1 de abril de 2019

Cartografia e projeções de poder nas relações internacionais

Volume 6 | Número 59 | Abr. 2019


Por Bernardo Salgado Rodrigues


Mapa-múndi de Gerardus Mercator, de 1569.


Os mapas são a reprodução mais antiga do pensamento geográfico. Concebida como ciência da representação gráfica da superfície terrestre, a cartografia vem auxiliando numa maior compreensão visual das relações internacionais. [1]. No entanto, não é suficientemente sistematizada como meio através do qual uma classe dominante projeta sua visão de mundo. Em outros termos, a cartografia nunca foi uma ciência neutra, isenta, e sim uma representação adaptada da realidade, que promove relações de poder.
As projeções cartográficas são uma expressão matemática que transformam as coordenadas geográficas, a partir de uma superfície esférica, em coordenadas planas, mantendo correspondência entre elas. Estas projeções são realizadas a partir dos meridianos e paralelos curvos da esfera terrestre em figuras geométricas, como o cilindro, o cone e o plano. Na projeção cilíndrica, os paralelos e meridianos são retos, havendo deformações nas regiões de altas latitudes (polos), com melhor projeção nas regiões perto do Equador; na projeção cônica, os meridianos são retos e convergentes e os paralelos são círculos concêntricos, visualizando-se regiões de latitudes médias; na projeção azimutal, há similitude com a projeção cônica, mas com distorções aumentando a partir do centro, sendo preferidos para representar regiões polares e mapas estratégicos (destaque a um ponto central).

O mapeamento é uma manifestação das relações de dominação existentes no plano internacional, cujas distorções ocorrem através de três mecanismos principais: escala, projeção e simbolização. A escala delimita a proporção que existe entre as distâncias da realidade e aquelas que aparecem em sua representação cartográfica; em outros termos, quanto maior a escala, maior o nível de detalhes e informações que o mapa pode oferecer. A projeção seria o segundo mecanismo de distorção dos mapas, pois trata de representar em um planisfério as superfícies curvas da esfera terrestre. Como cartógrafos críticos apontam, não há mapas perfeitos porque não há solução totalmente satisfatória para esse desafio. As distorções da projeção (suas formas e seus graus) não são imprevisíveis, mas obedecem a um padrão e regras muito precisos. Por último, a simbolização seria o terceiro elemento de distorção dos mapas: estes devem ter sinais gráficos para identificar as características da realidade espacial em questão, que são criados a partir da concepção e simbologia dos cartógrafos.

Historicamente, as duas projeções cartográficas mais conhecidas são a de Mercator e a de Peters. Arquitetada no século XVI, a projeção cilíndrica de Mercator foi a mais utilizada por navegantes, uma vez que as direções eram traçadas numa linha reta sobre o mapa. Esta projeção respeita as formas dos continentes, mas não seus tamanhos: áreas extensas ou situadas em latitudes elevadas aparecem com dimensões exageradamente ampliadas. Em contrapartida, a projeção de Peters, datada da década de 1970, trata de uma projeção cilíndrica equivalente, ou seja, preserva as dimensões relativas dos países e continentes. A distorção, portanto, está nas formas, principalmente nas pequenas latitudes, alongando os países e continentes no sentido norte-sul, contudo sendo mais fiel do que a projeção de Mercator no que se refere aos tamanhos dos continentes.[2].

Para Boron (2013, p.286), a representação cartográfica "oficial", baseada na projeção de Mercator, é a expressão fiel do sistema imperialista. O mapa de Peters, por outro lado, sendo uma "área equivalente", destaca a superfície real de cada um dos países e continentes, e endossa com os dados concretos da geografia a igualdade e autodeterminação nacional, anticolonial e anti-imperialista.
Peters fue un personaje notable, un pensador radical que sostuvo cosas tales como que “el eurocentrismo comienza en los mapas”. […] Su mapa, continuó diciendo, “es la expresión de la europeización del mundo, de la época de dominación mundial del hombre blanco, de la explotación colonial del planeta por parte de una minoría de pueblos blancos, dominantes, bien armados, técnicamente superiores y brutales.” Y concluyó afirmando que “esa época no ha de eternizarse mediante la insistencia en la imagen geográfica mundial creada por esa minoría y perteneciente a ella.” (BORON, 2013, p.281-282)

