18 de abril de 2020

O vírus, os idosos e o “abraço de afogados”

Volume 7 | Número 70 | Abr. 2020


Por Liana Carleial


Fonte: Freepik.com


Nunca antes na história recente da humanidade, vivemos um período tão difícil, numa semana tão especial para os cristãos. A disseminação do Covid-19 no mundo, a sua letalidade e as dificuldades que os diferentes governos têm tido na condução da prevenção e tratamento da doença revelam um fato indiscutível: só os Estados que possuem, neste período, governos que se negam a propor um trade-off entre vida e economia e, portanto, implementam o isolamento social com vigor e rapidez, conseguem reduzir o ritmo dessa disseminação.

Esse fato é apenas parte do problema. Há muitos outros. O vírus é resultado de mutação recente que lhe permitiu atacar humanos, logo, não há vacinas, nem um protocolo preciso, pois até os sintomas da doença são mutantes. Não havia preparo para o enfrentamento desse quadro, não há testes em quantidades necessárias, os dados são pouco confiáveis e supõe-se uma subnotificação de casos no mundo.

Neste contexto, escancara-se uma situação que estava subentendida, cifrada, guardada: quarenta anos de neoliberalismo, de redução dos gastos sociais, de imposição de uma eficiência privada versus a suposta ineficiência pública, de flexibilização e precarização das relações de trabalho, de perda de participação do salário na renda, de ampliação das desigualdades sociais e de renda, dependendo de como cada país construiu o seu próprio caminho explodiu: os sistemas de saúde não dão conta. No Brasil, de 2016 para cá, 22 bilhões de reais foram retirados da rubrica de saúde. 

Uma constatação irrefutável é de que o Estado é o único agente capaz de conferir alguma racionalidade à crise. Este fato está sendo reconhecido, pelos países ricos (o tio Sam está propondo o maior programa de salvação do pais de sua história e pode emitir, sim, emitir até 1 trilhão de dólares), pelos remediados e pobres, pela direita, pela esquerda, pelos liberais, pelos neoliberais, pelos democratas, pelos não democratas, pelos fascistas, enfim , por quem tem alguma voz neste momento. Mas, cada um querendo tirar uma “lasquinha” maior do “seu” Estado. Pois é, descobrimos isso também: cada um tem o seu Estado particular. Estado mínimo, nem pensar. Os empresários usam o Estado para promover mudanças emergenciais que os libere das responsabilidades como empregadores, em tempos de pandemia, mas quem sabe, depois também... Usam o Estado para fazer os trabalhadores voltarem mais rápido para o batente, pois enfim, a economia não pode parar, não é mesmo? Usam o Estado para postergar dívidas, já que não há vendas nem compradores e ainda fazer os bancos desempoçarem a grana que o Banco Central liberou para eles. Essa parte, é a mais difícil, pois os juros até subiram após a pandemia, pasmem! O que nos faz lembrar a Dilma, em 2012, que conseguiu, em tempos saudáveis, baixar Selic e spreads, pois é, já vivemos isso, e é bom não esquecer! Enfim, todos estão compreendendo melhor como a economia funciona: sem trabalhadores, consumidores e Estado, decididamente, Não!! E não adianta fazer contabilidade mentirosa e propor, PIB público e PIB privado, o que só evidencia a precariedade da equipe econômica. Enfim, o posto Ipiranga fechou. Ou nunca existiu?

No Brasil de 2020, é bem verdade que é imprescindível, o relaxamento da criminosa PEC 95, e não só durante a pandemia. O auxílio emergencial de 600 reais, que subverteu o desejo presidencial de 200 reais, certamente terá de ultrapassar os três meses previstos. No entanto, entre nós, a dificuldade maior é além de enfrentar o vírus, temos de enfrentar, ou pelo menos, sobreviver ao verme.

Desde o início da chegada do vírus entre nós, a ação do senhor eleito presidente da República, em 2018, tem sido de grande frieza e irresponsabilidade institucional e pessoal. Na realidade, até muito coerente com o seu desempenho desde sempre. No entanto, somos seres humanos amedrontados, inseguros diante de um desconhecido letal e é natural, que esperemos uma atitude firme, propositiva e tranquilizadora do chefe de Estado.

