4 de fevereiro de 2019

Entre a Águia, o Dragão e o Urso: Como fica o Turpial na selva após a reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas?

Por Pablo Victor Fontes e Alana Camoça





Rudyard Kipling, autor colonialista, no livro “O Livro da Selva” de 1894 – que deu inspiração ao filme Mogli – o urso Baloo ensina a Mogli que “esta é a Lei da Selva, tão antiga e imutável quanto o céu; quando um lobo a viola, ele morre, mas prospera o lobo que é fiel”. Partindo do pressuposto que o mundo é uma selva, principalmente num sistema internacional onde há hierarquias e suas respectivas reproduções rotineiramente, cabe alguns questionamentos: Diante de uma realidade onde a lei (força de lei) dos mais fortes prevalece, o que ocorre com aqueles que não obedecem as regras da arquitetura do sistema internacional? E ainda, o que acontece quando os líderes da selva estão em dissenso?

A partir do excerto de Rudyard Kipling, compreendemos que a instabilidade político-econômica com que vem passando o turpial (animal símbolo da Venezuela) provoca em qualquer analista de política mundial uma redobrada atenção e um excessivo cuidado não apenas no uso das palavras, mas também diante da enxurrada de informações que circulam constantemente desde a reeleição do governo de Nicolas Maduro (2018). Nesta breve análise cabe evocar algumas questões que consideramos importantes para entendermos as ‘saídas’ e/ou mesmo ‘soluções’ diante da convulsão social que ganha às manchetes dos principais veículos de comunicação do mundo. 


Como sabido, os Estados Unidos do atual governo Donald Trump, por meio do seu Secretário de Estado Mark Pompeo, convocou uma reunião de emergência tendo por objetivo “dialogar” (atos de fala) com os membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSONU), ou seja, as cinco nações (EUA, Rússia, Reino Unido, França e China) que detêm poder de vetar sob quaisquer questões/circunstâncias situações/crises/conflitos que julguem necessárias. 

Cabe uma ressalva quanto aos procedimentos e tomadas de decisão que foram realizadas em algumas reuniões entre os membros do Conselho de Segurança da ONU no que concerne aos países que foram/são considerados/intitulados anárquicos, frágeis, fracassados, rouge states. E dentre estes países denominados por estas taxonomias, a Venezuela é um dentre vários que geram perplexidade, principalmente, para a águia, o leão (animal símbolo doReino Unido) e o galo (animal símbolo da França). 

Historicamente, o poder de veto no passado não impediu a ação unilateral das grandes potências a exemplo dos Estados Unidos que com o apoio do seu grande irmão, outrora, metrópole, a Grã Bretanha, invadiu o Afeganistão (2001) e promoveu a guerra do Iraque (2003). Nem mesmo a Invasão na Líbia (2011)- Resolução 1973 segundo o 41º capítulo da Carta das Nações Unidas (movimento Anti- Gaddafi) - e a Guerra Civil da Síria (2011) escaparam dos processos intervencionistas do imperialismo. Este que pode mudar de modo e estilo, porém suas essências continuam a mesma, ou seja, verticalizar, hierarquizar os países subdesenvolvidos na era Global, onde os circuitos, ainda que desterritorializados, não impedem a colonialidade.

Cabe uma ressalva nessas alusões históricas,posto que as vezes mesmo quando as grandes lideranças da selva chegam a uma decisão, nem sempre a mesma unânime. Quando ocorreram as invasões/guerras, no que concerne a Síria, o Iraque e o Afeganistão, por exemplo, o Urso (animal símbolo da Rússia) e o Dragão (animal símbolo da China) exerceram seus respectivos poderes de veto. Apesar do veto de algumas das grandes potências, como nos conta a história recente, intervenções não deixaram de acontecer. 

Ocorre que neste tabuleiro geopolítico, os atos produzidos pelos atores e suas respostas terão e trarão consequências complexas não apenas, para a Venezuela, mas para a região da América Latina e para o mundo. Até porque o turpial permanece sendo o maior produtor de petróleo e de seus respectivos derivados do mundo segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). 

Dentre os países pertencentes ao Conselho de Segurança da ONU, dois deles, o Dragão e o Urso, por meio de seus representantes governamentais, já manifestaram apoio ao governo de Nicolas Maduro. Enquanto que os demais apoiaram Juan Guaidó (Partido Voluntad Popular) como presidente interino. Os apoios daChina e da Rússiasão resultado dos acordos de cooperação internacional com o turpial em diversos setores desde energia a assunto militares. Dificultando, portanto, mas não impedindo, qualquer tipo de intervenção. 

Ontem, no dia 26 de janeiro de 2019, a reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU ponderou a situação da crise na Venezuela. Apesar de países como França, Alemanha, Reino Unido e diversos outros apoiarem a postura norte-americana de reconhecer Juán Guaidó como presidente da Venezuela, China, Rússia, Irã e Síria foram contra. No caso do urso branco, o embaixador Vassily Nebenzia argumentou que a posição norte-americana só visava apoiar um golpe de Estado no país sul-americano, posto que a Venezuela não representaria uma ameaça à segurança internacional. A reunião de sábado terminou sem muitas definições, mas os posicionamentos das grandes potências ficaram mais evidentes.

Nem sempre a lei (força de lei) da selva é acatada por todos, todavia alguns detêm maior capacidade militar, econômica e política de burla-lá. Por isso, cabe aguardamos os próximos capítulos desta história onde os estereótipos da barbárie e da selvageria podem não estar entre aqueles que foram colonizados, mas sobre aqueles que colonizam a partir de outras formas/perspectivas mesmo após o processo de descolonização e independência.






Pablo Victor Fontes é Doutorando pelo Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI/PUC-RIO).


Alana Camoça é Doutoranda em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PEPI/UFRJ).

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