25 de março de 2020

Uma “imagem” vale mais do que mil palavras: a visão internacional sobre a China em tempos de coronavírus

Volume 7 | Número 69 | Mar. 2020

Alana Camoça[1]




Diante das hierarquias de poder, das disparidades econômicas e de características históricas do próprio sistema, ideias e narrativas são proferidas, pairam como palavra de ordem e retroalimentam as dinâmicas existentes que afetam a imagem dos países no sistema internacional. Em “O Príncipe”, Maquiavel já nos informava que a política se constrói em um ambiente onde não é possível diferenciar o “ser” do “parecer” e mesmo que o Príncipe não seja piedoso, fiel, humano e íntegro, ele deve parecer ser tudo isso.

Questões sobre a imagem dos países no cenário internacional nos permite refletir sobre transição hegemônica e prestígio (Schweller; Pu, 2011), se quisermos seguir com uma literatura realista; sobre o poder das ideias e as concepções de identidade (Adler, 1999), se formos para o construtivismo; ou até mesmo sobre a ideia de soft power (Nye, 1990), caso sigamos com a vertente liberal; ou ainda sobre a hegemonia em uma concepção gramsciana (Cox, 1986), caso optemos por correntes de matriz marxista e da teoria crítica. Fora estas correntes tradicionais, existem diversas outras teorias de RI que debatem, cada qual com suas particularidades e diferenças, sobre a questão da imagem, da figura do “Eu” e do “Outro” nas relações internacionais (Campbell, 1992).

No século XXI, a China vem modificando os cenários geopolíticos e geoeconômicos do mundo e, por esse motivo, vem ganhando cada vez mais notoriedade nos estudos de relações internacionais e tem estimulado visões pessimistas proliferadas no ocidente sobre a ascensão do gigante asiático. De 2001 até 2008, ao passo que o gigante asiático crescia, o país buscou dispensar os medos de que uma China em crescimento seria uma ameaça para o sistema e com isso, discursos sobre sua ascensão pacífica, desenvolvimento pacífico e mundo harmonioso foram enaltecidos. Todavia, a despeito dos constantes discursos chineses entoados sobre seu pacifismo, da ajuda do gigante asiático aos EUA durante a Guerra ao Terror e do comportamento comedido do mesmo no seu entorno regional (Zhao, 2015), o país continuou sendo apresentado de forma negativa e com desconfiança nas mídias e na academia ocidental (Mearsheimer, 2001).


Não é de hoje e nem recente os receios com relação à China, ou com relação ao “outro” no cenário internacional e não faltam exemplos de xenofobia com relação à China e outros países não-ocidentais, ou não inseridos na “bolha” ocidental desenvolvida. Atualmente, a pandemia mundial tem reforçado a necessidade de debatermos sobre a imagem de um país no cenário internacional e quais os meios adotados por ele para disseminar uma imagem positiva de si mesmo.

A pandemia é antes de tudo uma crise de saúde pública, já tendo causado mais de 3.000 mortes, mas, para a China, tornou-se um desafio à sua posição em casa e no exterior também. A China enfrenta diversas acusações da mídia e de outros países entorno do vírus. Inclusive, foram levantadas acusações entre lideranças norte-americanas e chinesas sobre teorias de que a disseminação do vírus era um instrumento capaz de impactar nas ambições e no poder dos países internacionalmente. Sem nos prendermos em teorias da conspiração, o evento atual nos serve como exemplo para refletirmos sobre como um país vende a sua “brand”, a sua imagem internacionalmente.

Assim como o Japão constantemente enfatiza seu pacifismo frente aos países asiáticos que ainda encaram o arquipélago com desconfiança devido às cicatrizes históricas e comportamentos nacionalistas de certas lideranças, o governo chinês também busca remodelar a sua imagem internacionalmente (Oliveira, 2019). Todavia, não faltam exemplos sobre como o país é tratado por especialistas e pela mídia ocidental. Um exemplo interessante relacionado à atual crise são os comentários de convidados e apresentadores na Fox News que ampliaram teorias conspiratórias sobre a China e sobre alegações de que o vírus veio dos chineses que comiam morcegos. Donald Luskin, um economista entrevistado durante um noticiário do canal endossou uma visão dos chineses como “bárbaros” quando disse: “What are we gonna do about China? What are we gonna do about a totalitarian dictatorship where it’s ok to sell live virus infected bats in open air marketplaces and then have business travel and tourist travel between that country and the civilized world?” (Fox News, 2020, grifo nosso).