Ao contrário, as atitudes desde a atabalhoada viagem ao tio Sam, que trouxe 22 infectados, responsáveis por parte da disseminação por aqui, sem contar dois casos de testes realizados, sem divulgação do diagnóstico, só tem sido de ampliação da insegurança e do medo entre nós.

O senhor presidente da República tentou escamotear o risco que se aproximava dos brasileiros, desqualificando a doença e reduzindo a sua força, ao chama-la de “gripezinha”, em lives, em TVs e ao encontrar o seu tresloucado público. De início, parecia querer acompanhar o seu cúmplice do Norte, na recorrente irresponsabilidade ao lidar com problemas tão graves, como a saúde humana. Mesmo sem acreditar na doença, oferecia dia e noite, uma medicação milagrosa, a cloroquina, produzida por um laboratório, que tem entre os seus sócios, o seu amigo do Norte. Caminhos insondáveis, pois não há qualquer confirmação científica da sua eficácia para esse fim, mas há riscos graves reconhecidos de seu uso, como a surdez e o desequilíbrio mental. A sorte dos brasileiros, foi que os governadores e prefeitos não seguiram o presidente, e decretaram o isolamento social, mesmo correndo o risco de serem responsabilizados por ele, pelo aprofundamento da crise econômica. A crise é humanitária, nada mais relevante.

Mesmo diante dos exemplos mundiais de êxito do isolamento social, em reduzir a disseminação do vírus, esse senhor desrespeita as orientações da OMS e do próprio Ministério da Saúde do Brasil e instiga o seu público a cobrar a reabertura do comércio, a tal volta à normalidade. Não satisfeito, convoca carreatas, frequenta padarias, feiras, promove aglomerações. Como disse muito bem o ator Pedro Cardoso, ele age como um torturador, quando ameaça demitir Mandetta e nos ameaça com Osmar Terra, sabidamente mais compromissado com ele e bem menos com todos nós. Não reclamem, se reclamarem, virei com o Terra (plana!). Mais chocada fiquei, quando soube que a primeira esposa do Terra foi torturada por Ustra, segundo ela mesma[1]. Não seria para o Terra querer distância de quem tem tal figura como herói? Para rebater tamanha loucura, nada mais humano do que o Santo Padre Francisco, no domingo na Ressureição de Jesus: Este não é tempo para a indiferença, porque o mundo inteiro está sofrendo e deve sentir-se unido ao enfrentar a pandemia . Amém, eu digo.

Chegamos, enfim, na parte mais delicada, nós, os idosos. Desde a estranha campanha eleitoral de 2018, era evidente que havia grupos sociais discriminados: mulheres, pobres, LGBTs, quilombolas, índios e nordestinos, esses predestinados a comer capim.

Agora chegou a vez dos idosos. A longevidade, com qualidade de vida, é um grande ganho da humanidade. Não há o que discutir. No entanto, nesta pandemia, os idosos formam um dos grupos de risco, por sofrerem mais as consequências dos desdobramentos da doença. Eles, ou melhor, nós, não a contraímos mais facilmente, mas sofremos mais com ela. No início, achava-se que a letalidade seria maior para esse grupo, o que não se confirmou. Esta constatação, ensejou o isolamento dos idosos, sem os seus amados netos e parentes. As crianças são tidas como transmissores assintomáticos. Logo, o senhor presidente incorporou uma chamada para a morte. Calma, todos nós morremos um dia, mas de morte morrida, mas não morte matada, não acham?

Não, esse senhor acha que os velhos já viveram muito e poderiam suspender essa pantomima de isolamento e permitir que tudo volte ao normal. Qual normal? O de 2014? Boa pedida, mas não, é o de 2020 mesmo. Como muitos idosos, hoje, no Brasil, sustentam até os netos, considerando o nosso baixo padrão salarial e o alto desemprego, e ainda, a menor cobertura do Programa Bolsa Família (PBF) que foi reduzido desde 2016, sem contar com os efeitos da reforma da previdência de 2019, liberar o trabalho para os jovens que circulam de ônibus, é mesmo, matar os idosos.

