12 de agosto de 2019

Desdolarização e Geopolítica: cenários geoeconômicos do século 21

Volume 6 | Número 63 | Ago. 2019

Por Roberto Rodolfo Georg Uebel 
e Glória Maria Sandi


Pixabay



A economia global sofreu muitas transformações ao longo das últimas duas décadas. O dólar não representa mais o que era antes. O padrão de referência da moeda norte-americana passou a ser contestado a cada novo ciclo de crises, incluindo novas potências emergentes neste processo, como Brasil, Rússia, Índia e China. Qualquer semelhança com a contra-hegemonia dos BRICS não é mera coincidência, entretanto, os impactos são globais: na OPEP, no Oriente Médio e na Venezuela, para citarmos os casos mais recentes. O nome deste processo: desdolarização.

Os benefícios inerentes a um país cuja moeda é aquela considerada a reserva internacional sobrepujam o antigo padrão-ouro, substituído pelo dólar norte-americano em Bretton Woods, que está próximo do seu aniversário de 80 anos. Se a comemoração for em Washington e em Londres, o after-party será em Bejing. A desdolarização segue a nova rota da seda global e lança a moeda chinesa, o RMB, como instituição monetária paralela àquelas tradicionais como o FMI, Banco Mundial e Banco Central Europeu.

Elementos como a desconfiança após as crises de 2008 e 2012, a substituição do dólar pela rúpia indiana pelos parceiros da Índia, pelo real pelos parceiros do Brasil e pelo rublo, pelas nações satélites à Rússia, bem como a ascensão da tecnologia, que facilitou a transação em diferentes moedas, impulsionaram a contestação da moeda norte-americana e a sua hegemonia global. Todavia, o dólar não vai desaparecer.


Para entender o processo de desdolarização atual, primeiro é necessário compreender como essa moeda se tornou a principal reserva mundial. Em julho de 1944, a economia global estava destroçada. Em um contexto de guerra, delegados de 44 países encontraram-se na cidade de Breton Woods, Estados Unidos, para remodelar o capitalismo global. Sendo que o ouro não alcançava mais a liquidez demandada pelas nações, instituiu-se o padrão dólar-ouro, sob o qual 35 dólares equivaleriam a uma onça de ouro. As moedas dos países signatários foram atreladas ao dólar a câmbio fixo, com 1% de variação permitido. Bancos Centrais compravam e vendiam dólares para manterem-se dentro da banda de flutuação exigida, e os EUA estavam livres para inflacionar. 

Os dólares criados pelos Estados Unidos terminavam nas reservas de outros países, os quais, então, tinham a possibilidade de inflacionar suas moedas em cima desses novos dólares. Foi assim que o dólar se tornou a moeda de reserva internacional. Porém, logo os países começaram a demandar a troca dos dólares pelo ouro. Assim, tendo criado muito mais dólares do que detinha de ouro em suas reservas, os Estados Unidos, sob o governo Nixon, optaram por unilateralmente quebrar o acordo de Bretton Woods em agosto de 1971, instituindo o dólar flutuante que temos hoje e liberando qualquer país para inflacionar a sua moeda como bem entender.

Ser o país detentor da principal moeda de reserva internacional trouxe grande poder político, econômico e geopolítico aos EUA. Os benefícios são vários, incluindo: 1) o governo pode recorrer ao Federal Reserve para que esse imprima dinheiro e compre títulos da dívida dos EUA ou pague pelos títulos norte-americanos em posse de bancos centrais estrangeiros; 2) os EUA podem importar petróleo com dólares criados, sendo que a OPEP (Organização dos Países Produtores de Petróleo) apenas vende petróleo em dólares; 3) há um enorme mercado para os títulos da dívida do Tesouro dos EUA, o que fomenta a dolarização e alimenta o déficit comercial norte-americano; 4) os mercados futuros de commoditiesem todo o mundo são praticados em dólar, sendo mais custoso transacionar em outras moedas. Ou seja, o Banco Central dos Estados Unidos possui uma liberdade sem precedentes para conduzir a sua política fiscal e monetária, e porque não, geoeconômica.