Outro exemplo, também norte-americano, é a constante definição de Donald Trump do coronavírus como “Chinese Vírus”, uma posição rejeitada e criticada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), tendo em vista que em 2015 a instituição reconheceu oficialmente as implicações preocupantes de nomear doenças infecciosas com base em seu local de origem ou população étnica e aconselhou pesquisadores, cientistas e a mídia a não fazê-lo (National Review, 2020). As acusações aos chineses não se restringe aos EUA e casos de lideranças no Brasil também estão presentes, como o fato de no dia 18 de março Eduardo Bolsonaro responsabilizar a China pela pandemia e ter sido endossado pelo ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo que respondeu às críticas feitas pelo governo chinês à atitude brasileira dizendo que a China precisa pedir desculpas ao Brasil (G1, 2020) - atitude que fere e pode ferir ainda mais as relações do Brasil com seu grande parceiro comercial.

Em contraposição às atitudes e às imagens apresentadas por lideranças e políticos de outros países, o governo chinês impulsionou campanhas para reconstruir novamente a sua imagem internacionalmente. Esse interesse chinês não é novo, de fato as críticas ocidentais e de grandes potências em relação à China não são novas e são exemplos das barreiras existentes para o gigante asiático ascender sem ser visto como uma ameaça pelo ocidente ou como o “outro”. Desconfianças sobre a postura chinesa internacionalmente são reproduzidas pelo ocidente e para romper com estigmas difundidos e mediatizados sobre a China como uma ameaça, o governo de Pequim, além de difundir discursos que entoam sobre a ascensão e desenvolvimento pacífico chinês desde 2003, como parte elementar de sua política externa, vem impulsionando (i) a internacionalização de suas mídias, (ii) investindo na proliferação de institutos culturais – principalmente o Instituto Confúcio, (iii) promovendo medidas de assistência internacional e (iv) endossando e financiando propagandas pró-China (Yang, 2018; Becard; Filho, 2019; Campbell; Doshi, 2020; Oliveira, 2019).

Para o presente texto cabe destaque os pontos (iii) e (iv). De acordo com Campbell e Doshi (2020), na recente crise, quando nenhum estado europeu respondeu ao apelo urgente da Itália por equipamentos médicos e equipamentos de proteção, a China se comprometeu publicamente a enviar 1.000 ventiladores, dois milhões de máscaras, 100.000 respiradores, 20.000 roupas de proteção e 50.000 kits de teste. A China também enviou equipes médicas e 250.000 máscaras para o Irã e enviou suprimentos para a Sérvia. Além disso, o co-fundador da Alibaba, Jack Ma, prometeu enviar grandes quantidades de kits de teste e máscaras para os EUA, além de 20.000 kits de teste e 100.000 máscaras para cada um dos 54 países da África. Os autores ainda ressaltam que há um fluxo constante de propaganda chinesa por meio de artigos, tweets e mensagens públicas, em uma ampla variedade de idiomas, onde se elogia as conquistas da China e se destaca a eficácia de seu modelo de governança doméstica. A ativa participação chinesa no combate à pandemia e a demora norte-americana de se apresentar como uma liderança no combate à crise são questões que colocam o debate de que o coronavírus pode transformar o sistema internacional.

No que tange ao ponto (iv), em uma clara crítica ao governo norte-americano e as suas acusações, uma notícia veiculada na Xinhua apresentou que “o vírus não tem nacionalidade. Usar nomes xenófobos e racistas para colocar a culpa no surto em outros países revela somente a irresponsabilidade e incompetência de políticos” (Xinhua, 2020, tradução nossa). No tensionamento entre duas das grandes potências do sistema internacional, as propagandas e os ataques de uns contra os outros enfatizam o argumento de Carr (2001, p.178) a respeito do poder sobre opinião e o poder das propagandas, quando disse que “da mesma forma que lanço obuses nas trincheiras inimigas, ou gás venenoso no inimigo", escreveu o General alemão, que foi o principal responsável pelo envio de Lenin e seus seguidores, num trem selado para a Rússia, "eu, como um inimigo, tenho o direito de usar a propaganda contra ele".