Stuenkel não aborda o tema das distorções cartográficas em termos de imperialismo, mas de ocidentocentrismo, uma visão de mundo que leva a subestimar o papel dos atores não ocidentais, no passado e no futuro. Além disso, no que se refere aos mapas, faz com que as regiões mais próximas à linha do Equador pareçam menores do que realmente são. Toma como exemplo clássico a Groenlândia, que parece tão grande quanto o continente africano, apesar de não corresponder à realidade. "Enquanto a área da Groenlândia é de 2.166.000 km², a extensão da África é de 30.370.000 km² - catorze vezes maior." (STUENKEL, 2018, p.19)

As distorções mencionadas não são apenas questões técnicas, mas obedecem a decisões essencialmente políticas e ideológicas ligadas ao exercício do poder. Assim, a criação de mapas era comumente controlada pelos governos e quase sempre nas mãos de agências ou escritórios pertencentes às forças armadas. Na moderna sociedade ocidental, os mapas rapidamente se tornaram cruciais para a preservação do poder estatal (fronteiras, comércio, administração interna, controle populacional, força militar), ampliado para o setor privado (Google Maps como maior exemplo).

El diseño, producción y uso de mapas, contienen una amplia gama de intencionalidades discursivas que van desde la presentación diferenciada de datos, hasta la divulgación de intereses políticos y estratégicos que el Estado y las empresas ejercen sobre el espacio y el territorio. En todo caso, “el mapa” transmite la visión específica del mundo del/los autor/es, y se convierte por excelencia en parte de un discurso geográfico. (PRECIADO; UC, 2010, p.74)
Mapa é uma questão de Estado. Outrossim, a cartografia se apresenta como uma projeção de poder geopolítico, cuja construção não possui um caráter geral e universal, replicável a todo e qualquer Estado nacional. A cartografia, tal qual a geopolítica, é o estudo de um autor de uma determinada nação ou país, que produz mapas marcados pelo seu contexto político, ideológico, territorial e histórico. Assim, se apresenta como projeto de poder dos Estados sob condições materiais singulares, que configuram e representam graficamente as relações internacionais a partir de objetivos geográficos e políticos específicos.
                                   

Referências

Preciado, Jaime & UC, Pablo (2010). La construcción de una geopolítica crítica desde América Latina y el Caribe. Hacia una agenda de investigación regional. Geopolítica(s). Revista de estudios sobre espacio y poder. 1 (1), 65-94.

BORON, Atilio. América Latina en la geopolítica del imperialismo. Buenos Aires: Ediciones Luxemburg, 2013.

STUENKEL, Oliver. O mundo pós-ocidental: potências emergentes e a nova ordem global. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.




[1] Ainda que com temáticas distintas, no âmbito das relações internacionais, três livros abordam a cartografia e geografia de forma interessante e original: "Uma história do mundo em doze mapas", de Jerry Brotton; "A vingança da Geografia", de Robert Kaplan; e "Prisioneiros da Geografia", de Tim Marshall.

[2] Mais recentemente, em 2010, Hajime Narukawa criou um mapa que melhor respeita as proporções Trata-se do Authagraph, criado depois de 15 anos de trabalho. Narukawa terminou de elaborar esta projeção já em 2010 e, conforme explicado em uma conferência, seu objetivo era unificar duas formas comuns de representar o mundo em um mapa. Para conseguir uma representação mais fiel das formas e tamanhos dos países, Narukawa dividiu a esfera terrestre em 96 triângulos. Depois transferiu esse desenho para um tetraedro, que, por sua vez, foi desdobrado em um retângulo, em uma técnica que tem sido comparada ao origami.



Bernardo Salgado Rodrigues é professor substituto do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ). Doutorando em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Integrante do Laboratório de Estudos de Hegemonia e Contrahegemonia (LEHC-UFRJ) e membro do Grupo de Trabalho de Integración y Unidad Latinoamericana y Caribeña do CLACSO (Conselho Latino-americano de Ciências Sociais).

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