Hoje, a manutenção do dólar como principal moeda de reserva internacional é essencial à hegemonia dos Estados Unidos. Isso porque o país já inflacionou e ampliou tanto a sua base monetária que precisa que os depósitos em dólar se mantenham nas reservas dos demais países. “Os EUA administram um déficit enorme em conta corrente que, em boa medida, se deve ao fato de que o resto do mundo é que o financia”, explica Robert Anthony Mundell, vencedor do Nobel de Economia de 1999. Se esse dinheiro todo voltasse aos Estados Unidos, a economia do país entraria em estagflação, o que geraria uma crise mundial sem precedentes. Para acrescentar, há quem diga que é a irresponsabilidade e inconsequência da política fiscal dos Estados Unidos o que vem gerando as crises do capitalismo que acompanhamos desde 1980, além daqueles que advogam que o poder dos Bancos Centrais em quem determina os verdadeiros rumos geopolíticos do mundo contemporâneo, como Nomi Prins (2018) traz em seu último livro “Collusion”. Maior consenso ainda existe entre representantes de países e pesquisadores da área sobre a desconfiança pós-crise de 2008, onde foram criados 4,5 trilhões de dólares para salvar a economia norte-americana conforme Prins (2018). Nenhum país do mundo possui poder para fazer algo dessa magnitude e ficar imune às consequências, sobretudo, crises. 

Para que um país internacionalize a sua moeda, é necessário o cumprimento de certos requisitos: a moeda precisa transmitir confiança aos demais países, gerar liquidez ao mercado internacional e ser amplamente aceita e utilizada pelas redes internacionais, comerciais e financeiras. É justamente pela falta de confiança no dólar que o mundo está em busca de alternativas. Entre elas, encontram-se o euro europeu, o RMB chinês e, inclusive, uma alternativa de moeda internacional. O processo de abandono do dólar, que vem tomando força internacionalmente, é chamado desdolarização.

Um país fortemente desdolarizado é a Rússia. Após a dissolução da União Soviética em 1991, foi quebrada a unidade monetária entre os países pertencentes ao bloco. A crise decorrente desse divórcio doloroso levou a significativa dolarização da economia russa, incapaz de manter a soberania monetária doméstica. Isso aconteceu porque há uma tendência dos investidores de, em momentos de crise nas economias, buscarem estabilidade em moedas internacionais. Porém, para a saúde do país, isso não podia continuar assim.

O processo de desdolarização da Rússia ganhou forma sobre o governo de Putin, que promoveu uma notável ressureição da economia, no embalo da alta do preço internacional do petróleo e guiado por uma política macroeconômica conservadora. Entre 2006 e 2007, a Rússia promoveu uma campanha agressiva de desdolarização, com o governo promovendo o rublo doméstica e internacionalmente. A crise financeira de 2008 proporcionou uma nova oportunidade para expandir a influência do rublo nos países vizinhos, sendo que a desconfiança no dólar tornou o rublo russo mais plausível como moeda regional. E a desdolarização continua se aprofundando no país, como salientou Andrey Kostin, presidente do VTB Bank, durante um encontro com Vladmir Putin: “Desde o início do ano, as pessoas parecem estar menos interessadas em fazer depósitos em dólares ou contrair empréstimos em dólares relativamente aos em rublos. Esperamos que isso seja um elemento importante de continuação da desdolarização do setor financeiro do nosso país” (KREMLIN, 2019). A Rússia também vem buscando a utilização de moedas regionais para trocas comerciais, evitando o dólar. Porém, há ressalvas, como alerta o cientista político Gevorg Mirzayan: “para poder passar a usar as moedas nacionais no comércio bilateral, é necessário que esse comércio seja feito sem desequilíbrios” (BRICS INFORMATION PORTAL, 2017). Caso haja desequilíbrio, um país acumulará reservas demais na moeda do outro, enquanto o outro terá pouca moeda do primeiro.

Alguns autores colocam a moeda chinesa como candidata a substituir o dólar. Realmente, o RMB vem se valorizando em relação ao dólar há muitos anos. Porém, um dos fatores-chave para internacionalização de uma moeda é a confiança depositada nela e na política financeira e monetária de seu país de origem, e isso é algo que ainda precisará ser aprimorado por Beijing.

Uma alternativa à substituição completa da hegemonia do dólar pela hegemonia de outra moeda é apresentada por Mundell (2005) e Eichengreen (2000). Mundell (2005) defende a criação de uma moeda única mundial, baseada na estabilização de uma cesta dólar-euro-iene, suplementada pelo ouro. Seria designado a um banco central mundial acumular reservas em moeda nacional, ouro e direitos exportadores e com esses ativos [seria criada] uma instituição que faria do dinheiro internacional um criado da população mundial. Já Eichengreen (2000) aponta que a solução mais prudente seria os países buscarem manter as suas reservas em porções equilibradas de euros, dólares e RMBs. Com isso, o economista defende que nenhuma economia que tenha sua moeda como moeda internacional terá tanto poder para financiar suas dívidas e exportar sua inflação e problemas macroeconômicos para os demais países. Também, com mais de uma moeda como reserva internacional, os riscos de ocorrer uma nova crise como a das subprimesé menor.