Diante da crise mundial, perante a cenários que flertam com as ideias distópicas de ficção e pós-apocalípticas, a análise sobre a construção da imagem do outro, ou o enquadramento do outro como inimigo ou a percepção do inimigo e de uma ameaça, são relevantes para compreendermos o sistema internacional e debatermos sobre como enquadramos, “taxamos”, percebemos e/ou refletimos sobre um determinado país. O coronavírus pode ser uma chance para a China se apresentar para o mundo como um país capaz de lidar com crises de diversos tipos, como foi com a crise financeira de 2008, e com a pandemia atual. Todavia, ao mesmo tempo, a atual pandemia é uma ameaça para a imagem que a China vem tentando construir sobre o país, o governo chinês e a sua própria cultura. Seja uma oportunidade ou um problema para a China, os efeitos da pandemia não serão somente econômicos, políticos ou diplomáticos, podendo ter consequências que afetarão o sistema internacional como um todo. 



Referências Bibliográficas

ADLER, Emanuel. O construtivismo no estudo das relações internacionais. Lua Nova, No. 47, 1999.

BECARD, Danielly S. R.; FILHO, Paulo M. 2019. Chinese Cultural Diplomacy: instruments in China’s strategy for international insertion in the 21st Century. Revista Brasileira de Política Internacional, vol. 62, edição 005, pp.1-20.

CAMPBELL, David. Writing Security: United States Foreign Policy and the Politics of Identity. Minnesota: University of Minnesota Press, 1992.


CARR, Edward. Vinte anos de crise: 1919-1939. Trad. Port. Brasília & São Paulo: IPRI, UNB, Imprensa Oficial, 2001.

COX, Robert. W. Social forces, states and world orders: Beyond international relations theory. In Neorealism and Its Critics, ed. Robert O. Keohane, 204–254. New York: Columbia University Press, 1986.

FOXNEWS. China’s live animal market are dangerous breeding grounds: Donald Luskin. Disponível em <https://video.foxbusiness.com/v/6135606545001/#sp=show-clips> Acesso 20 de março de 2020.

G1. Ernesto Araújo quer que embaixador da China se retrate por resposta a Eduardo Bolsonaro. Disponível em <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/03/19/ernesto-araujo-quer-que-embaixador-da-china-se-retrate-por-resposta-a-eduardo-bolsonaro.ghtml> Acesso em 25 de março de 2020.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Editora Martin Claret, 2010.

MEARSHEIMER, John J. The tragedy of great power politics. New York: W.W., 2001.

NATIONAL REVIEW. Inside the Controversy over the Chinese Virus. Disponível em< https://www.nationalreview.com/2020/03/inside-the-controversy-over-the-chinese-virus/> Acesso em 25 de março de 2020.

NYE, Joseph. Soft Power. Foreign Policy, n.80, Twentieth Anniversary, 1990, p. 153-171.

OLIVEIRA, Alana. Entre o Sol, a Águia e o Dragão: dinâmicas de poder e segurança entre Japão, EUA e China no Leste Asiático e o estudo de caso das ilhas Senkaku/Diaoyu no século XXI. PhD Thesis, UFRJ, 2019.

SCHWELLER, Randall; PU, Xiaoyu. After Unipolarity: China's Visions of International Order in an Era of U.S. Decline. International Security, Vol. 36, No. 1, 2011, pp. 41-72.

Xinhua. Commentary: U.S. politicians' smear attacks on China reveal irresponsibility, incompetence. Disponível em <http://www.xinhuanet.com/english/2020-03/17/c_138887577.htm> Acesso em 25 de março de 2020.

ZHAO, Suisheng. China’s Power from a Chinese Perspective (I): A Developing Country versus a Great Power. In: CHUNG, Jae-ho. Assessing China’s Power. The Asan Institute, UK: Palgrave Macmillian, pp.251-270, 2015.



[1] Alana Camoça é Pós-Doutoranda em Ciências Militares na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e Doutora em Economia Política Internacional pelo Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ.



Como citar

CAMOÇA, Alana. Uma “imagem” vale mais do que mil palavras: a visão internacional sobre a China em tempos de coronavírus. Diálogos Internacionais, vol. 7, n. 69, Mar. 2020. Acessado em: 25 Mar. 2020. Disponível em: http://www.dialogosinternacionais.com.br/2020/03/uma-imagem-vale-mais-do-que-mil.html

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