio aberto foi menos evidente, porém as ações frente à Síria e os conflitos regionais favoreceram Israel, muito embora ele não se comprometesse abertamente com a linha expansionista de elevar as colônias sionistas na Cisjordânia. Mas com o presbiteriano Donald John Trump as relações americano-israelenses retomaram sua proximidade histórica, como demonstra a recente retirada norte-americana da UNESCO em apoio a Israel, e a consequente defesa dessa mesma ação por parte do recentemente eleito governo brasileiro de Bolsonaro. 

É relevante também destacar que no Brasil o pentecostalismo surge tendo como uma de suas múltiplas origens justamente as correntes dispencionalistas norte-americanas. Tomando a forma do protestantismo pentecostal e neopentecostal, as vertentes corriqueiramente denominadas como “evangélicas” ampliaram-se no país a partir dos anos 1950, especialmente com a disseminação da Assembleia de Deus. Aqui a escatologia dispencionalista foi objeto de crescentes inovações teológicas e institucionais, influenciadas pelos missionários norte-americanos que chegavam. Para José Miguez Bonino, teólogo argentino, o protestantismo brasileiro teria diferentes feições, dentre as quais se situam as características pentecostais, e evangélicas legadas pelos missionários britânicos e norte-americanos alinhados com a teologia do pietismo individual. (BONINO, 2012) Ademais, nas igrejas evangélicas brasileiras cresceram compartilhando ideologicamente o discurso de que o enriquecimento é uma virtude, um reconhecimento divino da fé dos fiéis, não havendo nenhum valor redentor ou moralmente superior na pobreza. Muito pelo contrário, não há questionamento dos fieis sobre o enriquecimento absurdo dos seus fundadores. 

Assim, pela formação das diferentes vertentes dos evangélicos no Brasil ter sido diretamente influída pelas correntes norte-americanas, a adoção da agenda defendida pelos dispencionalistas estadunidenses encaixa perfeitamente do duplo movimento que o atual governo brasileiro busca fazer. Tais movimentos constituem-se por um lado do objetivo em submeter-se aos Estados Unidos em meio às renovadas tensões no sistema internacional, que envolvem diretamente o terreno latino-americano com a crise venezuelana, ainda de consequências imprevistas. E por outro, em atender à sua base constituída pela “bancada evangélica”, que congrega 91 parlamentares, na medida em que a defesa dos interesses do Estado de Israel e a cooperação com o país emerge como um elemento de apelo escatológico para diversas Igrejas neopentecostais. Ainda não podemos prever até onde essa concatenação de interesses levará a uma mudança concreta da agenda de política externa do Brasil. Mas os elementos que antecipa sugerem que se aceleram os elementos de uma geopolítica de crises. 


Referências Bibliográficas: 

BONINO, José Miguez. Rostos do Protestantismo Latino-Americano. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2002

BUSH, Andrew F. The Implications of Christian Zionism for Mission. International Bulletin of Missionary Research, New Heaven, USA, v. 33, n. 3, p. 144-150, July 2009. Disponível em: <http://www.internationalbulletin.org/issues/2009-03/>. Acesso em: 20.fev.2019

FIORI, José L. Geopolítica internacional: a nova estratégia imperial dos Estados Unidos. Rio de Janeiro, v. 42, n. especial 3, p. 10-17, novembro 2018. 

MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel.1843. Disponível em <https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/critica/index.htm>. Acesso em: 20.fev.2019

REINKE, André Daniel. O sionismo cristão e sua influência na cultura protestante brasileira. Disponível em <http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:it-j1B9nOrsJ:dspace.est.edu.br:8080/jspui/bitstream/BR-SlFE/900/1/reinke_ad_tm343.pdf+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br>. Acesso em 20.fev.2019

SCHALY, Harald. O pré-milenismo dispensacionalista à luz do amilenismo. Rio de Janeiro: JUERP, 1984


Simone Kawakami Gonçalves Costa é Doutoranda em Economia Política Internacional pela UFRJ com tese apoiada pela Capes. Mestre em Ciências Sociais pela UNESP (2015) com dissertação apoiada pela Capes. Graduada em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2010). Tem experiência nas áreas de Ciência Política, Sociologia, Sociologia da Educação e Relações Internacionais.Pesquisa temas relacionados às identidades e sujeitos, sociologia do trabalho, sociologia da Educação, geopolítica, e Relações Internacionais. É diretora da publicação Estratégia Internacional Brasil, membro do conselho editorial da revista Contra Corrente, da Revista de Cultura e Política Ideias de Esquerda, editora do portal internacional Esquerda Diário. Atuou como membro do Centro de Estudos Desmanche e Formação de Sistemas Simbólicos- Desformas da ECA-USP. Atualmente é parte do LEHI – Laboratório de Economia e História da UFRRJ.

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