Seguindo a argumentação de Barry Eichengreen (2000), o economista alerta que a economia global pós-crise presenciará um papel reduzido do dólar, mas não acredita que a moeda norte-americana vá desaparecer completamente. Isso porque, não apenas o mercado está acostumado ao dólar, mas também alguns países sofreriam perdas se se livrassem de seus dólares muito depressa. Apesar de outras moedas encontrarem-se nas reservas dos Bancos Centrais dos países, como o euro, o iene e a libra-esterlina, nenhuma dessas moedas se equipara ao dólar. Isso porque a hegemonia do dólar é decorrência de uma cadeia muito bem amarrada por interesses e (inter)dependência, a qual engloba, principalmente, a OPEP, empresas multinacionais e as economias asiáticas, com ênfase na China.

Hoje, praticamente todos os países precisam de petróleo. E é no Oriente Médio onde encontram-se as maiores reservas de petróleo do mundo. Curiosamente, também é o Oriente Médio palco de conflitos recorrentes. A constante instabilidade na região é benéfica aos EUA, porque os países em conflito compram seu armamento principalmente dos Estados Unidos, em dólares. Logo, como precisam de dólares para pagar o armamento, toda a produção da OPEP é vendida em dólares. E, como quase todos os países precisam de petróleo, todos os países precisam ter uma reserva em dólares para comprar o petróleo da OPEP, a maior fornecedora do mundo.

Os países asiáticos também se aproveitaram do padrão dólar. Desvalorizando as suas moedas em relação ao dólar, eles atraíram empresas multinacionais e construíram um mercado voltado à exportação. A presença dessas empresas nos países também alavanca a demanda por dólares, sendo que muitas dessas empresas preferem fazer comércio nessa moeda. A China foi o principal ator a emergir nesse contexto, tirando mais pessoas da pobreza nos últimos anos do que qualquer país do mundo na história. Porém, para manter essas empresas dentro dos seus países, os governos asiáticos precisam continuar desvalorizando as suas moedas, para que os custos de produção não se elevem. O único governo que vem fazendo um movimento contrário é o chinês, o qual vem valorizando lenta e gradualmente a sua moeda, o RMB, ao longo dos últimos 30 anos. Além disso, a China é a maior credora da dívida norte-americana. Assim, instalou-se uma relação simbiótica entre os EUA e a China.

O after-party que Beijing presencia, portanto, está atrelado a um movimento equilibrado e coordenado da desdolarização da economia chinesa, complementado por políticas protecionistas e a guerra comercial proposta pelo governo Trump. Além das repercussões óbvias na Rússia, Oriente Médio e demais países da OPEP, outros impactos são sentidos, econômica e geopoliticamente, em partes diferentes do mundo, como a Venezuela, em crise, e que busca salvaguardar a sua criptomoeda Petro em RMBs chineses e petrodólares virtuais, o que explica a própria presença militar chinesa no país. Estes são alguns dos cenários geoeconômicos da desdolarização, esta que, assim como a institucionalização de Bretton Woods e do padrão-dólar, transformará o sistema de meios de pagamentos e as relações econômicas internacionais, agora com impactos geopolíticos cada vez maiores.


Referências

BRICS INFORMATION PORTAL. The Fall of the Global Hegemon: How BRICS Countries Can Replace the US. 2017. Disponível em: <http://infobrics.org/post/25615/>. Acesso em: 11 ago. 2019.

EICHENGREEN, Barry J. A globalização do capital: uma história do sistema monetário internacional. São Paulo: Editora 34, 2000. 286 p.

MUNDELL, Robert. The case for a world currency. Journal of Policy Modeling, [s.l.], v. 27, n. 4, p.465-475, jun. 2005. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0161893805000463>.Acesso em: 11 ago. 2019.

PRINS, Nomi. Collusion: How Central Bankers Rigged the World. Nova York: Nation Books, 2018. 384 p.

RÚSSIA. KREMLIN. Meeting with VTB Bank Chairman and CEO Andrei Kostin. 2019. Disponível em: <http://en.kremlin.ru/events/president/news/59955>. Acesso em: 11 ago. 2019.



Roberto Rodolfo Georg Uebel é economista, Doutor em Estudos Estratégicos Internacionais (UFRGS) e Professor do curso de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-POA). Pesquisador do grupo de pesquisa "Novos Polos de Poder e a Política Internacional" (ESPM-POA).

Glória Maria Sandi é acadêmica do curso de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-POA).



Como citar:
UEBEL, Roberto Rodolfo Georg; SANDI, Glória Maria. Desdolarização e Geopolítica: cenários geoeconômicos do século 21. Diálogos Internacionais, vol.6, n. 63, ago.2019. Acessado em [12/08/2019]. Disponível em: http://www.dialogosinternacionais.com.br/2019/08/desdolarizacao-e-geopolitica-cenarios.html

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