Em Fortaleza, houve um caso peculiar. Um empresário, convicto apoiador do presidente, organizador de claques e de comissões de recepção em aeroportos declarou que, aos 74 anos de vida, achava razoável deixar mesmo a vez para os outros. Não posso afirmar quais são as condições de vida desse senhor, mas posso supor que ele não é usuário de transporte coletivo, não faz jornadas longas de trabalho, é bem alimentado, ingere medicamentos que o ajudam a manter a necessária imunidade e toma sol com regularidade; e se for acometido de Covid-19, terá uma UTI e um respirador ao seu dispor. Serve de exemplo?

Para um presidente que não conhece a Constituição que jurou cumprir, não espanta o seu desconhecimento do Estatuto do Idoso, de 2003, da gloriosa era Lula. Recorro ao Estatuto, porque esse senhor tem reiterado, publicamente, que o idoso, é um problema de suas famílias e não do Estado ou governo. Quais tem sido as consequências dessas afirmações em famílias sofridas, pobres nas quais, ao mesmo tempo, que o avô representa a possibilidade de mais um empréstimo consignado que o neto quer, dessa vez, para atualizar o celular, ou quem sabe, apressar o casamento, representa também uma cama ou rede ocupada no exíguo barraco onde vivem e, ainda, o olhar sábio/crítico, mesmo solidário, que critica o neto “fora da linha”? Meu Deus, quanta insensatez!

O Estatuto do Idoso, senhor presidente, invalida todas as suas propostas e afirma do começo ao fim, a reponsabilidade do Estado para com as pessoas com idade igual ou superior a 60( sessenta anos), ou seja, o idoso brasileiro, que goza de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo ainda o grupo prioritário na execução das políticas públicas. Só para exemplificar, no seu Artigo 3, é afirmado: é obrigação da família, da sociedade e do poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura , ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar . Prosseguindo para o Artigo 4o. vai afirmar que o idoso não pode ser alvo de qualquer discriminação. Pois é , senhor presidente, o senhor neste caso, é um fora da lei.

Na semana passada foi Semana Santa, a lógica de criar aglomerações continua. Ontem, algumas capitais brasileiras “sofreram” carreatas e aglomerações nas quais o presidente promove um verdadeiro “abraço de afogados” entre os seus aliados e sem qualquer pudor. Triste Brasil. Hoje, o prefeito de Manaus, capital do Amazonas, do PSDB, partido aliado, a princípio da base do governo, uma das cidades com maior índice de contaminação, afirmou: “o presidente é um aliado do vírus”. Hoje, também, o senhor presidente acusa o isolamento social de ser culpado pelo desemprego, quando em um ano e quatro meses de governo nada fez para promover o crescimento econômico e o emprego. Na realidade, ele busca, a esmo, terceirizar o seu fracasso. Contrariamente, ao seu modelo, Trump, que prolongou o isolamento social até 30 de abril, o presidente brasileiro aposta no caos e aprofunda o desrespeito aos brasileiros.

Mas, o domingo da Ressureição é sempre um dia mágico, de retomada da fé, de esperança e de renovação. E não foi diferente. Tivemos o primeiro ministro da Inglaterra, Boris Johnson, no berço do capitalismo, da industrialização e do neoliberalismo, afirmar que se curou do Covid-19 graças ao sistema público de saúde, a quem deve a sua vida: “nunca agradecerei o suficiente”. Tivemos também o Andrea Bocelli, no Duomo de Milão, vazio, vazio, vazio, mas pleno de emoção e esperança. Pois é, cabe a nós interpretar os sinais.


[1] NOGUEIRA, Kiko. Ex-mulher de Osmar Terra foi torturada por Ustra, ídolo do sujeito que ele bajula por um cargo. Diário do Centro do Mundo. 11 de abril de 2020 Acesso em: 12 de abril de 2020. Disponível em: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/ex-mulher-de-osmar-terra-foi-torturada-por-ustra-idolo-do-sujeito-que-ele-bajula-por-um-cargo-por-kiko-nogueira/


Liana Carleial é economista, professora titular em economia da UFPR e associada do Centro Celso Furtado. E-mail: liana.carleial@gmail.com



Como citar: 



CARLEIAL, Liana. O vírus, os idosos e o “abraço de afogados”. Diálogos Internacionais, vol. 7, n. 70, Abril, 2020. Acesso em: 18 de abril de 2020. Disponível em: http://www.dialogosinternacionais.com.br/2020/04/o-virus-os-idosos-e-o-abraco-de-afogados.html

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